Olhos nos olhos


Quando era criança, posso dizer que era completamente feliz. Tudo o que me rodeava irradiava felicidade. A minha família era fonte de alegrias constantes, com uns pais espantosos e uns irmãos magníficos.
As preocupações escolares duravam, às vezes, uma parte do dia, mas, depois, sobrava tempo para regressar ao encantamento do meu quotidiano.
A casa era tão grande que encontrávamos sempre algum motivo de brincadeira.
De Inverno, construíamos cidades, com estradas, aeroportos e prédios, sendo a maior diversão “passear” com os automóveis por essas curvas que as nossas mãos moldavam para esse efeito, criando montes e vales, atapetando estradas, e sinalizando os perigos, para os condutores imaginários dos carros em miniatura.
Se estava bom tempo, uns tubos de “Lusalite”, que sobraram de alguma chaminé, convertiam-se em peças de artilharia montadas em triciclos, que fazíamos seguir até ao campo de batalha, algures no fundo do quintal. E duma enorme caixa de cartão, que era o paiol das munições, atacávamos o “inimigo“ com “granadas”, que eram torrões de terra seca, que, ao atingirem o alvo, levantavam uma poeirada como se estivéssemos em pleno campo de batalha.
Nos dias em que brincávamos aos “cow boys“, na quinta anexa à “Casa do Benfeito”, as tardes dos fins da Primavera eram um enorme encantamento, só quebrado quando, pelo facto de termos sido “atingidos” por um inimigo, tínhamos de ficar de fora durante dez minutos, findos os quais podíamos retomar a brincadeira, só que, agora, debaixo duma nova identidade.
- Ei, tu morreste, já não podes ser o Cisco Kid, - Dizia o Miguel, preocupado com a legalidade.
- Está bem, eu agora sou o Zorro, pronto, acabou-se.
-.Mas não podes ser Zorro, sem mascarilha.
- Pronto, sou o irmão do Zorro, está visto.
- Podes ser, de facto, o irmão do Zorro, mas tens de esperar porque ainda… só morreste há cinco minutos.
- Ei, atenção, que estão a chegar os índios.
E os índios lá apareciam aguerridos e barulhentos, munidos de machados de pau e muito pouco receptivos a terem de morrer de vez em quando.
Para além das festas do Natal e da Páscoa, a grande romaria, que eram as Festas das Cruzes, ocupava-nos, para grande preocupação dos nossos pais, durante cerca de um mês, durante o qual, os “carrinhos de choque” eram a nossa perdição.
- Autopista São José, o mais completo divertimento para homens, senhoras e cavalheiros. Qualquer carro funciona, qualquer carro proporciona a mesma viajem agradável - gritavam os altifalantes, nos intervalos da música, altíssima.
Findas as brincadeiras, regressávamos ao mundo real, com contas de dividir, com vírgulas, que era uma dor de alma.
As províncias de Portugal, os reis e as rainhas, os rios e os caminhos-de-ferro, eram coisas que eu ouvia aos meus irmãos de modo que, quando chegava a minha vez, eu já estava meio familiarizado com a situação. E, se eles foram capazes, eu também seria.
Ao evocar estes momentos da minha infância, acode-me à memória a poesia de Augusto Cury:
“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço que a minha vida é a Maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “não“.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.”