Era uma vez… Assim começam tantas historietas fantasiosas de alegrar a criançada e alimentar a sua imaginação.

Mas esta é uma história real. E não é para a criançada.
Era uma vez um menino de sete anos. Como todos os meninos de sete anos, portugueses, espanhóis, alemães ou de outra nacionalidade imaginada, este menino de sete anos apreciava muito chocolate. De todo o chocolate, em geral. Os pais, providenciando a sua saúde, procuravam fazer uma boa gestão de chocolates, lá em casa. E os avós sabiam-no bem. Mas aquele menino de sete anos, como todos os meninos, sabia aproveitar bem as ocasiões. Ele sabia que a avó não resistia à candura do seu pedido. Ele sabia-o, como o sabem todas as crianças com tal idade. Mas daquela vez, o caso não se passou com a avó. Foi com o avô.
Era um dia lindo. Lindo de todo. O Tejo espelhava de tal modo o azul do céu, que dir-se-ia que o azul celeste se alongava na Terra nas águas do rio. Diríamos que, se houvesse o azul perfeito, seria o daquele céu. Era o final da manhã e nem uma brisa de vento agitava os ares. Num dia assim, o avô até saiu mais cedo para saborear primeiro a beleza das águas que se alargavam no estuário com a tranquilidade de quem não tem pressa de chegar ao mar.
Mas a hora chegou e o avô lá se encaminhou para a porta a aguardar a saída dos netos. E os netos chegaram. E aquele menino de sete anos saudou o avô com um querer que era um pedido. Um pedido de vencer qualquer um. Nas palavras, certamente, mas, sobremaneira, no tom e na meiguice de uma carinha feita de ternura e música infantil.
- Avô, eu queria um chocolate. Pode ser? A mana disse que não quer.
- Mas aqui não há onde o comprar. – Respondeu o avô, que não conhecia os cantos da casa e que sabia que não era da vontade da mãe que se fizessem todas as vontades aos filhos, muito menos com chocolates.
Quem conhecia bem os cantos da casa eram os netos. Se conheciam! Pelo menos o neto.
- Há, há. Anda ali comigo. – Disse aquele menino de sete anos, tomando a mão do avô por momentos alheio ao movimento dos amigos no espaço.
Lá estava um pequeno bar. Não tinha grandes possibilidades de escolha, é verdade, mas lá se mostravam chocolates a pedir compra e oferecer doçura.
- A mamã vai ficar zangada. – Ainda disse o avô. - Qual é que queres?
O neto nem terá ouvido a primeira frase do avô. Ele conheceria bem o chocolate da sua preferência. A escolha já estaria feita há muito.
Num instante o chocolate estava nas mãos do neto, que agradeceu ao avô com as palavras, com os olhos luzentes e um rosto transfigurado de alegria. E foi já a caminho do automóvel que, ao desembrulhar o chocolate com aquela satisfação total, aquele menino de sete anos, quando ainda nem sequer havia começado a saborear o chocolate, se saiu com esta observação inesperada:
- Quem inventou isto bem merecia um bom prémio. - E realçava, com energia, aquele advérbio “bem” do “merecia” e o adjectivo “bom” do “prémio” merecido, realce com que o “isto”, gramaticalmente indefinido, ficara bem determinado. O “isto”, veio depois o avô a saber, era o chocolate preferido daquele menino de sete anos. Aquele, daquela marca, com aquela embalagem. Não outro qualquer.
- Tens toda a razão. Como não sabemos quem o inventou nem quem o fabricou, nem se alguém já recebeu algum prémio pela invenção, agradece tu a Deus tudo o que nos deu, incluindo a doçura com que o consomes. – Disse o avô, surpreendido com tal observação do neto que parecia manifestar o dever de agradecer centrado na invenção daquela marca de chocolate e não no seu fabrico ou produção, distribuição ou comercialização. Um menino de sete anos não poderá ainda saber de todo um complexo sistema que está por detrás de um simples pedaço de chocolate.
A gente crescida, sabendo-o, vai-o esquecendo. Ou não o chega a esquecer porque não chegará a pensar em tal. Que multidão de gente está congregada num chocolate saboreado intensamente por um menino de sete anos! Que feixe de solidariedades ali se encontram concentradas! Quantos “obrigados” lhe devemos!
E foi assim que, depois, o avô, no seu íntimo, ficou a agradecer ao neto o ter-lhe pedido um chocolate. Aquela espontânea frase de um miúdo de sete anos a comer um chocolate da sua preferência foi uma lição de vida. E de reconhecimento agradecido. Uma lição que vamos esquecendo. Muito devemos nós em tudo aquilo que tocamos. Em casa, na rua, na escola, no trabalho.
Mesmo em épocas mais tremidas, na generalidade dos países do mundo ocidental em que habitamos, vamos vivendo numa sociedade da abundância e do consumo. E, quando há uma falha nas prateleiras de um supermercado ou nos expositores de uma praça, é já um drama a acalentar lamentos. E procuramos os culpados que podem ser os membros do governo ou os grevistas de um qualquer grupo social. Ou outros. Lamentamos, protestamos, culpamos, mas não nos lembramos de agradecer intimamente quando tudo está ali, arrumadinho, à nossa disposição. De quantos chocolates nos encontramos em dívida! Cada um de nós, a viver confortavelmente na sociedade de bem-estar, nem consegue imaginar o que é viver fora dela, mesmo quando os meios de comunicação social nos trazem números e imagens, vindas de longe ou de perto, das misérias humanas. Das guerras e das fomes. Dos dramas e tragédias de todos os tipos e feitios.
Bem sei o que já está o leitor a dizer consigo que tudo o que existe nesses espaços de consumo é pago com dinheiro. E é verdade. Mas o próprio dinheiro é uma invenção humana. E a matemática com que se conta também. E de que serviria o dinheiro se não houvesse nada para comprar? Também o dinheiro é um chocolate inventado pelo comércio.
Vivemos do saber acumulado ao longo de gerações. Numa cozinha moderna, nos muitos electrodomésticos que todos os dias utilizamos, encontra-se materializada toda a ciência, o saber e o saber fazer, as invenções e as descobertas. Está lá, na cozinha caseira ou na cozinha de um restaurante, uma rede de invenções, premiadas, ou não, por insignes academias. Está lá uma panóplia de fórmulas matemáticas, inventadas ou descobertas por uma longa geração de cientistas cujos nomes ignoramos, fórmulas que expressam outras tantas leis da física, da química, da biologia e, a seu modo, da economia e da sociologia.
Vivemos dos desenvolvimentos civilizacionais acumulados ao longo da história. Dos nossos antepassados das cavernas aos mundos contemporâneos das metrópoles. Grandes, médias ou pequenas. Mas elas aí estão a contrastar, quantas vezes, com os «bairros de lata» das suas imediações ou com as palhotas perdidas na fome da selva africana ou de outros lugarejos ignorados nesses mundos do viver humano. E esquecemos que aquela fome poderia ser nossa.
A quem devemos a sorte que temos? Ela, a sorte, que é o chocolate que todos os dias vamos saboreando aqui e ali, em casa, na rua e no trabalho. Que sorte vamos tendo! Tantas espécies de sorte como as espécies de chocolate que encontramos no mercado. Estão ali solidários anónimos que bem mereciam um bom prémio.
Vivemos no mundo do dom, da dádiva. Como o chocolate que o avô doou ao neto. E a dádiva é para agradecer. Encontramo-nos, todos, em dívida. Tudo em nós é dádiva. Do Sol à Terra. De Deus e de quem nos antecedeu na vida doada.
Reconhecer as dádivas que nos deixaram os antepassados, bem como a nossa dependência dos bens sociais com que somos brindados no dia-a-dia, poderia ser o princípio de maior harmonia e paz neste nosso tão problemático mundo. Reconhecer e agradecer.
Chegado ao carro, ainda o neto mordiscava o último pedacinho, saboreando-o, lentamente, como lamento por desaparecer tão depressa.
O avô olhou de novo o rio na tranquilidade calma da corrente das águas em que se espelhava o céu todo vestido de azul-azul. Um azul doce que só convidava à meditação. Era outro sabor. Rodou a chave do automóvel e pô-lo devagarinho em andamento, convidando os netos a sentirem aquela beleza, dádiva de Deus. E apreciá-la como se fosse o mais saboroso chocolate.
Uns dias mais tarde, o avô descobriu que, na escola frequentada pelos netos, havia um grande painel onde se podia ler: «Tudo te foi dado. E tu… o que tens para dar ao mundo?» O mundo bem precisa que sejam descobertos novos modos de olhar. De receber e de dar.
Guarda, 24 de Maio de 2023