Pandemia, negação, aceitação, esperança

Já passaram largos meses desde que a notícia nos chegou como um trovão que nos despertou – teremos despertado suficientemente? – para a realidade. Talvez já tenhamos esquecido a reacção que então houvéramos tido. Na memória terão ficado, talvez, imagens de uma realidade trágica que nos chegavam de terras longínquas, de uma desconhecida cidade chinesa. Era uma realidade outra, que não a nossa. E um dia, também ela foi nossa realidade tranquila. Como reagimos então? Talvez já nem nos lembremos com nitidez. As informações passaram a ser avassaladoras, os espíritos foram ficando confundidos. É que, é bem mais difícil proceder à leitura do mundo do que ler as linhas que enfeitam uma folha de papel.Já terá acontecido com todos. Quando recebemos uma notícia inesperada, sobretudo quando ela é desagradável, espontaneamente somos levados a negar a situação. Confesso que já aconteceu comigo e já tenho encontrado a mesma atitude com muitos daqueles com que me vou cruzando nos caminhos da vida. O “não acredito!” ou um simples “não!” parecem fazer parte das respostas que a natureza humana tem programadas para superar situações traumáticas inesperadas. Olhemos primeiro, então,  para uma situação bem frequente e, como creio, menos traumática.Presenciei a cena vezes sem conta. Frequentemente se ouvia um “não!” na sala de aula, entoado por alunos que, ao receberem um teste, deparavam com uma avaliação menos boa do que estariam à espera. É verdade que também acontecia quando algum recebia uma avaliação que superava as expectativas. Mas aquele “não!” estava mais associado a classificações negativas. Quando na escola são afixadas as pautas com as classificações dos exames nacionais, o “não!” é recorrente. Com frequência seguido de um “que raiva!”, o “não” bem exprime a frustração do estudante. Mas, se o leitor pretender um exemplo bem de hoje no cenário internacional, baste olhar para o reiterado negacionismo do ex-presidente dos E.U. da América nas últimas eleições.Por múltiplas razões tem-me vindo à memória, nestes meses de pandemia, o modelo proposto pela psiquiatra e ensaísta Elisabeth Kübler-Ross (1926-2004) que em 1969 publicou o famoso livro On Death and Dying (Sobre a morte e o morrer) onde identifica 5 estádios, passos ou momentos, por que passa o ser humano em experiências dolorosas. Conforme se evidencia pelo título, a famosa psiquiatra, que se tornou pioneira no tratamento de pacientes em estado terminal e se especializou em cuidados paliativos, tem ali em mente o processo ligado à morte. Posteriormente, porém, defendeu que o modelo se poderia aplicar a outras situações humanas trágicas ou particularmente dolorosas, como o desemprego, o divórcio ou a morte de um ente querido. Pensadores, filósofos e sociólogos, já se têm servido deste modelo para a análise social, inclusive, para a análise das catastróficas questões ecológicas, que alguns continuam a negar e, mais recentemente, para o estudo do controlo digital das nossas vidas de que não temos ainda clara consciência.O modelo encontra-se hoje muito divulgado e atrever-me-ia a dizer que o seu conhecimento faz parte de uma cultura geral razoavelmente informada. Assim se exprime o falecido médico neurocirurgião, João Lobo Antunes (1944-2016), reportando-se àquele livro de Kübler-Ross e ao modelo lá proposto: «A análise é brilhante, apoia-se em casos ilustrativos, e não há dúvida de que todos estes passos são reconhecíveis na prática clínica, excepto que, muitas vezes, não seguem a sequência descrita e a negação ou a revolta podem persistir, inalteradas, até ao final ou, então, a depressão inaugura o quadro e não mais se abate.»Valerá a pena revisitá-lo nestes tempos incertos e de pandemia galopante, não esquecendo, no entanto, as observações feitas por João Lobo Antunes. Aliás, E. Kübler-Ross não terá defendido, como por vezes transparece na divulgação do modelo, que as pessoas passariam sequencialmente e de uma forma fixa pelas cinco fases do modelo. Antes realçara que elas não se sucederiam necessariamente pela ordem descrita, nem seriam vividas na totalidade por todos, Que fases e modelo é este?Perante uma informação dolorosa, a reacção imediata é a negação do facto, seja ela mais ou menos explícita ou interiormente sofrida («Não, isto não pode estar a acontecer comigo», – pensará no seu íntimo o estudante perante um mau resultado no exame); interiorizada a ideia de que já não é possível negar a realidade nem poder reverter a situação, surge uma espécie de revolta ou raiva que poderá ser acompanhada por uma procura de culpados (“Que raiva! Por que raio isto me está a acontecer, a mim que tanto estudei?” - Poderá perguntar o estudante); sabendo que a raiva de pouco ou nada valerá, importará encontrar uma saída: é o momento de uma espécie de negociação traduzida na criação de uma ficção com uma vaga esperança de que as coisas poderão ser amenizadas («Talvez a prova não tenha sido bem corrigida. Valerá a pena pedir a sua revisão?” – Interroga-se o estudante). Mas outro estado mental poderá atingir o ser humano. É o estado de depressão expressa numa espécie de crise existencial traduzida numa sensação de vazio e no desinvestimento perante as coisas e a vida («Se as coisas estão assim tão más, por que razão me hei-de preocupar seja com o que for?»). O quinto estádio do processo é a aceitação, caracterizada pela consciência de que não se podendo evitar o infortúnio da situação, importará aceitá-la e procurar vias para uma superação existencial («A vida não é um mero exame escolar. Se reprovei, o melhor é encarar o facto com optimismo possível e reorientar a vida, ainda que isso implique alguns sacrifícios.»)Negação, raiva ou revolta, negociação, depressão e aceitação. Nestes momentos, que poderão ser longos, e entre a negação e a aceitação, medeia todo um complexo conjunto diferenciado de vivências e comportamentos, tantas vezes bem dramáticos, mas também quantas vezes bem cheios de alegria quando a aceitação abre o caminho para uma renovada esperança! Dizia acima que, nestes tempos de pandemia, me tem vindo à memória este modelo. Seja ela olhada no inesperado do seu aparecimento, seja nos fenómenos e factos que tem vindo a desencadear. Desde os primeiros internamentos e mortes no país, até aos hospitais em situação de catástrofe, os médicos em «sofrimento ético», os números de mortes e de infectados a subirem diariamente, passando pelos ininterruptos estados de emergência e o consequente confinamento doméstico.Já não haverá ninguém que olhe para a pandemia como uma simples «gripezinha», mas andará por aí muita gente, negacionsta ou não, a reagir com “raiva” às medidas decretadas ou a cair nalguma “depressão”, suave ou mais grave, e outros a negociá-las subtilmente com subterfúgios de inteligência espertalhona de que diariamente os média nos dão conhecimento. Seja, para todos, a aceitação espiritualmente activa.Diligentibus deum omnia cooperantur in bomum (Rm 8, 28) ou, traduzindo: «Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus.» Não, não se trata de um sadismo impiedoso nem se trata de exortar a uma resignação perante as situações difíceis ou desesperantes. É a esperança activa fundada na fé do amor de Deus.Guarda, 23 de Janeiro de 2021