“Por Babilónia me achei” 

Os que escrevem fora de Portugal lembram-se certamente do poema de Luís de Camões, designado Sôbolos rios que vão... Escrever fora de Portugal é uma sensação estranha que não deixa de interrogar a nossa língua materna. Escrever no estrangeiro tem-se a sensação de que a língua materna soa oco, não parece ter o sabor original. Em certas circunstâncias, sobretudo quando exprimimos coisas muito profundas, sentimos que as palavras com as quais nos exprimimos se desmoronam ao falar numa outra língua.Quando se começa a falar uma língua que se não aprendeu na infância, tem-se dificuldades em ouvir a sua própria alma. É como tocar um instrumento mal afinado, dissonante. A harmonia de si próprio como que desaparece. Então, a sensação do exílio acentua-se. Falta-nos o terreno da pátria-mãe para exprimirmos a nossa própria língua. Neste contexto, compreende-se melhor a expressão de Fernando Pessoa – a minha pátria é a língua portuguesa. Já não se tem a pátria da nossa língua. Vive-se no exílio das palavras que parece até não serem completamente compreendidas.Mas então, poderíamos perguntar, como é escrever no estrangeiro? Numa pátria que não é a nossa? Onde nos falta o linguarejar constante dos nossos sons que alimentarão e fecundarão a nossa escrita? Sem dúvida que esta profissão é um ato essencialmente solitário, mas não deixa de ser o prolongamento do nosso estar em comunicação com a sociedade onde estamos inseridos. Escrever no estrangeiro é, pois, uma paragem num mundo que não é o nosso. É também uma necessidade para nos confrontarmos com a língua materna. É um ato de sobrevivência da nossa própria língua materna, para encontrarmos a unidade de nós próprios e superarmos esta fragilidade de vivermos longe da pátria da nossa língua e não cairmos na angústia de nós próprios. Escrever no estrangeiro é uma espécie de lenitivo e tonificante para a nossa própria sobrevivência. A língua materna tem também outra ressonância ao escrever no estrangeiro. Escreve-se necessariamente à distância. Mas a própria escrita não é também um distanciamento da realidade para melhor a apreender e a transformar em palavras e em imagens? Escrever no estrangeiro será a mesma coisa que escrever onde a própria língua se fala? É uma questão que deixo em aberto aos leitores.Escrever no estrangeiro e escrever à distância é exercitar a memória de lugares, paisagens, árvores, pessoas, fontes, fontanários, ruas, ruelas, quelhes, costumes, tradições, contos, cantos e recantos sem fim. E que aqueles que estão longe sabem-no bem. Vivem com as suas lembranças. Carregam-nas e transportam-nas para onde quer que estejam para as transformar no cadinho da escrita e as fazer renascer. Quanto a mim, por vezes, essas lembranças pesam-me demasiado. Não pretendo viver só de lembranças. Pretendo passar ao ato e escrever; escrever sempre para sobreviver onde quer que esteja.