Histórias que a Vida Conta


Não se espantem os meus leitores se, desta vez, eu acompanhe o nosso primeiro-ministro ipsis verbis: “Vamos mudar de página”! Não, claro, a da austeridade (oxalá pudesse!), mas a da temática habitual destes escritos. Em vez de cogitações sobre o nosso dia-a-dia cultural, social ou político, vou conversar com os meus leitores sobre as memórias que o hóquei em patins me traz ao espírito. O pretexto é, obviamente, a conquista, pela nossa selecção, do campeonato do mundo da modalidade. Conquista esforçada, fruto da união e da humildade de um grupo exemplar e determinado na prossecução de um desígnio inabalável de ganhar a que se juntou um supercampeão, o guarda-redes Ângelo Girão.
Mas, sobretudo, o que me proponho – e me faz feliz – é falar aos meus leitores dos meus tempos de menino, quando me iniciei, como tantas outras crianças, no entusiamo e na paixão pelo hóquei em patins e na admiração dos admiráveis hoquistas portugueses. Certo de que, ao fazê-lo, estou a desviar, propositadamente e o com o maior dos prazeres, a vossa atenção da avalancha lamentável – para não dizer, vergonhosa – dos comentários, repetidos ad nauseam pelos diferentes canais televisivos, que parecem exclusivamente centrados nos milhões, dezenas de milhões, centos de milhões, pretendidos, prometidos, esperados ou já cobrados (facturados, no léxico em voga) pelos nossos clubes de futebol, em particular pelo Sport Lisboa e Benfica, à custa de um “mercado humano” verdadeiramente abjecto nos seus exageros. Será que ninguém repara que se trata de uma obsessão doentia, que está a ajudar a castrar o pensamento e a amputar os interesses culturais da nossa juventude? Mesmo durante os vários dias por que se prolongou o mundial de hóquei em patins, o tempo destinado à sua cobertura – excepção feita ao canal da RTP que fez a transmissão dos jogos – foi insignificante quando comparado com a interminável actividade de “investigação” e (des)informação a que os comentadores/especialistas no mercado de “transferências” no futebol profissional encheram os ouvidos e os cérebros (malsãos, perdoem-me o comentário…) dos seus passivos espectadores. Por exemplo, anteontem, como uma imparável enxurrada, à mesma hora em que estava a ser anunciada a eleição da nova Presidente da Comissão da União Europeia, Ursula von der Leyen, os nossos “especialistas” em “mercado de transferências”, continuavam a “entupir”, na sua concorrência incansável do “entra, sai ou oh quem dera…!” que alimenta a maioria (?!) dos nossos canais televisivos…!
Convém anotar uma particularidade não despicienda desses anos longínquos dos finais da década de quarenta e dos inícios dos anos cinquenta: o hóquei era jogado com particular entusiasmo em pequenos mas populares clubes de Lisboa e arredores: o Campo de Ourique, o Paço de Arcos, o Sintra, o Oeiras eram alguns desses clubes. Aí se formaram alguns dos “génios do stick”: foi o caso de António Raio, durante toda a vida uma prestigiada figura de Sintra ou dos primos Correia dos Santos e Jesus Correia, do Paço de Arcos (sendo o segundo igualmente um grande jogador de futebol, um dos célebres cinco violinos do SCP). Foram estes, ao lado do guarda-redes Emídio Pinto e de Edgar, os grandes jogadores da equipa várias vezes campeã mundial, indiscutivelmente a melhor do mundo na modalidade, cujas façanhas me fizeram sonhar e vibrar.
Ouvido colado ao pequeno aparelho de rádio de fabrico alemão, anterior à 2ª Grande Guerra, com interferências e barulhos constantes, acompanhava eu, emocionado, as suas vitórias desportivas, nos relatos emocionantes de Amadeu José de Freitas e, depois, de Artur Agostinho. Os primos Correia dos Santos e Jesus Correia conquistaram o título de campeões do Mundo meia dúzia de vezes.
Embora não me lembre deles enquanto jogadores, seria injusto não recordar os irmãos pioneiros Sidónio e Olivério Serpa, desportistas distintos, sportsmen da mais fina água e figuras prestigiadas na vida social e jornalística nacional, os quais, com o guardião Cipriano e já com os primos Santos, integraram a selecção que, em 1947, conquistou 1º campeonato do Mundo.
A superioridade manifestada pela equipa Emídio Pinto, Edgar, Raio, Jesus Correia e Correia dos Santos era tão flagrante que, em Espanha e na Itália se questionava como seria possível ganhar a uma equipa nacional que tinha um “raio” na defesa e um “santos”e um “jesus” no ataque…!
Com o fim desta equipa genial, não foi fácil encontrar substitutos à altura. Apesar de tudo apareceram jogadores como Matos, Cruzeiro, Perdigão e José Lisboa que, à sua medida, conseguiram conquistar mais alguns títulos para Portugal, designadamente em Montreux.
Até que, já na segunda metade da década de cinquenta, apareceu a selecção-maravilha de Moçambique: Moreira, Souto, Corvelo e principalmente Adrião, Velasco e Bouçós, a que se juntaria o lisboeta José Vaz Guedes do Clube Atlético de Campo de Ourique, trouxeram uma nova e fulgurante imagem ao hóquei português: velocidade, técnica prodigiosa, grande eficácia concretizadora, que tive a oportunidade de admirar ao vivo no Pavilhão dos Desportos (hoje Pavilhão Carlos Lopes). Abriram as portas a uma nova época de ouro do hóquei em patins português que se prolongou de 1957 até 1967. Pontificavam então em Espanha nomes como os de Zabalia, Puigbó e Carbonel; em Itália o grande Panagini e na Suiça, os primos Marcel e Pierre Money. Todos se curvaram, porém, perante o génio de Adrião e de Velasco.
Mas o melhor estava ainda para chegar: António Livramento, o mais dotado jogador de hóquei em patins de todos os tempos, um verdadeiro extraterrestre em técnica e velocidade verdadeiramente prodigiosas. Partiu há precisamente 20 anos, mas quem o viu jogar nunca o esquecerá.
Entretanto, já os grandes clubes de Lisboa – o Benfica e o Sporting – bem como o FC do Porto tinham passado a ter equipas na modalidade, a qual se estendeu pelo Norte e pelo Centro do País, onde passaram a ter polos fundamentais. Jogadores como Ramalhete, Cristiano, Chana, Júlio Rendeiro, Garrancho, Vítor Hugo, Vítor Bruno Vítor Fortunato, Paulo Almeida, Tó Neves, Paulo Alves contribuíram com o seu talento para alimentar o brilho deste desporto entre nós. Mas, sem os mesmos resultados por nossa parte, a nível mundial, a modalidade passou a ser liderada pela Espanha e também pela Argentina, com uma ou outra intromissão da Itália e de Portugal.
Foi preciso esperar 16 longos anos para voltarmos a ver Portugal Campeão do Mundo pela 16ª vez na história. Em Barcelona, no dia 14 de Julho, a nossa selecção, eliminadas a Itália e a Espanha, venceu, numa final imprópria para cardíacos, a Argentina. Com a humildade e o espírito de união já sublinhados. Entram para a História os nomes de: Ângelo Girão, que com exibições inesquecíveis, guardou um lugar entre os melhores de sempre do nosso hóquei, Gonçalo Alves, Hélder Nunes, João Rodrigues, Rafa Costa, Henrique Magalhães, Telmo Pinto, Miguel Vieira e Jorge Silva. O treinador foi Renato Garrido e o presidente da Federação de patinagem de Portugal é Luís Sénica. Honra a todos e VIVA PORTUGAL em rodinhas!
Lisboa, 18 de Julho de 2019