Histórias que a Vida Conta

Porque sou católico, a minha primeira inclinação foi para dar a esta crónica o título “Que Deus nos Acuda!”. Recordado, porém, que “não se deve invocar o santo nome de Deus em vão”, logo desisti da ideia, tanto mais que ia falar da situação pantanosa e, até, pútrida da política nacional. Deus tem mais com que se ocupar do que com o apodrecimento da situação, com as ambições pessoais dos políticos, com as traições e as malfeitorias que não se cansam de praticar de cara destapada e em plena luz do dia. É certo que não sei quem é que pode acorrer em nosso auxílio. Quando escrevo “nosso”, refiro-me ao país, aos portugueses em geral. Os políticos dos diferentes partidos não me parecem interessados senão nos seus projetos pessoais de poder ou de influência, alargados às suas clientelas. O que me faz reconhecer aquilo de que de alguma forma venho desconfiando: grande parte dos nossos políticos têm um deficit assinalável de cultura política. Não sabem o que é exatamente a Política (com maiúscula), ou seja, acham que a Política é “apenas” uma profissão, onde se tem “uma carreira” com tudo o que isso significa de à vontade, desde o social ao económico, onde se pode brilhar, ter sucesso, poder e mando. Para quê? Aí é que está o busílis. É que em vez de olharem para fora, para a vida dos outros, para o caminho do seu país em busca de dias melhores e proventos mais justos na sua distribuição e fruição, olham para dentro, para o seu poleiro e seu equilíbrio nele ameaçado. Julgam-se iluminados ao ponto de manipularem ou desprezarem as regras da gestão política dos seus partidos e avançam teimosamente numa luta que ajudaram a acender, recusando qualquer alternativa ou alternância. Não lhes chamem “políticos”, são “politiqueiros” por infantilidade ou teimosia, e, exatamente ao contrário do que deviam ter por missão, passam a fazer parte do problema em vez de fazer parte da solução…!Atento a tudo, desiludido e, por certo, preocupado, o P.R. vê isso e tem pesadelos.Mas, olhando para o “anunciado” chumbo do Orçamento do Estado (O.E.) às mãos da esquerda que constituiu a “geringonça”, o povo pergunta-se a quem cabem as maiores culpas: se ao PS e ao Governo, se ao Bloco de Esquerda, se ao PCP e ao seu apêndice “verde”. Por mim diria que cabe a todos, sem exceção, talvez mais ao PS, que me parece ter sido quem mais quis ir para as eleições pré-anunciadas (talvez prematuramente) pelo P.R. Pessoalmente, não alinho com quem quer culpar o próprio Presidente, com o argumento maquiavélico de que, ao fazer o tal pré-anúncio de dissolução do Parlamento, estaria a imaginar a via aberta para a renovação do legislativo com um terçar de armas que permitiria renovar chefias partidárias e recolher o retrato real e atualizado da situação inter-partidária. Seria uma solução do tipo kamikase, excessivamente arriscada, mesmo para um grande mestre de “xadrez político” como ele é. É certo que o Presidente sempre poderá invocar em sua defesa – e não vai deixar de o fazer perante o cataclismo que varreu a cena política nacional – que, ninguém como ele apelou para a necessidade de salvar o O.E.A verdade é que o aceno de eleições legislativas antecipadas, num momento em que a direita democrática e o centro-direita, nomeadamente o PSD se encontravam em plena crise interna para renovação da liderança era um “convite” demasiadamente sedutor para ser desperdiçado por um “jongleur” como António Costa. É por isso que entendo que lhe pertenceu a maior parcela de responsabilidade no chumbo do OE, ainda que – e até porque – a fórmula da “geringonça” estava esgotada. Mas qual o papel do P.R. no meio deste descalabro? Não sei, não vislumbro, não adivinho…! Mas o certo é que o terramoto e o tsunami aconteceram em simultâneo.No PSD e no CDS, em vez de um grito de “cerrar fileiras”, ouviu-se o grito de “vamo-nos a eles”! Mas “eles” não eram os adversários “de fora” com quem era suposto competir: eles eram gente “de dentro”, do próprio partido, gente que passou a ser o inimigo principal. Rangel aceitou o repto lançado por Rio e disponibilizou-se para o combate interno, marcado para o dia 4 de dezembro. Mas, nesse momento, já Rio pretendia adiar sine die o duelo com o seu rival. Ou seja, Rui Rio deixou de querer as eleições partidárias, com o argumento, que pode ser razoável, mas não me parece ser invocável, de que o calendário suposto para as eleições nacionais não permitirá que o Partido se prepare a tempo e nas devidas condições. Por isso, e por ter sido recebido, a seu pedido, pelo P.R., foram alvo dos ataques mais inclementes por parte de Rio e da sua entourage, bem mais violentos do que alguma vez lhes ouvimos dirigir, enquanto oposição, contra o PS e o Governo. Porém, no Conselho Nacional, Rui Rio foi derrotado, tendo sido confirmada a data de 4 de dezembro para a eleição do presidente do partido. Em face do calendário, muito apertado, das eleições nacionais, será debatido no próximo Conselho Nacional, a realizar no sábado, dia 6 de novembro, a proposta de antecipação do Congresso do PSD, uma vez que a sua realização nas datas previstas – ou seja, em meados de janeiro – é incompatível com a apresentação das listas de deputados, caso ocorra a vitória de Rangel. Nunca as datas foram tão decisivas num confronto eleitoral…Entretanto, no CDS, Francisco Rodrigues dos Santos decidiu, à revelia dos princípios democráticos, adiar para depois das eleições nacionais o debate interno contra Nuno Melo. A conclusão a retirar salta à vista: o atual líder do CDS não quer debater a liderança do partido com o seu opositor. Daí o cataclismo que assolou o CDS – um dos quatro partidos fundadores da nossa democracia – e está a provocar a debandada de figuras importantes do partido, a ameaça de rutura por parte de outras, com a transformação do CDS num morto-vivo da nossa política democrática. O partido que foi de Amaro da Costa, Freitas do Amaral, Lucas Pires, Adriano Moreira, Paulo Portas, Assunção Cristas e outros importantes líderes e tribunos, está em falência técnica e, depois deste descalabro, da direita democrática sobrará uma parte do PSD, se sobreviver à tempestade interna que o está a assolar, e a Iniciativa Liberal (IL). O Chega, esse vai engordar com os restos do sinistro festim dos impudentes.Quando em plena crise gerada por uma pandemia que apesar dos meios de defesa criados, está ainda ativa e sobretudo, quando a classe política se digladia, em todos os quadrantes, num clima de discórdia a raiar o mentecapto, na hora em que esperamos uma ajuda da União Europeia a um nível nunca dantes atingido, quando o Mundo ecológico exige uma conjugação de esforços a nível global jamais vista na urgência e na complexidade, estes senhores da Política em geral entretêm-se em danças guerreiras , como um bando de “meninos à volta da fogueira” (onde é que eu já ouvi isto?). Só que não estamos num campo de férias, meus senhores, estamos no meio de uma tempestade e é bom que se compenetrem que não podemos ser toda a vida…crianças!ESTÁ UM PAÍS À ESPERA! Lisboa, 3 de novembro de 2021