Quinze anos de escolaridade obrigatória

Parece que o governo manifestou agora a intenção de alargar a escolaridade obrigatória para quinze anos. Como todos sabemos, a escolaridade obrigatória já é de doze anos, neste momento. Quando o alargamento de nove para doze anos ocorreu, elevou-se a fasquia superior da escolaridade, fazendo com que todos os jovens tivessem que cumprir essa mesma escolaridade até ao décimo segundo ano, quisessem ou não. Aqueles que a queriam e querem cumprir por vontade própria, com maior ou menor dificuldade, lá a concluem com o sucesso que o próprio esforço lhes permite.Os outros, os que são obrigados a frequentar os doze anos de escola, contra a própria vontade, lá se vão arrastando pelo corredores e recreios dos estabelecimentos de ensino sem que aí vejam qualquer futuro, pois eles já duvidam do próprio futuro nessa modalidade de aprendizagem.Como se costuma dizer que “de pequenino é que se torce o pepino”, vem agora o governo querer remediar aquilo que já não é remediável para milhares e milhares de jovens e anunciar a obrigatoriedade do ensino a partir dos três anos de idade. Ou seja, no passado começou-se a casa pelo telhado e esqueceram-se os alicerces.Todos sabemos, principalmente quem está no ensino, da importância de uma educação pré-escolar sistematizada e feita em estabelecimentos de ensino para aí vocacionados e com pessoal docente e auxiliar competente. Esse ensino pré-escolar é uma alavanca fundamental para o desenvolvimento cognitivo e de competências propedêuticas e sociais das crianças. Permite ainda a identificação de inúmeros problemas, de diversa natureza, cuja deteção precoce pode facilitar a sua abordagem e a adequação de medidas que facilitem a aprendizagem por parte dos alunos.É desse nível de ensino que agora o governo se vem lembrar. E lembra-se num momento em que a grande maioria dos jardins-de-infância das nossas aldeias já se encontram fechados e com uma rede de estabelecimentos que se limita praticamente às zonas urbanas.Como se operacionaliza uma medida destas? As crianças são “ensacadas” em transportes escolares camarários a partir dos três anos de idade?Como se gere um alargamento destes com falta de professores?Depois de tantos anos, com milhares de profissionais do ensino pré-escolar a abandonarem a profissão por falta de expetativas de terem trabalho e lugar nos quadros e com os cursos que habilitam para a docência desertos, sem candidatos, como se responde a uma medida destas?Será mais uma medida populista para português ver?Qual a atratividade da carreira docente para que os jovens vejam futuro e estabilidade nela e a coloquem no topo das prioridades das suas opções no acesso ao ensino superior?Ou vamos continuar a ter como candidatos aos cursos de ensino aqueles que, pelas médias baixas do secundário, só lhes resta essa opção?Será que com o rumo que se está a dar ao ensino não iremos ter como professores, num futuro próximo, aqueles que não vendo futuro na escolaridade de doze anos são coercivamente obrigados a cumpri-la? Hoje, as notícias dão conta da falta de professores em muitas escolas do país e da existência de muitos outros a lecionarem sem habilitação própria para o ensino. E a situação tende a agravar-se com o envelhecimento da classe docente.Para onde nos estão a conduzir? Já pensaram nisso?