Tal como vos prometi, aqui estou eu em quinta-feira de espiga e para falar deste dia.

Também conhecido em termos religiosos por quinta-feira da Ascensão. Acontece quarenta dias depois do domingo de Páscoa e torna um dia muito importante na nossa cultura popular. Esta cultura vem dos tempos em que a nossa população na sua esmagadora maioria era camponesa e na sua crença festejava nos campos o evoluir da própria natureza, nomeadamente no aspecto cerealífero e daí o louvor à espiga, pois é daí que sai o grão que nos fornece a farinha para o nosso pão e o mesmo grão que fornece a semente para as sementeiras das searas do ano seguinte.
A Fé levou sempre os camponeses a terem uma grande adoração por este dia. Embora em Portugal seja considerado um dia útil, é dia santo em vários países do culto cristão. Por cá surgem várias feiras e romarias de norte a sul. No entanto muitos municípios optaram por este dia para feriado municipal. Estou a falar de Alcanena, Alenquer, Almeirim, Alter do Chão, Alvito, Anadia, Ansião, Arraiolos, Arruda dos Vinhos, Azambuja, Beja, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Estremoz, Golegã, Loulé, Mafra, Marinha Grande, Mealhada, Melgaço, Monchique, Mortágua, Oliveira do Bairro, Salvaterra de Magos, Santa Comba Dão, Sobral de Monte Agraço, Torres Novas, Vidigueira e Vila Franca de Xira.
No conceito de consagração concelhia, no calendário anual o dia da espiga apenas é suplantado pelo dia de São João, que conta com mais três concelhos.
Nos concelhos em que quinta-feira de espiga é feriado, pelo que sei e conheço, onde o evento tem maior significado, é no ribatejano concelho da Chamusca onde a tauromaquia também tem uma grande importância, sendo no ano deste ano de dois mil e vinte e dois, o cabeça de cartel, o meu amigo pessoal Manuel Teles Bastos, digno herdeiro da ilustre dinastia taurina descendente do grande Mestre David Ribeiro Teles.
É mais do que evidente que o verdadeiro fundamento desta nossa cultura é a tradição. Que aos poucos tem uma tendência a diminuir, devido ao despovoamento rural e à escassez de conhecimentos que a população urbana tem sobre as actividades agrícolas, que a pouco e pouco, esses conhecimentos vão apenas ficar ao alcance de alguns académicos, que vão optando por esse modo de vida. As novas gerações já não sabem diferenciar as verdadeiras espigas do respectivo cereal, sobretudo as de pragana, que são as barbas que saem da espiga, resultantes da membrana que separa os grãos. Aqui uma certa semelhança entre o trigo, o centeio, do triticale, que é um híbrido que resulta destes dois, ou mesmo da cevada.
As novas tecnologias adaptadas na maquinaria agrícola levaram os camponeses a abandonar o espaço rural em virtude de o trabalho desenvolvido pela força braçal não ter valia suficiente para alimentar aqueles que em anos mais recuados também regavam os campos com suor. Por esse motivo é que o mundo rural só está ao alcance daqueles que sendo poucos podem produzir muito, desprezando por isso a parcela do minifúndio onde todos ficam de barriga vazia.
Também se reconhece que por parte das autoridades administrativas se vão encontrando novos aliciantes para que os campos mantenham vida, pois o seu abandono leva a uma situação caótica, pasto ideal para as chamas dos incêndios selvagens que para trás apenas deixam cinza.
Sem ter pensado bem, desviei-me um pouco do dia da espiga, que é um dia alegre por sinal enfeitado com flores campestres como que a embelezarem a rusticidade das nossas origens, pois de perto ou de longe todos temos uma costela ligada onde passeamos recordando sempre algo do passado.
Eu, como já o afirmei várias vezes, sou um camponês de moderna geração. Vivo no campo sem viver dele, mas defendo-o de tudo o que lhe seja lesivo, para poder tirar dele as melhores regalias ambientais.
E por aqui vos deixo. Espero que esta quinzena vos dê tudo de bom.
Para todos vós, haja saúde e aquele abraço!