Agora que a euforia já passou, os relógios deram as doze badaladas,

o fogo de artifício maravilhou multidões e os foguetes estrondaram os ares, o espumante foi bebido, as passas de uva tragadas e os desejos bem pesados na balança do bem-estar ou da imaginada felicidade, enquanto lá longe as bombas rebombam sem tréguas e o fogo, de artifício também, é de morte e de lágrimas, haja agora tempo para pensar. Na nossa fragilidade, na nossa pequenez, nos nossos sonhos truncados, no sopro com que embalamos as nossas vidas, enquanto o tempo passa por nós como presente dado de oportunidades.
Há dias dissemos adeus a 2023 misturando-o com os votos de boas vindas a 2024. Foi a presença de um tempo presente que pereceu instantânea e definitivamente. O ano 2023 já foi e 2024 vai indo numa sucessão incontável de momentos presentes.
Admirável – ou estranha - medida esta com que medimos o tempo. Estamos em 2023 a que dizemos adeus e, no mesmo instante, num milésimo de segundo que é um segundo sem o ser, ou, melhor dito, num momento sem tempo, encontramo-nos em 2024, naquele momento temporal pelo qual outros, a viver algures no planeta, já passaram há muitas horas. E que horas e minutos! Mudámos de ano no calendário e mudámos de ano na idade. Todos somos mais velhos desde aquele instante e de outros instantes já passados.
Estranha – ou admirável - aritmética esta, que arranjámos para medir o tempo e para preenchermos os anos e os dias contados por ela, sem sabermos bem o que o tempo é apesar de filósofos e cientistas andarem com ele às voltas desde milénios. E vamos vivendo aritmeticamente sem atendermos à segunda carta de Pedro a dizer-nos que «para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia» (2Pd 3, 8).
Bem, mas nós vivemos no tempo, sem sabermos bem o que o tempo é, e não na eternidade, que muito menos sabemos o que ela é. E para ninguém se perder, vamos dando números aos momentos. A cada dia, a cada mês, a cada ano, a cada século, a cada milénio. Todos o aceitamos sem contestação. Mais, sem darmos por isso. E a cada ano passado damos um adeus e a cada ano vindouro damos as boas-vindas. E em festa. Quanto mais de arromba ela for, mais esperamos que o ano entrado seja melhor que os outros. Será? Tola e ociosa pergunta! Mas viva a esperança, tão necessária nos nossos tempos.
Aí está 2024. Graças a Deus. Um ano novo, como sói dizer-se, sem sabermos bem qual a razão. Que venha, então por bem, este ano novinho em folha ou de muitas folhas por preencher.
Estranha – ou admirável - aritmética esta, dizia, que nós encontrámos para medirmos o tempo. A ela nos adaptámos e já nem sabemos imaginar que poderia ser de outro modo. Dê-se de barato que será a melhor maneira de muitas outras que a nossa espécie já utilizou, embora se possa pensar [eu pensei-o na minha escola primária] que um Ano Novo deveria começar no início da Primavera, quando a natureza se renova. E lá estava sempre o Sol, a Lua e outros astros, com os seus movimentos, reais ou aparentes, a darem um empurrão para que tal aritmética se fosse adaptando e enriquecendo com as sucessivas contagens. Nascemos com esse comboio em andamento e festejamos também o momento em que entrámos nessa carruagem. Sempre, todos os anos com que vamos rejubilando e envelhecendo.
Cada dia, cada mês, cada ano, lá se encontra a estranha aritmética que se torna aritmética trágica quando as guerras são a medida do tempo. E a contagem já vem de longe. Houve a guerra dos cem anos como houve a guerra dos trinta anos e dos quatro; houve a guerra dos seis anos como houve a guerra dos seis dias. E, mais longe ou mais perto do nosso viver, houve muitas outras guerras, aqui e ali, a contarem o tempo. É o tempo medido pelas guerras que parecem vencer o tempo ditado pelo Sol, pela Lua, por outros astros e pelos relógios, primitivos, mecânicos ou electrónicos. São as guerras a medir o tempo. Estranha medida esta!
Sim. São as guerras a medir o tempo. E as guerras aí estão presentes contadas por anos ou por meses, sem olharmos, porque as esquecemos, outras guerras menos faladas, mas, embora sem medida, sem deixarem de ser guerras para quem diariamente as vai sofrendo.
São as guerras a medir os tempos do nosso viver e os meios de comunicação social vão-no-las lembrando cada dia. Se ali há uma guerra que se vai aproximando dos dois anos, além há outra guerra que se vai contando todos os dias completando meses. Meses que são nossos. Nelas nos sentimos envolvidos. Pela geografia, pela cultura, pela humanidade de que participamos. Nós estamos lá, nestas guerras, e noutras de que não falamos. Uma guerra, seja ela qual for, é sempre uma ferida na humanidade que sangra enquanto os olhos choram. E contam-se os mortos das guerras sem nunca sabermos se a conta é certa, mas não se contam as lágrimas nelas choradas. Não temos – nem teremos - aritmética capaz de contar as lágrimas assim caídas na terra manchada de sangue. O seu mundo é misterioso e insondável. Elas são tão profundamente humanas que não poderão ser redutíveis a números da aritmética por mais exacta que ela seja. As lágrimas humanas estão sempre, sempre, para além da matemática dos números enganadores.
Estranha aritmética engendrada pelos humanos que também parece não ser adequada para medir o tempo da paz. Estranhos seres somos nós, os humanos, que assim engendramos tal aritmética para contarmos os dias, os meses e os anos de guerras ignorando os tempos de paz. Ou será que não contamos os tempos de paz porque eles, se existem, são raros, frágeis e fugidios? Mas, por frágeis e fugidios que sejam os tempos de paz, importará trazê-los para a memória dos homens. Para que seja a paz a trazer a paz.
Ocorre-me um poema de Afonso Cruz que aparece no final do pequeno livro de poesia intitulado «Paz traz paz»:
«o mal é contagiante e pode
ser pequeno e insignificante, mas
pode crescer e crescer e crescer e crescer e
vir a matar milhões de pessoas, porque o mal
tem muita vontade de devastar.
A boa notícia
é que o bem também contagia, também
pode ser uma pandemia
e tem um nome muito simples e fácil de decorar:
Paz traz paz.
Que tem como consequência o fenómeno
chamado
ser ser humano.»
Aprender a «ser ser humano» será o fruto da paz que traz a paz, como pandemia que se difunde. Fala-se da paz ausente em tempo de guerra. Fala-se de negociações reais, ou pretensamente reais, para acabar com a guerra. E, quando adquirida, se adquirida, nos areópagos dos nossos sociais dizeres esquecemos a voz da paz que traz a paz e logo vem novamente a guerra. Verdadeiramente é difícil que o bem alcance a história neste mundo do nosso viver. Cegos na guerra, esquecidos do tempo da paz.
Em tempo de Advento, poderíamos perguntar com esperança: Quem vem lá?
Em tempo de Natal poderíamos perguntar com a alegria da fé: Quem anda por aí?
E agora, que o tempo de Natal passou, importará perguntar: Quem ficou por cá?
Ficou por cá o «Príncipe da Paz» a olhar para a superfície e profundeza do mundo, tanto na gruta de Belém, como na Cruz de Jerusalém e no sepulcro vazio de José de Arimateia. Ficou por cá hoje, como outrora, nos tempos propícios que transcendem a aritmética dos dias, das semanas, dos meses, dos anos e dos séculos e milénios. Quem ficou por cá, pelos séculos dos séculos, é o «Príncipe da Paz». E por cá anda o ser humano tantas vezes surdo à Sua voz, ele que, no dizer do teólogo Karl Rahner, é chamado a ser o «Ouvinte da Palavra». Da «Palavra» que ficou por cá apesar de rejeitada pela lógica da guerra e do estrondo das armas. Mas… haja a paz.
Guarda, Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2024