Andamos há oito anos a ouvir dizer que o Primeiro-Ministro António Costa é, por certo, o mais talentoso político da sua geração.

E, em contrapeso, todos sabemos que o Presidente da República, Marcelo Ribeiro de Sousa, foi um estudante prodígio e um universitário de exceção e tem uma visão política “muito à frente”.
Pois bem. Com dois talentos no comando da nau, como é possível que o Estado tenha chegado à situação a que chegou? Com tanta capacidade, tantas competências e uma tão grande visão tática e estratégica, como é possível que os referidos grandes responsáveis tenham deixado baixar o nível deste país a este ponto? Nem se diga que as relações pessoais entre os dois é que deram causa à triste situação em que nos encontramos! É que, durante quase todo o período de convivência institucional, reinou entre ambos a paz de Deus com os anjos. Viveram uma longa “lua-de-mel, que esteve, aliás, na génese da maior parte das críticas feitas a M.R.S., acusando-o de levar o Governo ao colo. E, por esse facto, foi prevenido por muitas vozes: “deixe de acalentar o adversário no seu seio”. Num momento (mal)azado, o vento muda e a boa onda vira com ele!
Foi isso que aconteceu! Com uma intensidade inesperada, as “comadres” zangaram-se, veio ao de cima o “animal selvagem” escondido sob as vestes de António Costa, que se cansou da descontração algo infantil e traquinas do P.R., das suas “falas” a propósito e a despropósito, das suas ameaças, com ou sem propósito, de que estava no horizonte uma eventual dissolução da Assembleia da República. Rodeado por uma equipa de luxo de spin doctors, contratados para inverter a progressiva degradação da ação governativa, Costa passou ao ataque. Deixou de lado as contumélias, esqueceu o resto do antigo temor reverencial do aluno para com o Mestre, em suma, perdeu-lhe o respeito que ainda poderia nutrir por ele e, cheio do poder que a (inesperada) maioria absoluta lhe concedia, decidiu redistribuir os papéis e apresentar-se como o grand seigneur da política portuguesa. Fê-lo com pouco propósito e muito destempero. De “grande senhor”, António Costa não tem muito. Mas entendeu suprir a falta de maneiras daqueles de quem se rodeou com uma determinação à prova de bala, uma vontade férrea emulsionada com a sorte que parecia nunca o abandonar. Vemo-lo assim rodeado de uma corte entretecida de compromissos e favores, tal uma irmandade ou uma confraria laica servidora e usuária do poder em curso…
A situação governativa – e por consequência o relacionamento dos Chefes do Governo e do Estado – foi-se degradando. Os “casos e casinhos”, sucessivos e só explicáveis por ausência do dever de vigilância e uma generalizada e profunda incompetência, foram minando o efetivo poder do primeiro-ministro e da maioria absoluta que conquistara. O “Caso Galamba”, a recusa por parte de António Costa de aceder à pretensão do P. R. de demitir o polémico Ministro, numa atitude de rebeldia que surpreendeu a generalidade da classe política e da sociedade em geral, foi a gota de água que fez transbordar o copo. E, numa espécie de infantil vingança, eis que escolhe o referido João Galamba para fazer o discurso de encerramento da discussão na generalidade do Orçamento de Estado, o que este fez com evidente gozo e jeito de retaliação para com o Presidente da República. Se, até ao explodir do “caso galamba”, Costa ainda tinha um crédito de tolerância ou, até, de aplauso, com este episódio, perdeu-o quase por completo. Optou, ao escolher Galamba, por fazer um afrontamento gratuito ao Presidente da República. Gratuito e nada exemplar! E não se esqueçam as trapalhadas da TAP, feitas de voluntarismo e má educação, aliadas a uma inaudita ignorância das leis do trabalho e do trabalho com as leis…
Quando, em 7 de novembro, foi desencadeada a operação Influencer, António Costa apresentou a sua demissão ao PR. Fê-lo com a invocação da insustentabilidade da sua posição perante o teor do último parágrafo aditado pela Senhora Procuradora-Geral da República ao comunicado do Ministério Público. Mas, com alguma distância e serenidade, fácil será concluir que o 1º Ministro não poderia deixar de tomar a mesma decisão em face dos dados recolhidos pela investigação a propósito dos dinheiros encontrados no gabinete do seu Chefe de Gabinete e das intervenções de outros arguidos junto da Empresa Start Campus, sem excluir para já a ação do seu ministro João Galamba.
Estamos num tempo de intervenção por parte de influenciadores, entre os quais podemos, já agora, incluir o nome do Filho do Presidente, Dr. Nuno Rebelo de Sousa, em favor da aplicação de um tratamento milionário a duas gémeas luso-brasileiras. Mas não se confunda o móbil, a forma e os objetivos de uma tal intervenção com as influências de profissionais de carreira, interessados egoisticamente no proveito material de amigos ou de empresas em que possam ter interesses ou amigos. Confesso que não consigo ser totalmente isento quando estão em causa bebés ou crianças de tenra idade ou quando devo apreciar a situação de doença ou incapacidade de bebés como é o caso das gémeas. Isto não absolve o Dr. Nuno Rebelo de Sousa da intervenção que teve e que, como se viu, criou graves dificuldades ao mandato do seu Pai. Mas não posso deixar de pedir a Deus que os medicamentos administrados às gémeas – e a todos as restantes crianças a quem tenham sido ou venham a ser administrados - possam produzir o desejado efeito regenerador. Com isto não quero negar o quanto tal intervenção tenha sido deslocada e eventualmente propiciadora de desigualdades e abusos.
Mas de uma coisa estou convicto, pelo que tenho observado dos mandatos deste Presidente da República: é um homem escrupulosamente sério, estrito e frugal, rigoroso, exemplar com os dinheiros públicos, espartano, até, na sua vida pessoal, como aliás tem sido salientado por amigos e por adversários de diferentes linhas ideológicas.
Não alinho em ataques de lapidação pessoal ou de destruição do caráter que dizem tudo de quem os patrocina ou conduz. Não contem comigo para enfileirar com os descerebrados que congeminam retaliações e vinganças. Temos demasiada falta de pessoas de qualidade intelectual, moral e cívica para nos podermos dar ao luxo de atacar ferozmente as que decidiram pôr o seu esforço e talento ao serviço do interesse público.
Estou à vontade para escrever isto porque tenho sido – e continuo a ser – um crítico severo de MRS, em diferentes áreas, nomeadamente quanto ao seu caráter excessivamente conciliador, sempre pronto para agradar e estar de bem com todos.
Mas não no domínio da seriedade e do respeito escrupuloso pelo código de valores que sempre observou. Nessa área é um exemplo e o País está precisado de muitos mais como ele.
Do somatório de todos os episódios canhestros ultimamente acontecidos, retiremos os 9 e teremos a prova do que falta para acertarmos as contas!
Lisboa, 14 de dezembro de 2023