Personagens da terra

Os cromos e as cadernetas de cromos ocupam de sorrisos as nossas memórias.Certamente alguns de nós recordamos com enorme entusiasmo a corrida às papelarias para comprarmos as carteirinhas da nova coleção do nosso clube da bola ou do Lucky Luke.Frenéticos, mal podíamos esperar para esventrar as carteirinhas. Teriam o cromo almejadamente procurado? Viciados na coleção, conversávamos com os colegas de escola e com os companheiros da nossa rua para averiguar o sortudo dono do cromo mais difícil.A nossa crónica não vai falar destes cromos preciosos os “cromos” aqui nomeados, foram pessoas palpáveis e verdadeiras. Pessoas com vida própria cuja existência empresta colorido especial a algumas aldeias. Este privilégio de ouro é exclusivo de algumas aldeias.Senão vejamos: corriam os anos 60 no Peroficós (conselho do Sabugal). As adegas, verdadeiras salas de estar dos tempos antigos, constituíam o ponto de encontro para os homens extenuados de mais um longo dia de trabalho no campo.A adega do senhor Miguel enchia-se de gente de pé, à volta da barrica do vinho. A torneira do tonel não parava de rodar enchendo cada copo e dando novo folego a mais uma laracha. Ti Zé Pedreiro assim conhecido por ser calceteiro das ruas e pedreiro das casas da aldeia, com a sua enorme pipa particular onde acolhia praticamente um garrafão de 5 litros todos os dias, era um personagem e tanto.- Vai mais um copo, Ti Zé?A resposta fluía quase tão líquida e pronta como o vinho. “Só por um copo, não vinha cá”. De um só golpe, entronava goela a baixo o copo de vinho.Comia entretanto uma côdea de pão e um chichorro, contava a sua “peregrinação” desde Alcains ao Peroficós, calcetando estradas, limpando as bermas e dando contornos à sua vida. Na aldeia onde então vivia e houvera conhecer sua adorada mulher, fizera igualmente amigos para a vida.Agora estava na adega de um desses amigos eternos.- Vai outro?E novamente a resposta saía clarinha como água: “Claro! Para a carga estar completa”.Evidentemente, o propósito não é fazer um ‘te deum’ ao consumo desmedido do vinho, mas sim, prestar homenagem com carinho perpetuando a presença das pessoas marcantes das nossas aldeias.Agora digam-me: Não atribuiríamos todos ao nosso conhecido Ti Zé Pedreiro a carinhosa distinção de cromo da terra?