A IDENTIDADE (Cont.)
Na minha última crónica escrevi que a identidade é o conjunto de características – inatas ou adquiridas – que fazem de cada um de nós um ser singular, único e irrepetível.


Tais características podem ser inalteráveis, como é o caso do ADN (ou DNA), do tipo de sangue ou das impressões digitais, da raça, enfim, da identidade genética – ou mutáveis – como as que dizem respeito a muitas características físicas, modificáveis com o próprio avançar dos anos, às simpatias ideológicas ou partidárias, à identidade cultural, às crenças e aos credos religiosos. Assim, são, designadamente, as características permanentes e imutáveis que estão ligadas ao “eu” singular e único, embora a identidade global do ser humano compreenda também as outras que, apesar da sua natural mutabilidade ao longo da vida, fazem parte, em cada momento, de quem as reúne e reivindica.
Acontece que, neste Agosto, li um livro (“The Human Stain”), do autor judeu-americano Philip Roth, que tem no centro da narrativa o problema da identidade humana e cujo título, na tradução portuguesa, é “A Mancha Humana”. Obra premiada, editada no nosso país pela D. Quixote, é, por certo, um dos livros mais importantes do referido escritor e pensador recentemente falecido. Num breve sumário que sempre manuscrevo na primeira página em branco dos livros que mais me “dizem”, escrevi que se tratava de uma obra implacável e surpreendente sobre a fuga à identidade, o segredo, a perfídia e a inveja. Desenvolvido no ambiente universitário da Nova Inglaterra, ao longo das décadas de quarenta a noventa do século passado, atravessando os tempos do segregacionismo e da contemporaneidade norte-americana, apresenta como pano de fundo o drama dos traumas sofridos pelos veteranos do Vietname e o processo de impugnação do Presidente Clinton na sequência do escândalo com Mónica Lewinski.
Mas o cerne da obra situa-se na figura do professor universitário de estudos clássicos Coleman Silk e no drama que o atingiu já no final da vida.
Docente no Athena College durante mais de vinte anos, além de ter exercido as funções de reitor da faculdade durante mais de dezasseis anos, reformara-se voluntariamente em 1996, na sequência de uma acusação difamatória lançada contra ele, acusando-o de racismo contra duas estudantes negras da Escola. A acusação, uma caça às bruxas desprovida do mínimo fundamento, devastou Coleman Silk e a sua mulher Iris, a qual viria a morrer sem conseguir reagir ao infame ataque feito ao marido.
Dois anos depois, em 1998, o Professor Silk, que se reformara voluntariamente por recusar continuar a conviver com o corpo docente que, por cobardia, vingança ou oportunismo, não o defendera da falsa imputação (que - dizia ele -, tinha matado Iris), mantinha um caso com uma mulher, empregada de limpeza na universidade, com menos de metade da sua idade e um passado trágico e absolutamente devastador.
Quando foi contratado, Coleman fazia parte de um punhado de jovens professores judeus da universidade, tendo-se contado entre os primeiros judeus a quem foi permitido ensinar num departamento de estudos clássicos em qualquer ponto da América. Durante toda a década de 80 e no começo da de 90, foi também o primeiro e único judeu a exercer o cargo de reitor na universidade de Athena. Aí levou a cabo uma autêntica revolução, através de um empenhado e duro trabalho de organização, alteração de métodos e renovação do corpo docente, assim dando um novo rosto à Escola, o que lhe valeu a admiração generalizada da Academia, ao mesmo tempo que lhe viria a custar contrariedades e inimigos. Quando deixou de ser reitor e voltou à docência a fim de completar a sua brilhante carreira como professor de estudos clássicos, sentiu os efeitos da vingança. Fora, desde o ensino secundário, um estudante brilhante, tendo-se distinguido, desde muito cedo em todos os estabelecimentos que frequentou.
Era – e assim se manteve mesmo quando os seus cabelos ficaram grisalhos - um homem decidido, inteligente, professor eminente e íntegro. Embora de estatura mediana, agradava às mulheres pela sua tez mediterrânica e olhos verdes, pelo seu encanto viril, espírito irónico, desafiador e franco.
Coleman Silk tinha, porém, um segredo, sem qualquer ligação quer com a relação que manteve, aos 71 anos, com uma amante de 34, nem com a imputação do alegado racismo, que lhe custou o emprego e, segundo ele, lhe matara a mulher e mãe dos seus filhos. Durante cinco décadas ocultou o seu segredo de todos, incluindo de Iris e dos seus quatro filhos, bem como de colegas e amigos.
Em Outubro de 1944, em plena Guerra Mundial, à beira dos 18 anos, Coleman decidiu alistar-se como voluntário na Marinha. Ao preencher os formulários não só antecipou, num mês, a data de nascimento, mas também mentiu também acerca da sua raça. É que Coleman, apesar das suas feições e da sua pele clara, era negro e provinha de uma família de cor. Sabia-se numa América em plena época segregacionista e o facto de ser considerado branco facilitava-lhe o ingresso na universidade mais adequada, bem como a sua carreira profissional futura.
Frequentou, assim, como branco de origem judia a Universidade de Nova Iorque, com o êxito esperado. Aprendera na Marinha que bastava apresentar uma boa e coerente versão a respeito de si mesmo para que ninguém fizesse perguntas incómodas. Os seus vizinhos e conhecidos da universidade teriam admitido com a mesma facilidade que os seus antecedentes eram do Médio Oriente, mas vivia-se um tempo em que o “prestígio judeu” atingira o auge do pós-guerra entre a elite intelectual nova-iorquina. Por outro lado, essa escolha ia ao encontro da sua singularidade, o que muito satisfazia o seu ego ambicioso.
Mas aquela decisão fracturante em termos identitários forçou-o a “cortar” as ligações com a sua Mãe, que o adorava, bem como com os seus irmãos, porque eram negros. Contudo, nem mesmo a decisão de passar o resto da vida sem se poder assumir como “a mãe” do seu filho e de jamais poder ser a sogra da sua nora e a avó dos seus netos que nunca conheceu, nem esse desgosto foi suficiente para destruir o amor que ela lhe dedicava. Mas, em contrapartida, nem a consciência do sofrimento que infligia a sua Mãe abalou a vontade determinada de Coleman. Aceitou e levou até ao último dia da sua vida a escolha da sua “segunda” identidade.
Sempre que aguardava o nascimento de um filho, Coleman sofria com as possíveis consequências da decisão que tomara. É que, pelas leis da genética ele poderia nascer negro, desencadeando uma fatal turbulência familiar. Isso não aconteceu com os filhos mas poderia suceder com algum neto. Se a filha, casando com um homem branco, desse à luz uma criança negra, como explicaria ela isso, ela que ignorava a origem racial do seu pai? Que marido aguentaria o peso de um tal mistério?
No seu íntimo, Coleman não podia ignorar o que de horrível havia em ocultar uma informação tão crucial para a identidade de qualquer ser, no caso a dos seus filhos, para o eu de cada um deles, à luz do direito inalienável, que a todos cabe, de conhecer as raízes da sua genealogia e de que seiva se alimenta a sua maneira de ser e de estar neste mundo.
Lisboa, 10 de Setembro de 2019