Histórias que a Vida Conta

O que é que, na realidade, sem sofismas, verdadeiramente interessa aos nossos radicais de esquerda, bastantes deles de “esquerda-caviar”(palavras minhas)? De um modo geral e para ganhar palco, convocar lutas por causas fraturantes – é o seu “caldo de cultura”. Depois e por inerência de posição, o policiamento do “politicamente correto”, ou seja, saber direitinho o que se pode ou não pode dizer, conforme a “cartilha” que proíbe tudo o que possa indispor, amachucar, arranhar, ofender ou, porventura, insultar as minorias de toda ou qualquer coisa que eles amam até ao tutano e pretendem defender até à morte…do ofensor (claro!). Seria bom e bem, se não fosse tão exagerado nos meios e tão invasivo, por vezes arrasador, nos métodos… Se me derem licença, vou contar, a título explicativo da minha ideia, duas historinhas familiares. Uma passou-se com o meu filho, que, por volta dos seus 6 anos, me pediu para o deixar ir passar o fim de semana a casa de um coleguinha do colégio. Não vendo nada em contrário e conhecendo bem a família do menino, autorizei e na hora da partida fiz as recomendações do costume sobre o bom comportamento a ter em casa do amigo “E tem cuidado, não digas palavras feias e não chames nomes…!” No dia seguinte, quando o fui buscar, tinha o pai do coleguinha muito divertido a contar-me “Sabe, ontem o meu filho estava a mostrar ao seu o álbum das fotografias que tirei quando fui a Marrocos e ouvi-o dizer: ”Olha aqui o meu pai num camelo…!”. “Não digas isso, não se pode chamar nomes feios…!” A outra história passou-se há muitos anos nos Açores, com uma senhora já muito velhinha que era do tipo arranjadinha, magrinha, muito esmerada e preciosa no dizer, que se recusava, por exemplo a dizer “ovo” por causa do facto de este passar por onde passava para se pôr cá fora. Virada para o meu sogro, que, ciente desse seu particular tabu, capciosamente puxara a conversa para um ponto em que não tinha saída para evitar a palavra saneada, a senhora compôs um ar muito digno e, em vez de “ovo”, declinou: ”o…o…o produto espontâneo da fêmea do galo!”. O que vale é que há sempre uma metáfora salvadora! Mas voltemos ao que vínhamos e às coisas sérias: temas fraturantes da [extrema]esquerda e às implicações que elas têm na convivência partidária. Neste momento, e no “flecte, insiste” que já lhe conhecemos, o cavalo de batalha é a aprovação da lei de despenalização da eutanásia a que, no politicamente correto se chama “morte medicamente assistida”.Queixam-se das diatribes do líder do “Chega!” e têm razão… Mas não se interrogam sobre o grau da sua própria responsabilidade no crescimento da extrema-direita. Os seus deputados e as suas deputadas, com a colaboração prestimosa de um(a) ou outro(a) parlamentar do PS, bem instalados numa vida sem carências, estão a dar um verdadeiro substrato orgânico para o crescimento do “Chega!” cujos resultados eleitorais vão continuar a crescer. Mas, se calhar, é isso mesmo que eles querem. Distingo sempre, neste contexto, a perspetiva do PCP. Goste-se ou não - e eu não gosto -, deve reconhecer-se no PCP uma estratégia mais coerente, mais lógica e, por isso, mais saudável e (con)fiável: sentem e querem de verdade o que dizem quando falam na “defesa dos interesses dos “trabalhadores e do povo””. O modo como o fazem é que está de há muito ultrapassado.Nem a tragédia que se abateu sobre o País, com mais de duas centenas - e, por vezes, mais de trezentos óbitos por dia -, durante várias semanas, os levou a reponderar a data de apresentação do projeto de lei da eutanásia! O momento azado para o efeito foi o do pico das mortes pela Covid-19, com milhares de famílias de luto e ainda muito, muito longe de se alcançar a imunidade de grupo por efeito das vacinas. Ele houve mortos que chegassem e que sobrassem para que se deixasse este problema (que o é, sem dúvida) para quando a Morte não nos rondasse a porta com a sua gadanha cega! É uma questão de sensibilidade, de uma humanidade muito superior àquela com que pretendeis condoer-vos com o sofrimento intolerável. A propósito: onde encontrastes o “dolorómetro” para o medir, senhores “Almas Grandes”?Entretanto, e para o “politicamente correcto” usam uma descarada dualidade de critérios. Por um lado, defendem as barbaridades proferidas por radicais como Mamadou Ba, que ofendem e insultam as foças de segurança, invocando o exercício da liberdade de expressão; por outro clamam contra quem se atreva a exprimir opiniões diferentes das suas que qualificam como violadoras dos direitos humanos, porque ofensivas da cartilha que querem impor a todos nós. Vivemos, assim, sob o império da chantagem. O cidadão temente dos grandes valores civilizacionais, pensará duas vezes antes de proferir certas palavras ou de exprimir certas ideias. É que as palavras não vivem sozinhas. Quando falamos, não soletramos entradas de um dicionário, ditas uma a uma sem casa nem família. As palavras são entes melindrosos que se vestem e se despem conforme as necessidades, os gostos e os desgostos, as festas e os lutos e se calam muito judiciosamente quando tempo é de silêncio. Porque embora mudo, este também nos fala. O ato de “Dizer” ou de “Escrever”, é uma prática melindrosa que necessita competência, sentido do outro e respeito por todos: palavras, sentidos e sentimentos. Abordar temas sensíveis? Sim…mas à luz inatacável do nosso pensamento. Liberdade do pensamento? Toda! (ninguém nos pode impedir de pensar…como e o que quisermos…). Liberdade de expressão do pensamento? Sim, por certo. Mas “toda”? Compatível com a Democracia e com o Estado de Direito, inerente a eles, a liberdade de expressão é uma conquista civilizacional do HOMEM livre.Como observou o juiz Manuel Soares, a respeito do escrito do Presidente do Tribunal Constitucional sobre o lobby gay, “não consta que a liberdade de pensar, falar e escrever tenha sido revogada e dado lugar a uma vida pública higienizada , em que todas as pessoas pensam a mesma coisa e se expressam da mesma maneira, dentro de apertados parâmetros morais definidos por quem se arroga o poder de purificar a sociedade e de cancelar os que se atrevem a ser diferentes”.Discordar das opiniões dos outros é um direito e uma condição fundamental para assegurar o contraditório e a criatividade. Dizer NÃO vale exatamente o mesmo que dizer SIM, fazem parte da mesma estrada só que circulam em sentidos contrários. Apenas há que acautelar o discurso quando se cruzam, porque em minha opinião, esta liberdade não cobre incondicionalmente o insulto. Há quem defenda o direito ao insulto livre, no que ponho as minhas dúvidas, mas, calar ou colocar linhas vermelhas que visam impedir a livre expressão do pensamento é abusivo, é imoral, é uma prepotência indesculpável e intolerável seja a que título for, é o ornamento mais perverso das ditaduras. É a censura, que mata pela raiz!Lisboa, 25 de fevereiro de 2021