Vivemos em democracia ainda nem há cinquenta anos, pelo que na psique profunda do povo português este viver em sociedade é algo talvez pouco maturado, não muito estruturado, provavelmente pouco pensado.


Como vemos a política? Como a experienciamos, agora? Como a projectamos, no futuro? Certamente que cada qual tem a sua opinião sobre ela: cada um tem a sua “política” em relação à política… mas enquanto nação-pátria é um amor recente, isto da política-democrática; como tal, precisa ser cuidado, sistematizado e orientado para o bem-comum. E aqui bem-comum é A palavra, pois a política como tal só adquire pleno sentido quando está e pugna pelo aconchego individual e colectivo das gentes. Mas o que é o bem-comum? Poderemos dizer, de forma simplista, que será tudo aquilo que promova o equilíbrio e o desenvolvimento harmonioso das sociedades e que vá de encontro às aspirações de todos ou da maior parte das pessoas que compõem as diferentes comunidades. Não raras vezes, o bem-comum colide com os interesses individuais de uns quantos e é aqui que a política-política tem de prevalecer e não transigir.
De facto, ela é feita por políticos; melhor, por pessoas, acima de tudo. Mas que pessoas temos na política e que política temos nas pessoas? Quem são aqueles que estão ao serviço da causa pública? Que percepções as gentes têm deles? Questões de não fácil resposta. Realmente, aquilo que vai transparecendo ao longo de séculos da nossa existência enquanto povo é a de que os políticos não são confiáveis; ora se a norma (ou pelo menos a sua percepção) é esta, que esperar das acções concretas deles? Pouco, provavelmente. E é aqui que reside, talvez, o facto de continuadamente, ao longo da história de Portugal, estarmos na cauda do progresso e desenvolvimento: se as pessoas não confiam em quem os lidera, dificilmente se deixam liderar bem; dificilmente fazem mais e melhor com consequências na produtividade, no empenho maior para um país superlativo… Mas isto quererá dizer que o problema sistemático de Portugal são as elites? Também, mas (se calhar) não só: as elites são, em última instância, produto/resultado daquilo que somos enquanto povo. Se elas não servem, serviremos nós enquanto sociedade? Serviremos, cada um de nós (enquanto indivíduos) para a(s) comunidade(s)?!.
É através das eleições e do voto que podemos colocar e retirar quem entendermos nos lugares de decisão. Porque não o fazemos, votando? Porque nos abstemos? Porque há um desinteresse (desencanto) generalizado na Coisa Pública? Certamente que o modo como os Partidos se posicionam e intervêm pode ser explicativo. De tão herméticos que são (naquilo que é o carreirismo, seguidismo, até obscurantismo) só perpassa para a opinião pública os dislates e os disparates de uns quantos que desanimam qualquer veleidade de muitos para serem inovadores e prossecutores de acções válidas, com reflexo profícuo na vida das pessoas-pessoa. Os partidos tornam-se num conjunto de uns quantos arregimentados (quais adeptos de clube de futebol) que nos meandros do poder nos vão (des)governando numa lógica de sobrevivência individual e partidária, tantas vezes contrária ao tal bem-comum- de que são expressão máxima a corrupção, as ilegalidades, abuso de poder, a falta gritante de ética e transparência…
É recorrente ouvir referir que se é verdade que se pode votar em a,b,c ou d, também é verdade que só votamos naqueles que previamente foram escolhidos e seleccionados mediante requisitos, processos, por vezes, dúbios e inusitados. Nesta medida, se está diagnosticada a enfermidade democrática nos partidos (e se é pouco crível que se regenerem, pelo menos a curto prazo), que fazer para que a democracia sobreviva aos solavancos do presente?
Não será, provavelmente, a solução, mas poderá ser uma das respostas: a emergência e a consolidação dos movimentos independentes (verdadeiramente) que nasçam, cresçam, cumpram o seu papel e tenham o seu fim; ou se renovem sistematicamente em pessoas e ideias, numa lógica transformativa deles próprios para operarem eficaz e fielmente na realidade. Esta renovação intrínseca e ulterior seria extremamente benéfica à causa pública, delimitando, por certo, compadrios e amiguismos instalados, promovendo a competência, o conhecimento e o serviço ao Outro numa lógica desinteressada mas interessada nas coisas da Pólis. Depois algumas medidas específicas: aumento dos mandatos para 6/7 anos e implementação do mandato único sem possibilidade de reeleição ou nomeação, promovendo assim uma constante alternância, impedindo o “assalto” a cargos de poder indefinida e abusivamente, possibilitando que gente competente, capaz e motivada pudesse exercer cargos que, agora, jamais alcançará. Este poderá ser o/um caminho. Doutro modo, antevê-se num futuro próximo grandes agitações de massas, descontentes com a situação económica e social que todos os dias as tolhe na sua liberdade e aspirações; e isto amplificado pelas redes sociais (comunicação social) que instigam a confusão e o atrito, por uma contrainformação galopante e desinformação paradoxal nesta época altamente globalizada e instantânea (sabemos de tudo em todo o lado e em todo o momento, mas, muitas vezes- porque impreparados e bombardeados- manipulados).
Os partidos políticos tiveram o seu tempo (se calhar, ainda têm o seu lugar), mas outros novos tempos surgem inexoravelmente e ou se adaptam ou definham… esperando nós que o país não definhe com eles.
É caso para perguntar: será o fim dos partidos? Se for, a que custo? Se o não for, o que advirá? No fundo, que Portugal-outro queremos?
(E a política na Guarda?)