A edição deste centenário jornal “A GUARDA” com o número 5692 vai ter a data de onze de Julho do corrente ano de dois mil e dezanove.

É neste dia que se veneram São Bento de Núrcia, padroeiro da Europa e Santa Olga, de nacionalidade russa a primeira a ser canonizada.
A nível mundial é comemorado o dia mundial da população e por cá temos dois feriados municipais, em Santo Tirso e Arcos de Valdevez por sinal ambos a norte do rio Douro, onde o vinho verde é apreciado e tem qualidade.
A nível histórico, neste jardim à beira-mar plantado, apenas dou conta do dia onze de Julho de mil oitocentos e vinte e dois em que as cortes constituintes votaram a primeira constituição portuguesa.
Mas deixem-me falar de mim, já que o dia onze de Julho conta muito na minha vida. Há cinquenta e oito anos, portanto em mil novecentos e sessenta e um, foi o dia em que eu me senti o maior sábio do mundo. Fiz o meu exame da quarta classe do ensino primário e obrigatório ao tempo. Tudo o que me perguntaram, na prova oral, diga-se, eu respondi certinho e direitinho, da Geometria à História do Império Português, da Leitura e interpretação à Aritmética, da Análise Morfológica à Geografia de Portugal, instalada em quatro continentes, enfim e convenci-me que sabia tudo. E até relativamente a Angola eu disse os rios que nasciam no planalto do Bié. Com a ajuda do mapa lá os localizei. Lembro-me do Cuanza e do Luanda, pois os outros já moram no rol do esquecimento.
Foi o dia mais feliz para mim, pois entendia eu que sabia de tudo, perguntassem-me o que quer que fosse, em meu entender eu sabia de tudo. Pensava eu que para além da ciência que eu tinha não havia mais no Mundo. Mas entendi que mereci bem o fatinho novo que os meus pais me compraram para esse dia, bem como o lacinho com que adornava o colar da camisa.
Onze de Julho de mil novecentos e setenta e dois deixo Paris para me apresentar, uma semana depois, em Leiria, a fim de iniciar o serviço militar obrigatório. Feliz e orgulhoso pois entendia naquele tempo que a Pátria estava acima da minha vida pessoal. Tinha tempo para passar em cidade-luz o dia catorze de Julho, o dia nacional da França e onde até sabia que a “egalité” era respeitada.
Dois anos depois, no mesmo dia onze e ainda debaixo do regime militar, fiz a única coisa que me arrependo de ter feito. Numa hora de euforia passageira tatuei no meu corpo aquele acontecimento, que hoje quando o revejo fico revoltado. Prejudiquei a minha consciência e disso me tem acusado nos dias que vou contando.
Vem depois mais um dia de felicidade em onze de Julho de mil novecentos e setenta e cinco. Foi em Santarém na então mítica cidade da liberdade que consegui aquilo que tanto almejava, que era a carta de condução, ao tempo profissional para todos os veículos automóveis. Pouco proveito tirei desta habilitação, mas devo confessar que em mobilidade à medida que o tempo vai passando, assegura-me um melhor modo de estar na vida.
São estas as recordações que me ficaram marcadas na memória datadas de onze de Julho, sem que para isso tenha de recorrer a qualquer anotação. Memorizei-as devido à importância que, no decorrer da vida, lhe vou atribuindo e o que pesaram na minha conduta no aspecto social.
Nos outros dias desse calendário, eu não estive certamente a dormir, outros factos se terão passado, embora mais identificados com o quotidiano da vida. Estas datas ficaram, por terem acontecido apenas uma vez na existência e que pela importância que lhe atribuímos, pelo mal ou pelo bem não me fogem da memória enquanto ela me assentar nos cinco sentidos bem aferidos. Para que tudo tenha significado, gostaria de passar por cá mais uns anos para recordar estas passagens da vida, a quem comigo dividir dois dedos de conversa.