IN MEMORIAM


Não sei bem quando me comecei a cruzar com a obra de Pinharanda Gomes e tenho algumas dúvidas sobre quando foi o meu primeiro encontro pessoal com ele, mas tenho bem presentes as várias vezes que «me encontrou» na Biblioteca Nacional. E digo que «me encontrou», porque era ele, sempre atento, a descobrir-me algures, numa das mesas daquele enorme salão de leitura. E vinha, então, cumprimentar-me muito gentilmente e a evidenciar visível satisfação por estes encontros. Para além destes momentos fortuitos, a maior parte dos nossos encontros realizaram-se em eventos institucionais. E foi com um compromisso institucional que me recebeu em sua casa em Santo António dos Cavaleiros para uma conversa a dois sobre o seu conterrâneo escritor Nuno de Montemor que havia de ser publicada na revista municipal da Guarda Praça Velha, de que era sistemático colaborador. No final a sua extremosa esposa serviu-nos um excelente lanche que saboreámos com um brinde em memória de Nuno de Montemor.
O último encontro foi há bem pouco tempo na Universidade da Beira Interior, quando esta instituição lhe concedeu o Doutoramento Honoris Causa. Nessa ocasião mal chegámos a falar, para além dos cumprimentos de circunstância. Depois disso só voltámos a falar pelo telefone. Uma vez foi o Historiador a telefonar-me a pedir um pequeno esclarecimento sobre as escolas da cidade da Guarda. Fui eu a ligar-lhe pela última vez que falámos. Foi nos finais do passado mês de Dezembro a desejar-lhe um Feliz Natal e a apresentar-lhe os votos de Bom Ano Novo. Descanse em paz para sempre este «peregrino do Absoluto», aquele que até 2019 viveu imbuído da saudade da Transcendência que sempre esteve presente no horizonte dos seus livros.
Nascido em Quadrazais, houve circunstâncias que acabaram por marcá-lo biograficamente e que evocava com bonomia. Foi assim que de Josué, por um erro de transcrição documental, passou a chamar-se Jesué e, nascido a 16 de Julho de 1939, conforme a sua fé na memória de sua mãe, veio a ser registado no Registo Civil como tendo nascido a 7 de Outubro. E, quando se referia a estas datas, acrescentava a curiosidade da coincidência mariana: a 16 de Julho celebra-se a festa da Senhora do Carmo e, a 7 de Outubro, a de Nossa Senhora do Rosário.
Viria a falecer a 27 de Julho. Um mês antes, a 25 de Junho, tinha estado no Porto no lançamento do seu livro Leonardina – Estudos acerca de Leonardo Coimbra, mas já não chegou a ter nas mãos outro livro seu, Álvaro Ribeiro: Mestre da Arte de Filosofar, obra sobre o filósofo português que seria lançado a 7 de Outubro, como os amigos haviam acordado com ele para uma celebração condigna do seu octogésimo aniversário.
Pinharanda Gomes possui um estatuto singular na cultura portuguesa. Marginal e marginalizado, viveu como monge medieval rodeado de livros, em tertúlias e com amigos e mestres pensadores, de olhos postos no sempre inspirador Leonardo Coimbra e no seu aluno e discípulo Álvaro Ribeiro. Quis a história, ou a providência divina, que as suas últimas obras fossem precisamente sobre estes dois filósofos portugueses.
Marginal e marginalizado, como marginal e marginalizada tem sido esta corrente de pensamento que, enraizando-se em Leonardo Coimbra, engloba uma plêiade de pensadores. Não será ocioso referir aqui alguns, embora a esmo: Álvaro Ribeiro, José Marinho, Afonso Botelho, Santana Dionísio, Orlando Vitorino, Cunha Leão, António Telmo, António Quadros e, naturalmente, Pinharanda Gomes.
Autodidacta, Pinharanda Gomes é um filósofo marginal e marginalizado. Marginal porque o seu pensamento se desenvolve à margem das ortodoxias correntes. Marginalizado porque sistematicamente ignorado pelos mentores da cultura institucional e institucionalizada, excepção feita à Universidade da Beira Interior que, recentemente, o havia agraciado com o Doutoramento Honoris Causa.
Marginal e marginalizado, a filosofia espiritualista deste «Peregrino de Deus», como lhe chama Miguel Real em O Pensamento Português Contemporâneo, não agradava aos modismos do seu tempo, como os positivismos, os economicismos, os cientismos, os racionalismos, os modernismos ou os materialismos de todos os matizes.
Colaborador assíduo em muitos jornais, enciclopédias e revistas, desde 1964 dedicou muito do seu labor à região e diocese da Guarda. Sirva de exemplo a História da Diocese da Guarda publicada em 1981.
Da vastíssima obra de natureza histórica de Pinharanda Gomes, será de salientar a História da Filosofia Portuguesa em três volumes, 1. A Filosofia hebraico-Portuguesa (1981), 2. A Patrologia Lusitana (1983) e 3. A Filosofia Arábico-Portuguesa (1991). Depois lembremos os sete volumes da série Pensamento Português que se vão sucedendo de 1969 a 1997, Os Conimbricenses (1992) e ainda A Escola Portuense: uma introdução histórico-filosófica (2005).
Se o pensamento de Pinharanda Gomes se reflecte na obra histórica, ele torna-se mais cristalino em obras temáticas, de que destacamos as seguintes: Peregrinação do Absoluto (1965), Filologia e Filosofia (1966), Introdução à História da Filosofia Portuguesa (1967), Fenomenologia da Cultura Portuguesa (1970), Liberdade de Pensamento e Autonomia de Portugal (1971), Teoria do Pão e da Palavra (1973), Pensamento e Movimento. Prolegómenos a uma Ascese Filosófica (1974), Teodiceia Portuguesa Contemporânea (1974), Dicionário da Filosofia Portuguesa (1987), Entre Filosofia e Teologia (1992), Meditações Lusíadas (2001), A alma Cristã da Europa (2011).
É vasta e múltipla na temática a obra de Pinharanda Gomes. Ela bem testemunha uma fabulosa memória, uma capacidade de trabalho sem medida e um ilimitado amor ao saber, à história, à sua pátria e às suas terras beirãs e tudo envolvido naquela humildade própria dos grandes homens que lhe transparecia no rosto e se manifestava nas palavras. O seu estudo compreensivo exigirá a conjugação de especialistas de diferentes áreas. Falecido o Pensador, aquele que foi sempre disponível para corresponder às sucessivas solicitações, a obra aí fica para a posteridade a solicitar, não a simples curiosidade de alguns, mas a responsabilidade de quantos se encontram ligados à cultura portuguesa.
Quem escreveu em 1965 a Peregrinação do Absoluto foi peregrino do Bem até à morte. Descanse em Paz Absoluta na Biblioteca do Absoluto Bem.
Guarda, 21 de Agosto de 2019