A História não se repete, é usual dizer-se

. E com razão. Mas também se vai dizendo que ela é «mestra da vida». Se não é, poderia sê-lo, acrescentam alguns, porque há muito a aprender com ela.Os filósofos pré-socráticos da antiga Grécia, aqueles pensadores que estão na base do pensamento filosófico ocidental, parecendo embora ingénuos nas respostas que dão, eram sábios subtis, bem perspicazes na observação do mundo e na arte do pensar. Dois fenómenos lhes despertavam especial atenção. A diversidade e a multiplicidade, por um lado, e, por outro, o movimento, particularmente o movimento no sentido de mudança. Se a diversidade das coisas os impelia a vislumbrar a unidade de tudo, a mudança haveria de manifestar uma permanência substancial. Se a primeira constatação ficou conhecida como o problema do uno e do múltiplo, a segunda exprime a permanência da mesmidade na mudança. Desde então, estas questões foram dando origem na História a dois modos de pensar que muitas vezes se apresentam profundamente opostos. Uma linha de pensamento, valorizando o movimento e as alterações nas coisas, deixa na sombra a unidade e a permanência do ser. Outra, esquecendo, quantas vezes, as transformações, centra-se predominantemente na identidade do ser de que as coisas seriam concretizações manifestas, apesar da contínua novidade. Cada um de nós poderá dizer: eu sou permanentemente na unidade de um eu, apesar das múltiplas transformações por que fui passando e continuarei a passar. Encontro-me continuamente a morrer e permanentemente a nascer. Por isso algum dia virá a radicalidade da pergunta: o que sou eu, afinal? Uma lei científica, enquanto relação constante entre fenómenos, unifica, na sua expressão matemática, a multiplicidade dos factos, dos fenómenos e das suas transformações. E aí temos os cientistas à procura de leis cada vez mais amplas e unitárias a ponto de se deslumbrarem com a hipótese da descoberta – ou invenção – de uma teoria ou lei matemática que “explique” a realidade fenoménica de “tudo”. E, cedo ou tarde, lá despontará a pergunta radical: o que é a realidade? Não esta ou aquela realidade, as realidades múltiplas exploradas pelas ciências, mas a realidade simplesmente. O que é ela? E o que sou eu, com ela e nela?Há realidades que nos deslumbram, mas a realidade do ser ou o ser da realidade abanam o espírito de tal modo no seu enfeitiçamento que parece ficar a fazer parte da nossa mesma identidade. A pura realidade que se manifesta na multiplicidade e diversidade das realidades aí está deslumbrante e irresistível para sempre, tão intuitiva como fugidia, mas sempre a afirmar-se ao Homem, mesmo quando o Homem a parece esquecer.O Homem, cada um dos humanos, é habitante desta radical realidade e peregrino desta verdade primordial, mesmo quando ele pretende perscrutar as realidades envolventes. E um dia lá virá a radical pergunta: o que é o Homem? É a pergunta em que o filósofo Kant sintetiza as sempre emergentes perguntas no espírito humano quando desperto na vida e para a vida: o que posso conhecer? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? O que é o Homem? Eu, de modo menos abstracto, o que sou eu? Eu, que encarno a realidade no aqui e agora?Talvez a exemplaridade da história possa passar também por aqui. Aqueles filósofos pré-socráticos, convictos de que subjacente à diversidade e mudanças nas coisas haveria uma realidade principiante de tudo, não conseguiam entender-se com a identificação desse princípio fundante e, se abriram o caminho para muitos desenvolvimentos posteriores, potenciaram também uma espécie de crise fecunda na cultura grega, particularmente em Atenas, com a emergência do relativismo e do cepticismo materializados no pensamento sofístico. Tomando como método a ignorância, mas convicto de que o homem pode conhecer a verdade desde que adequadamente a procure, Sócrates toma como máxima o célebre aforismo grego inscrito no Templo de Apolo em Delfos: «conhece-te a ti mesmo». Passados oito séculos vivia-se situação semelhante no tempo de Sto. Agostinho. E é este grande mestre que nos vem dizer que filosofia ou o saber humano se sintetiza na procura do Homem e de Deus; Deus que se pode encontrar na intimidade do próprio Homem.Nos momentos críticos da História o Homem volta-se para si mesmo. Já outros o fizeram notar. Foi assim na Atenas antiga no tempo de Sócrates, foi assim no tempo de Sto. Agostinho, foi assim na emergência da filosofia moderna com Descartes e não sei se não será esse o tempo em que vivemos onde o ser humano parece desaparecer na multiplicidade das antropologias ou nas ideologias emergentes da efervescência dos tempos presentes. Não será necessário lembrar o relativismo de todos os matizes, o animalismo de várias vertentes, o radicalismo da ideologia do género, os desconstrutivismos em moda, os revisionismos bacocos da história ou as ideologias provenientes dos desenvolvimentos tecnológicos e das neurociências. E isto para não falarmos da ideologia censória do “politicamente correcto” ou da ideologia do preconceito sempre pronta a apontar preconceitos ao outro, mas que não consegue enxergar o muro construído pelos seus. É bem patente a diversidade da superfície da realidade. Mas por onde anda a essencialidade do humano? É uma pergunta fora de moda, como fora de moda está a metafísica, mas isso não significa que não possa ser levantada. Talvez seja necessário levantá-la. Talvez seja até urgente. Ainda que ela seja sempre um mistério, a pergunta «O que é o Homem?» tem o condão de nos despertar do leito em que facilmente nos deixamos adormecer na espuma da vida.Perante nós, neste primeiro quartel do Século XXI, um vírus joga às escondidas com o Homem e o Homem, rodeado dos maiores desenvolvimentos da ciência e da técnica de que, com razão, tanto se orgulha, poderá redescobrir a sua fragilidade. Seja também a redescoberta do apelo e a lição da História: Homem, conhece-te a ti mesmo. O apelo é velho. Mas por isso possui a autoridade da experiência feita. Pensar é preciso.O grande humanista P. Manuel Antunes escreveu que «a História é o retorno ao mesmo através do diverso». É o jogo, sempre incessante, do uno e do múltiplo, da permanência na mudança. Talvez a História continue a ser «mestra da vida». Mas não sei se teremos força e acuidade necessária para lhe folhearmos o livro e pensarmos as suas lições. Pensar é preciso. E a pandemia talvez possa dar um empurrão. E a matemática das tragédias humanas também. E a crise climática também. E o terrorismo também. E a fome e a miséria de tantos também. E a nossa vida política também. E a nossa democracia também. E as nossas eleições autárquicas também. Também… Também… Talvez… Talvez… Talvez… mas importa pensar, sem nos deixarmos enfeitiçar pelos velhos cantos de sereia nem pelas crenças pouco fundamentadas de que se alimentam as posições extremas a raiar sempre o fanatismo e que ocultam o essencial e o futuro na roupagem reluzente e atraente do presente. Rima, é certo, mas nem por isso é poesia. A poética da vida não está aí. Mas também ela não está na apatia ou na indiferença que renuncia a pensar para aceitar passivamente o devir tal qual como vai acontecendo em que se abriga o fatalismo. O canto poético está do outro lado e mais além. Ele tem o compasso do movimento do pensar a que importa dar espaço e alento.16 de Setembro de 2021.