Pontos de Vista

Estou a pensar na pandemia sanitária, mas também nos fenómenos de racismo que lançaram a agitação social e a violência nos EUA .De repente, o número de contágios aumentou preocupantemente na Região da “Grande Lisboa” – ou seja, em Lisboa e nos concelhos limítrofes. Vários surtos de infeção foram aqui detetados e as autoridades da saúde estão naturalmente preocupadas. Sem se alongarem na explicação das suas causas (conhecê-las-ão na totalidade?), dizem tratar-se de um fenómeno cuja expansão se deveu, em grande parte, ao aumento da socialização dos jovens que, cansados do longo confinamento imposto pelo estado de emergência, acordaram de súbito, sedentos de festa e de praia, inebriados pela noite e pelo álcool, movimentando-se em aglomerações ruidosas e descuidadas, hormonas aos saltos, na demanda da recuperação do tempo perdido. Simultaneamente, os trabalhadores da construção civil, que nunca deixaram de trabalhar, são também um grupo atingido pelo vírus. Há, por outro lado, imóveis situados em bairros sociais com números crescentes de infetados, que levaram o Presidente da Câmara da Azambuja a manifestar a intenção de estabelecer um cordão sanitário em redor de um prédio, à semelhança do que foi feito em devido tempo, em grande escala, no concelho de Ovar. Mas trata-se de um prédio onde residem famílias de etnia cigana e, quando se fala em “etnia cigana” toca-se numa letra sensível do dicionário em vigor no léxico da nossa civilização ocidental, que nos é imposto pelos valores ancorados nos direitos humanos e constitui corda melindrosa e frágil nos debates políticos dos dias que correm.Refiro-me às conotações e às fronteiras com a segregação ditada pelo racismo. E, por falar em racismo, estamos todos ainda sob o choque do homicídio filmado, no Mineápolis, em direto, do afro-americano George Floyd, garrotado pelo joelho de um polícia branco durante quase nove intermináveis minutos e impiedosamente sufocado até à morte. A revolta foi tal que desencadeou uma vaga de violência que alastrou a mais de 140 cidades americanas e levou o Presidente Trump a revelar mais uma vez o que é: um ser com um ego doentio, prepotente e cego a valores humanos e culturais, que não olha a meios para atingir o único objetivo que o traz obcecado: ser reeleito em novembro próximo.Como escreve Álvaro de Vasconcelos, no “Público, de 3 de junho (pág. 4) “a revolta não é um grito de cólera contra um ato isolado (…) é a manifestação de recusa de um sistema que permite que uma parte dos seus cidadãos sejam tratados como sub-homens (…)”. E, mais adiante: “A América tem um presidente que, perante o horror do crime cometido, virou o seu discurso de ódio contra os manifestantes chamando-lhes “pulhas” e incentivou a violência policial «quando as pilhagens começam, os tiros começam», repetindo as palavras usadas por um chefe da polícia, em 1967, para ameaçar os que se manifestavam pelos direitos cívicos”.O Papa Francisco condenou hoje, dia 3 de junho, com toda a veemência o discurso e as práticas racistas que envergonham as democracias ancoradas no respeito pelos direitos e liberdades fundamentais. Disse o Papa: “Não podemos tolerar nem fechar os olhos sobre qualquer tipo de racismo ou exclusão, mas antes defender a sacralidade da vida humana. Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que a violência é autodestrutiva e auto lesiva. Nada se ganha com a violência. Rezemos pela reconciliação e pela paz”. Em Portugal, os “ciganos” ou, numa formulação socialmente mais correta, as pessoas de “etnia cigana”, senhores de uma cultura própria e muitas vezes orgulhosa e teimosamente isolados dentro das comunidades sociais em que habitam ou trabalham, são vítimas, pela singularidade das suas tradições e pelos hábitos socialmente divergentes cultivados por alguns dos seus “filhos”, de uma desconfiança bastante disseminada, o que torna eleitoralmente estimulante para políticos populistas de extrema-direita erigirem-nos em inimigos principais dos  “sãos costumes”, segurança e bom viver. Tem sido essa a tónica do discurso “anti-ciganos” levada a cabo, com alguma habilidade reconheça-se, por André Ventura e pelo “Chega”. Não passa, no entanto, de um discurso racista e de exclusão, a prazo perigosamente mobilizador. No combate a uma pandemia, como aquele que vivemos, é indiscutível a implementação das medidas – todas as medidas – cientificamente sustentáveis e eficazes, tendo obviamente como limite o respeito dos direitos fundamentais. E SE houver justificação para o estabelecimento do confinamento ou mesmo de um cordão sanitário em redor de um prédio, de uma rua ou de um bairro, onde também vivam algumas pessoas de etnia cigana, deverá proceder-se exatamente da mesma forma que se procederia se fossemos nós que lá vivêssemos. Defender o contrário poderia ser estimulante para certos espíritos “bem pensantes” de esquerda radical, mas seria um erro contra a saúde pública tanto quanto ilógico e insensato. Uma coisa é não tolerar – e sancionar, quando for caso disso – discursos e práticas populistas e racistas; outra alimentar complexos que, assentes em representações de paternalismo deslocado, desculpabilizam a violência e a recusa do mais elementar civismo por parte dos membros das comunidades de origem cigana ou africana. Só levam à não aplicação das medidas de proteção social mais urgentes e adequadas, mormente nos campos da saúde e da segurança públicas. Se todos os portugueses, independentemente da sua etnia, são cidadãos iguais em dignidade e em direitos, são-no também em deveres! Para o equilíbrio desejado é, porém, imperativo que não se responda a um abuso ou a um excesso com um abuso ou um excesso de sinal contrário…Como disse o governador democrata do Illinois, ao rejeitar a hipótese posta pelo   inacreditável presidente Trump  de que o Governo federal pudesse enviar soldados para o seu estado: “O Presidente está a criar um momento incendiário. Quer desviar o assunto do falhanço da resposta ao coronavírus e encontrou um momento de agitação para criar um novo tópico em que pode assumir o papel de Presidente da lei e da ordem”. Entretanto, Joe Biden, o candidato democrata à presidência, acusou Trump de atiçar as “chamas do ódio” e de “estar mais interessado no poder do que nos princípios”.Com o objetivo de abrir caminho para, num rasgo do mais puro populismo, se deslocar a pé a uma igreja próxima – na qual nem sequer entrou, mas em frente da qual se fez fotografar de Bíblia na mão, Trump permitiu que as forças de segurança carregassem (com uso de gás lacrimogéneo) sobre manifestantes concentrados em redor da Casa Branca. Dirigentes religiosos americanos levantaram-se numa censura. Nós também o fazemos numa exortação: “Todos diferentes, todos iguais!”.Lisboa, 4 de junho de 2020