Em Junho de 2020 escrevi para “A Guarda” uma cronicazinha com o título “Raspe devagar, devagarinho…”.

Partia de três cenas a que havia assistido e terminava assim: “Raspe devagar, devagarinho, para não fugir o dinheirinho.»Na altura um leitor, que considero encontrar-se bem por dentro dos problemas sociais, felicitou-me pelo texto nestes termos: «Este artigo está fantástico. Sabe que há muita gente a cair na miséria e com dívidas astronómicas por causa da raspadinha? É um dos pecados do nosso tempo.» Nunca mais pude esquecer estas palavras. Que a raspadinha era viciante, estava bem à vista nesses «raspódromos» espalhados pelo país que, às vezes, mais parece um casino a céu aberto. Que ela criava facilmente dependência, também eu não alimentava grandes dúvidas. Que ela fosse a causa da «miséria» e de «dívidas astronómicas» de «muita gente», estava eu longe de imaginar, embora pudesse suspeitar que poderia causar problemas financeiros aos mais incautos. Haveria de voltar a tão emblemática realidade, logo ficou decidido.Já outro leitor fez-me chegar uma construtiva crítica pelo telefone dizendo que a crónica, aliás muito interessante, referia simplesmente uma perspectiva, aquela que só vê os jogadores a raspar por esse país fora. E esclarecia com algumas perguntas:- E a perspectiva do ganha-pão de quem se encontra diariamente aqui e ali a vender os célebres cartões? E a perspectiva da Santa Casa da Misericórdia e o bem que ela faz com as somas que vai recebendo todos os dias, semanas, meses e anos? E… etc., etc. Curiosamente as razões que há dias ouvi a um responsável para defender a raspadinha.Dei razão ao estimado leitor, mas sempre lhe fiz ver outras limitações da crónica, aliás explicáveis pela natureza e objectivos limitados de qualquer crónica e texto de opinião. E isto não contando com as limitações óbvias de quem as escreve. Mas a “perspectiva”, conjugada com a situação dramática para que fui alertado, ficou a bailar no meu espírito, até com uma certa intranquilidade. Era a intranquilidade de quem escreve periodicamente para um jornal, sempre necessariamente em perspectiva em confronto com a grande riqueza da realidade que solicita múltiplas perspectivas, e a pensar nas perspectivas, presumivelmente muitas também, de quem lê. Vieram-me à mente outras perspectivas que implicitamente estavam contidas naquela crónica. A perspectiva da política, a perspectiva da justiça social, a perspectiva da saúde mental e até - por que razão não dizê-lo? - a perspectiva da saúde espiritual. Não esperava voltar tão cedo ao assunto, não fosse o adensar das nuvens no nevoeiro de ilusões da nossa vida colectiva. Voltei, pois, e já, agora! Está à porta outra “raspadinha”. E, com ela, outra perspectiva. Ou outras. É a perspectiva da cultura que, triste e lamentavelmente, se encontra inscrita no Orçamento de Estado para 2021, Lei n.º 75-B/2020 de 31 de Dezembro. É também a perspectiva de um Governo de Portugal emanado de um partido que se diz socialista. O lançamento desta polémica raspadinha – já foi anunciado há tempos – tem data marcada. Será o dia 18 de Maio, dia do Conselho de Ministros Europeus da Cultura. Não posso acreditar que seja também a perspectiva da política europeia da cultura. Nem quero crer, embora a coincidência dê para o pensar, que os Ministros Europeus da Cultura possam a apadrinhar tal “raspadinha”. Importará estar em alerta antes que a loucura adormeça mais os espíritos incautos. Por isso junto-me aqui a quantos, pelos meios de comunicação social, já têm vindo a denunciar esta iniciativa do actual Governo que adensa em elevado grau o problema social que constituía já «um dos pecados do nosso tempo» pelo qual se encontra «muita gente a cair na miséria e com dívidas astronómicas», nas palavras do supracitado leitor.Está tudo escrito nos três breves pontos do art.º 248.º daquela lei. Na base do primeiro ponto, o Governo, «A partir das necessidades de intervenção de salvaguarda e de investimento no património edificado público classificado ou em vias de classificação a nível nacional», irá proceder, em 2021, «à calendarização da intervenção plurianual a realizar, bem como à concretização da intervenção considerada urgente.». De acordo com o segundo ponto, «Em 2021, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa procede à aprovação de um jogo autónomo de Lotaria Instantânea denominado “Do Património Cultural”», sendo que, no terceiro ponto, se afirma que «os resultados líquidos de exploração do jogo autónomo de lotaria instantânea … são integralmente atribuídos ao FSPC, destinando-se a despesas com intervenções de salvaguarda e valorização do património cultural.» Entenda-se: o FSPC é o chamado Fundo de Salvaguarda do Património Cultural. É, pois, a «Raspadinha da Cultura», como já vem sendo chamada, ou a «Lotaria instantânea do Património Cultural», conforme a supracitada lei. Com ela espera o Governo arrebanhar mais uns milhões por ano. Terei andado muito distraído na ocasião, mas não vi que algum deputado da Assembleia da República tenha questionado a justeza de tal iniciativa orçamental. Obviamente não se questiona a importância e a necessidade, quantas vezes bem urgente, de salvaguardar o património cultural, mas é profundamente questionável que tal desiderato seja feito à custa do jogo mais viciante que país conhece. Tem de haver outros caminhos. O leitor poderá nunca ter tocado numa raspadinha, mas fique a saber, se é que ainda não sabe, que, conforme a verdade estatística, em 2019 cada português gastou a módica quantia de160€ - o dobro da média europeia - e que os portugueses gastaram 4,7 milhões de euros por dia. Do universo dos cidadãos raspadores, 76,6% são da classe baixa (50%) e média-baixa (26,6%). Pobre país que assim se vai entretendo a raspar cartões de deitar fora enquanto o dinheiro vai fugindo e as cabeças endoidando. Será, em verdade, a “Raspadinha dos Pobres” ao Serviço do Património, como já tenho encontrado escrito. “Raspadinha dos Pobres” não porque resolva ou atenue a sua pobreza, mas porque - sendo claramente visto e objectivamente provado por estudos académicos que o maior número de raspadores são também os mais frágeis economicamente - ela deixa os pobres ainda mais pobres e psiquicamente em maior fragilidade. A “Raspadinha dos Pobres” é também, consequentemente, a raspadinha dos ignóbeis caminhos da injustiça social e de muito desajustamento mental. Não, a “perspectiva” da cultura não pode ensombrar a “perspectiva” do equilíbrio mental de um povo. Salvaguardar o património cultural, certamente. Mas não à custa dos mais pobres. Não, não pode ser verdadeira a cultura que se socorre da vulnerabilidade e dependência dos mais frágeis. Mesmo - ou sobretudo - considerando que a cultura deveria ser o centro e a raiz de um programa de governo de um país deveras democrático.Guarda, 29 de Abril de 2021