Os Verbos da Mão

Neste tempo em que a Humanidade foi invadida por um vírus malfazejo fomos todos alertados para a necessidade de lavar melhor e frequentemente as mãos. E por todos os meios fomos sendo ensinados a lavá-las, aquele acto com o qual pretendemos libertar as impurezas malévolas alojadas nas mãos. Entre as “mãos sujas” e as “mãos limpas” interpõe-se um acto das próprias mãos: o acto de lavar.O céptico e humanista Montaigne, nos seus “Ensaios”, deixou-nos um texto que tenho recordado frequentemente. Com as mãos, escreve, «Requeremos, prometemos, chamamos, congeminamos, ameaçamos, pedimos, suplicamos, negamos, recusamos, interrogamos, admiramos, numeramos, confessamos, arrependemo-nos, tememos, envergonhamo-nos, duvidamos, instruímos, comandamos, incitamos, encorajamos, juramos, testemunhamos, condenamos, absolvemos, injuriamos, desdenhamos, desafiamos, lisonjeamos, aplaudimos, bendizemos, humilhamos, ridicularizamos, reconciliamos, recomendamos, exaltamos, festejamos, queixamo-nos, entristecemo-nos, desesperamos, espantamos, gritamos, calamos; e que mais não fazemos?». Conclui, então, com razão: «uma variação e multiplicação que faz inveja à língua.» «E que mais não fazemos?» com as mãos, pergunta Montaigne, como que a dizer que tudo fazemos com elas, que nada haverá em que, directa ou indirectamente, não se verifique a intervenção das mãos. Por isso a lista é bem incompleta e cada um de nós poderia acrescentar muitos outros verbos à interessante lista de Montaigne. Não encontramos nela os verbos que mais facilmente nos virão ao pensamento, como agarrar, tomar, colocar, unir, tocar, levantar, acariciar, saudar, oferecer, receber, agradecer, pintar, desenhar, pesar, esculpir, bordar, escrever, cozinhar, comer, apontar, tratar, curar, cumprimentar, dançar, rezar, adorar, … «E que mais não fazemos com as mãos?» Eles, os verbos da mão, dariam boa matéria para uma interessante enciclopédia! Nestes tempos em que muitos nos recolhemos em casa, e em que a televisão nos traz diariamente a linguagem gestual do surdo-mudo, sugiro um passatempo para ampliar a lista dos verbos da mão. “Peguemos” num verbo qualquer, cozinhar ou jardinar, por exemplo, e descubramos os «verbos da mão» que nele são conjugados. Lá encontraremos o verbo “lavar”, aquele que presentemente mais somos convidados a exercer: “lavar as mãos”, sabendo bem que, nesse “lavar”, há mãos que lavam e mãos que são lavadas, intentando que elas deixem de transportar a «mão invisível» desse vírus ultramicroscópico mas de poder macroscópico, capaz de lançar na emergência o Planeta inteiro. Por esta «variação e multiplicação que faz inveja à língua» facilmente compreendemos por que razão a mão se tornou nas culturas humanas o símbolo por excelência da acção, do poder, do senhorio e do domínio. Daí a ambivalência da mão, bem manifesta em expressões idiomáticas da nossa língua e literatura popular. É que também podem matar e ferir as mãos que tocam, acariciam, curam, rezam ou adoram. Se Manuel Alegre canta no soneto «As mãos» que «Com mãos se faz a paz se faz a guerra. / Com mãos tudo se faz e desfaz», o filósofo francês Jean Brun escreve: «Poder-se-ia dizer da mão do homem que ela é, ao mesmo tempo, a verdade e o erro. É a verdade, na medida em que agarra, maneja, forma. É o erro, na medida em que crê que pode ou poderá agarrar tudo, manejar tudo.» Quando, porém, este acreditar que tudo pode manipular e controlar se deixa “tocar” pela contingência e fragilidade da existência, como no momento pandémico por que estamos a passar, então a «mão do Homem» pode elevar-se, humilde, em adoração olhando a «mão de Deus» que se revela enquanto se esconde nas nuvens do céu, como muitas vezes é representado na iconografia religiosa. Então experienciamos a distância e entramos no domínio do intangível, do intocável, do mistério.É curioso que o filósofo alemão Heidegger, interrogando-se “Que quer dizer pensar?”, responda surpreendentemente: «Pensar talvez seja simplesmente da mesma ordem que trabalhar com um cofre. Em todo o caso pensar é um trabalho da mão.» Estranhas, sem dúvida, estas afirmações. Trabalha-se com um cofre depositando e guardando nele tesouros e, se a sua abertura é portadora da sua desocultação, pode ela ser também fonte de perigos quando violado sem cuidado ou ilegitimamente. De qualquer modo um cofre é um depósito de tesouros: materiais se nos colocarmos no domínio da sua realidade física, e espirituais se nos situarmos no âmbito simbólico das realidades espirituais. Tal como será o pensar, esse trabalho da mão espiritual pelo qual o Homem “apreende” as coisas, as “pesa” e pelo qual se lança no “empreendimento” de as “compreender” com o intuito de se situar no “ser” da sua existência. E isto desde o início da vida de cada um. O reflexo de “preensão” [agarrar com a mão], lembremo-nos, é um dos primeiros reflexos do bebé, como o reflexo de sucção pelo qual se alimenta.Jean Brun, comentando o dizer de Heidegger, escreve: «Se pensar é um trabalho da mão, não é porque a mão trabalhe no lugar do espírito, mas porque pensar é, ao mesmo tempo, fazer trabalhar a mão e trabalhar a própria mão. Uma cultura é uma cultura da mão, não porque seja feita pela mão, que agiria, por assim dizer, completamente só, mas porque é, acima de tudo, uma educação da mão feita pelo homem.» Talvez nunca tenhamos sentido, como hoje, a importância da «educação da mão». O apelo à lavagem das mãos bem pode ser visto como metáfora da importância da «educação da mão» cuja necessidade é tanto maior quanto mais o homem actual se deixa encantar pelas tonalidades múltiplas do instrumentalismo que reduz a mão do Homem a um instrumento do manejo de outros instrumentos, ensombrando o “cofre” do espírito onde se guarda o tesouro do “pensar”.O Deus criador do Génesis é um Deus escultor que molda a terra com as mãos e cria o Homem à sua imagem. Antes de os encontrarmos a dialogar, Adão e Eva relacionam-se através da “preensão”. Eva estende a mão a colher o fruto da misteriosa árvore do conhecimento, com a mão entrega o fruto a Adão e ambos, com as mãos, o levam à boca. Foi então que, descobrindo que se encontravam nus, estendem as mãos para uma figueira, colhem umas folhas e tecem a roupa para se cobrirem. Desde então, desde o princípio, o Homem é terra que pensa, e pensa cavando a terra com as mãos para comer o pão. É preciso pois «lavar as mãos», mas, para que não seja o lavar de Pilatos, talvez seja útil lembrar a singeleza da sabedoria do linguajar popular: «Uma mão lava a outra, mas ambas lavam o rosto.» Qual é o nosso rosto? Seja ele o de quem contempla, em silêncio, o rosto de Jesus Ressuscitado. Nestes tempos de pandemia viral, bem podemos memorar que Ele, agora de mãos triunfadoras sobre a morte, ao expirar de mãos pregadas na cruz, ainda teve ânimo para rezar: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.»Guarda, 31 de Março de 2020.