Olhos nos olhos


Para quem, como eu, nasceu e viveu vinte e cinco anos em ditadura, a realização de eleições reveste-se de grande importância. No tempo da ditadura não havia eleições, a escolha era zero, embora ciclicamente, o regime ensaiasse um simulacro.
Devolvida aos portugueses a liberdade plena, consagrada na Constituição, a escolha democrática do Parlamento e do Governo, não pode aceitar-se um alheamento, sob pena de irresponsabilidade. Com efeito, o Art.º 49.º da Constituição da República, no seu número 2, refere que “O exercício do direito de sufrágio é pessoal e constitui um dever cívico”. E, se o cumprimento deste dever, era importante, o voto para a Assembleia da República é importantíssimo, face à solução de governo que vai gerar. As anteriores eleições legislativas ensinaram-nos que, mesmo vitorioso, um partido, se a sua maioria for escassa, pode não poder vir a formar governo, abrindo as portas a coligações de partidos, cujas propostas não foram sufragadas e que, apesar disso, podem ter um peso decisivo no futuro do país.
As sondagens já anteciparam o cenário mais provável, partindo do pressuposto, também assente por sondagem, de que a abstenção voltará a ter um peso decisivo. Mas se a abstenção é sempre uma manifestação de desinteresse pelo nosso futuro colectivo, a abstenção dos portugueses católicos é profundamente censurável. A Assembleia da República, convém recordar, é “a assembleia representativa de todos os cidadãos portugueses”, conforme expressamente estatui o art.º 159.º da Constituição da República.
Entre as múltiplas e importantes tarefas que cabem à Assembleia da República, compete-lhe fazer leis sobre todas as matérias, salvas as reservadas pela Constituição ao Governo.
Problemas da saúde e das soluções que o governo venha a adoptar, em questões importantes, dependem, na totalidade, da forma como vier a ser concretizada a lei que está no Parlamento. O futuro da educação passa, ele também, pelo resultado eleitoral, atento o governo que vier a ser formado.
A questão da preservação da Casa Comum, deve chamar-nos a atenção para as preocupações ecológicas, onde tem lugar importante a preservação da floresta e da prevenção e luta contra o flagelo dos fogos, que não pode continuar a ser uma questão de que se começa, em cada ano, a falar em Abril para se encerrar em Setembro ou Outubro, contabilizando-se sempre uma imensidão de área ardida.
A política demográfica, desacompanhada de autêntico interesse e investimento, não inverterá a tendência de uma natalidade decrescente, em contradição com um interesse concedido aos animais, mormente aos designados animais de companhia, interesse espelhado em alguns espaços comerciais, que concedem mais atenção e visibilidade aos produtos para animais de companhia, em detrimento de espaço para produtos para bebés.
Quando era Chefe de Estado, o General Ramalho Eanes afirmou: “É tempo de esquecer o que nos divide e encontrar aquilo que nos une”. Podem dividir-nos as opções partidárias, mas que nos una a vontade de continuar a escolher, livremente, o nosso futuro colectivo.
No dia 6 de Outubro, o que pode fazer por Portugal, é votar. O que Portugal pode fazer por si, depende desse voto.
Aos indecisos, que Deus os ilumine; aos abstencionistas, que Deus lhes perdoe.