Quando regressar à minha aldeia, já não encontrarei as árvores e as pessoas da minha infância.

Ao percorrer, à noite, as ruas e as ruelas, ainda ouvirei os murmúrios que permaneceram inalteráveis nas casas, agora vazias, mas ainda habitadas pelas sombras, pelos rostos, gestos e cheiros dos seus proprietários que repousam agora num mundo etéreo de onde continuam a observá-las.
Ainda ouvirei a voz da minha mãe a cantar os romances nas tardes quentes de Agosto. Foram eles que me ensinaram o ritmo das frases balbuciantes nas quais saboreava as palavras que me encantavam e que agora coloco nos livros que escrevo. Aprendi a cantar com os pássaros e os meus pensamentos voavam com o vento e as águias no céu para me mostrarem os pontos cardeais de um mundo que estava então a começar para mim.
Na minha memória estão ainda vivos o cheiro do pão de centeio a sair do forno do Rossio, o caldo de batatas com um pimento vermelho a saber a poejo, os coentros que perfumavam a cozinha e que tornavam as nossas refeições mais apetitosas e agradáveis.
A inocência habitava ainda os meus dias. O mal, o bem conhecê-los-ia mais tarde.
A minha memória continua cheia de rostos de ceifeiros que vinham da vizinha Beira Baixa, do Campo, como se dizia. Esperavam na praça do fontanário, junto à igreja, por quem os quisesse empregar. As searas de centeio ondulariam pouco mais tempo até darem lugar ao restolho louro, à espera das primeiras trovoadas de Setembro.
Ao redor das medas do pão jogávamos à espada lua-lua, à chicha-lagorra, e os nossos corpos rebolavam uns contra os outros à procura de nos afirmarmos em superioridade e em destreza. Não dávamos conta da habilidade daquelas mulheres que deitavam os grãos de centeio ao ar para que o vento os separasse das praganas, qual joio danoso, que não poderiam ir juntas para a arca colocada no lugar mais preservado da casa, que o sustento da família assim o requeria. Homens valiosos e esforçados lançavam os manguais que dançavam nos ares para baterem com força em cima das espigas para desgranarem até à última réstia, porque grão a grão enche a galinha o papo.
Os mais velhos estenderiam os nagalhos para enfeixar a palha que encheriam os palheiros, alimento necessário no inverno para os animais que viviam paredes meias connosco.
No fim da malha, comeria um gaspacho com o pão duro a boiar na água fresca a saber a alho e vinagre e as mulheres servir-nos-iam mílharas às talhadas com mel.
Acordaria com o ruído das castanhas que minha mãe levantava de vez em quando ao lume num assador todo enegrecido pela “lambra” das giestas. Levaria uma mão cheia de castanhas nos bolsos, ainda quentinhas, e que me fariam companhia até à escola. Para meu consolo, caminharia, solitário, pelas veredas, ao lado dos castanheiros, pisando as folhas secas para ouvir o seu esterlicar surdo e suave, a deslocá-las constantemente com a biqueira dos meus sapatos. Murmuraria os cânticos da cerimónia da minha primeira comunhão porque efusivo de alegria, sentia-me irmanado com a natureza que se preparava para continuar o inevitável ciclo da vida.