Olhos nos olhos


A parte da manhã de trabalho conseguia levá-la a cabo, apesar das dificuldades que a nova situação viera criar. A partir da hora do almoço, a situação tornava-se bastante mais difícil. Sobretudo após o café, o primeiro da tarde, a síndroma de privação deixava-o profundamente angustiado.
Nessa tarde, após a hesitação inicial, decidiu. Tinha de fumar um cigarro. Mas fumar um cigarro, como e onde? Pois não fora ele quem fizera parte da administração que assinara e fizera entrar em vigor na empresa a norma que proibia fumar? Decerto que sim, e a norma tinha toda a razão de ser. O que se pretendia era salvaguardar o direito à saúde dos trabalhadores que não fumavam e que, até ali, estavam a ter de inalar o fumo dos colegas fumadores. E era verdade que os não fumadores foram fazendo uma campanha lenta, sofrendo, durante anos, os malefícios do tabaco. No fim de anos de esforços, haviam conseguido que uma Ordem de Serviço lhes consagrasse o direito de não terem de inalar o fumo alheio. Mas, no seu caso pessoal, a situação era completamente distinta. Trabalhava num gabinete sozinho, pelo que o fumo o atingiria somente a si. É evidente que sabia quão mal isso lhe fazia. Assistira, na empresa, a várias sessões sobre os malefícios do tabaco. Não só a nicotina era de todo prejudicial afectando no sistema nervoso, como o papel do cigarro continha alcatrão e outras substâncias altamente cancerígenas. De resto, na empresa, já participara em funerais de homens e de mulheres, vítimas do tabaco. E, para além dos falecidos, acudiam-lhe agora ao pensamento as identidades daqueles que estavam de baixa prolongada por efeito do tabagismo. O Menezes, que visitara recentemente no Pulido Valente, e que estava convencido de estar a sair duma tuberculose, o Engº. Medeiros, que sobrevivera a um carcinoma da laringe, mas que perdera a voz e até o Assessor, o Prof. Valentim, que estava a deslocar-se repetidamente a Londres, em busca de auxílio. Sim, não havia dúvidas de que o tabaco era péssimo, e a Ordem de Serviço fora um grande passo em frente, dentro da Companhia. Porém, no seu caso concreto, prescindira de ajuda medicamentosa, confiando na sua força de vontade. Mas um só cigarro não lhe iria fazer mal, pelo menos não lhe faria tão mal como a síndroma de privação, que o estava a deixar nervosíssimo. Além do mais, estava a perder demasiado tempo com o assunto. A verdade é que não lhe agradava nada que as secretárias, a trabalharem na sala ao lado, se apercebessem do seu problema. Os trabalhadores, esses, é que não podiam saber.
Certificou-se que a Luísa, secretária do Presidente do Conselho de Administração, ainda não havia chegado. Recordou-se de a ter ouvido dizer, na parte da manhã, que tinha de ir ao médico com o miúdo. Assim, só tinha de se preocupar com a sua secretária.
- Suzete, faça o favor de ir lá abaixo, ao gabinete do Eng.º. Pimentel e traga o dossier que ele tem para mim com o parecer do Conselho Fiscal. E, já agora que vai ao rés-do-chão, dê um pulo lá fora e compre-me o jornal, se faz favor.
Despachada a secretária, tirou um cigarro do maço, bateu com a ponta na tampa lisa do isqueiro e acendeu-o. Uma baforada de fumo emergiu da boca e, satisfeito, deu outra puxada no cigarro. Recordou-se, numa associação de ideias, dos tempos, já longínquos, em que a televisão fazia as apologia do tabaco “Kart, quilómetros de prazer!“ Que bem lhe estava a saber este cigarro que, desde que proibido na empresa, lhe apetecia cada vez mais.
Pelo relógio, calculou que a secretária não teria tido tempo de levar a cabo todas tarefas de que a incumbira, pelo que arriscou um segundo cigarro.
Passou os olhos pelos dossiers que tinha na frente, despachou várias propostas dos serviços, assegurando-se de que as despesas orçamentadas não seriam ultrapassadas.
- Truz, truz, com licença. - Irrompeu o Aristides Mendonça pelo gabinete adentro.
- O Senhor Engenheiro desculpe - esclareceu o invasor, o poderoso líder sindical e membro da Comissão de Trabalhadores - mas, como a sua secretária não estava, fui entrando.
- Fez bem, Senhor Aristides, fez bem. - Aquiesceu o Administrador, que segurava ainda na mão o que restava do cigarro -.Em que lhe posso ser útil?
- Sabe Senhor Engenheiro? Ainda bem que o vejo fumar. É que as trabalhadoras pediram a nossa intervenção no sentido de verem revogada a Ordem de Serviço sobre o tabaco. Dizem que estão a ser discriminadas ao terem de ir fumar para a entrada das instalações da empresa. Agora já sei que podemos contar consigo.