Sabe o leitor o que é o PRR? Não, não se trata de um novo partido, mas poderia ser.

Por exemplo, Partido da Restauração da República. Se não lhe agrada a palavra «restauração», pode substituí-la por «reinvenção», «regeneração», «reconciliação», «reorientação», «reconstituição», «renascimento», «revitalização». «reformulação», «reconstrução», ou outros termos que facilmente o leitor encontrará. E, se não lhe agradar a República ou achar que ela já não tem remédio, então terá que fazer renascer em si a esperança, mesmo contra toda a esperança.Não, PRR não é o acrónimo de um partido, mas de um plano inventado na União Europeia e que tem vindo a ser conhecido por “bazuca”. É o «Plano de Recuperação e Resiliência» com que o Governo espera salvar-se e que tantos já vêm avisando, não sei se por pessimismo ou se com a real experiência de vida, que pode tratar-se de mais uma oportunidade perdida. Mas não, também não vou pelos meandros do «Plano» nem pela «Recuperação» até porque me encontro cerceado de dúvidas pelo determinativo da «Recuperação». O nosso Presidente da República, já o terá dito num dos seus habituais comentários diários, que preferia falar antes de “reconstrução”. Eu, cidadão desentendido destas coisas, com a devida vénia poderia sugerir também aquelas palavras já perdidas no decorrer deste texto: «reinvenção», «regeneração», «reconciliação», «reorientação», «reconstituição», «renascimento», «revitalização». «reformulação», «reconstrução» ou «restauração». E poderia sugerir também o seu determinativo, fosse ele a «democracia», o «bem comum colectivo», o «serviço público», a «liderança política», a «vida parlamentar», o «sistema político» ou o «sentido de estado», para além do «desenvolvimento» ou da «economia», campos para onde parecem apontar os milhões “bazuqueiros” do plano. Bem, e a resiliência? A palavra «resiliência» tornou-se uma palavra da moda. Não haverá dia nenhum que não a ouçamos nos meios de comunicação falados ou que não a possamos encontrar nos meios escritos. Entrou mesmo no meio livreiro empurrada pela força da necessidade de superarmos da melhor maneira os tempos pandémicos por que passámos e continuamos a passar. O livrinho Viver num Mundo Imprevisível, de Frédéric Lenoir, é mesmo apresentado como «um manual de sobrevivência e crescimento interior, ou seja, um manual de resiliência». Não deixa de ser interessante que Lenoir associe a resiliência ao crescimento interior. Interessante, embora não seja de admirar sabendo como o seu pensamento se passeia pelos filósofos do passado, os Estoicos e Montaigne ou Espinosa e visita de passagem os dizeres de Buda.Se bem me lembro, encontrei pela primeira vez a palavra “resiliência” no domínio da Psicologia. Com origem no verbo latino “resilio” (saltar para trás), a palavra começou por ser utilizada primeiro na Física como propriedade de os materiais poderem regressar à sua forma original, depois de estarem sujeitos a alguma deformação. Depois, como acontece tantas vezes na dinâmica da língua, ela foi-se generalizando ao domínio da Psicologia, das Organizações e ao âmbito da Ecologia. Mas sempre, de uma maneira física ou de modo figurado lá se encontra a ideia de restaurar ou revitalizar um sistema ou um estado depois de ter passado por alguma situação crítica. Já se está a ver que, no domínio do humano, a resiliência tanto pode ser individual como colectiva, de sociedades, povos, nações, ou da Humanidade no seu todo, como se tem verificado com o choque brutal da pandemia.Escrevo a 10 de Junho. Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Escrevo quando anda no ar uma polémica com a nomeação de um conhecido comentador socialista para comissário executivo das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Da ilha da Madeira, onde se encontra, o Sr. Presidente da República diz que se trata de «um historiador, um politólogo, atento à realidade contemporânea do país, consensual, muito consensual, embora predominantemente no centro-esquerda do que à direita, mas muito consensual no quadro de uma data como é o 25 de Abril.» Quando no auge de uma tal polémica e contestação a esse «historiador» e «politólogo», três vezes usa o comentador Presidente o adjectivo “consensual”, sendo duas delas em modo superlativo, o cidadão comum bem pode perguntar o que é ser “com senso” e bem pode ficar sem saber de que se admirar mais: se de um Presidente a cavalgar a onda da popularidade fácil onde falta frequentemente um moderado silêncio de Estado, se a falta de sensibilidade de um Governo que deveria sentir a necessidade de nomear alguém visivelmente “consensual” para uma missão que se pretende unificadora do sentimento de um povo. Assim, escrevo com profunda mágoa, fica o pobre cidadão a confirmar, com mais um exemplo, como em cada nomeação é criada uma nova quinta para serviço ou abrigo de amigos e correligionários. E isto, sem qualquer desprimor, da minha parte, pela personalidade em causa que, se vivêssemos numa democracia adulta, não se sentiria muito bem na roupeta com que se deixou vestir. E, já agora, uma pergunta: não se poderia ter encontrado para presidir a essa comissão executiva das citadas comemorações, cuja realização não se contesta, um outro Almirante Gouveia e Melo cujo sentido de serviço no projecto da vacinação é por todos admirado e louvado? Bem lhe agradeceria o 25 de Abril. Assim, a julgar pela polémica que se levantou, a nomeação está a transformar-se numa fazedora de bipolarização “geringonceira”. Exactamente o contrário daquilo que seria de desejar.Sabe o leitor o que é o PRR? Seja lá o que isso for na nossa Europa, ele, «Plano de Recuperação e Resiliência», bem precisa de ser cimentado com o PRR da nossa resiliência com que vai sendo alimentada a esperança na «reinvenção de Portugal». O «bazuqueiro» económico PRR bem precisa de um parceiro. Seja ele o Plano da Responsabilidade e da Resiliência para que a «Recuperação» não se constitua como um «voltar ao habitual normal», mas seja a construção de nova normalidade onde o poder não seja cegueira, mas serviço do bem comum público. E isso deverá transparecer, de modo claro, nas mais altas funções do Estado. Importa que a resiliência seja um retornar ao estado natural da democracia, essa normalidade conceptual ideal para que aponta a palavra: governo do povo para o povo. A “res” (coisa) pública da República passa por aí. Para a ler, não basta possuir a ambição de poder. É também necessário possuir sensibilidade para sentir com um povo que está sempre muito para além das fronteiras de um partido político ou de um grupo de amigos da escola ou do bairro. Sempre, mas particularmente em momentos cruciais da vida colectiva. Seja então o PRR o Plano da Resiliência do Renovamento da Democracia da República. Aqui o determinativo da preposição “de” constitui-se como lição de Vida. O verbo é resilir. Resilem assim os nossos governantes. Assim resilamos todos nós, individual e colectivamente.Guarda, 10 de Junho de 2021