O solstício de Verão chegou até nós no dia vinte e um de Junho pelas quinze horas e cinquenta e quatro minutos.

Isto quer dizer que, a partir desse momento, o Sol vai regressar à linha do equador. Como tal, nós que habitamos o hemisfério norte, começamos a perder tempo diurno até às quatro horas e dezanove minutos do dia vinte e dois de dezembro, data em que volta a regressar ao círculo máximo da esfera terreste, vindo do hemisfério sul. Os tempos precisos que aqui se mencionam, apenas se referem ao ano corrente de dois mil e dezanove.
Os solstícios têm uma separação de cerca de meio ano, com a coincidência de na sua entrada serem muito festejados. O de Verão tem os festejos dos santos populares, onde o São João sobressai, com os arraiais, bailaricos, marchas populares e feiras anuais que também movimentam muita diversão. O dia de São João, que acontece a vinte quatro de Junho, por ser muito festivo é o dia que em Portugal mais feriados municipais acontecem, sem que na maioria dos casos seja o santo padroeiro. Podemos referir as cidades de Porto e Braga, feriado municipal em ambas, embora como orago do Porto seja Nossa Senhora da Vandoma e de Braga São Geraldo, arcebispo primaz daquela arquidiocese.
A ementa destas festividades tem a sardinha assada e os pimentos na mesa de quase todos os portugueses e, na maioria dos casos, na rua, em locais adornados com arcos e balões. Como se vive numa época calmosa, recorre-se muito a bebidas frescas, onde a cerveja marca pontos, pois além de refrescar, o seu teor alcoólico também ajuda à animação e é donde vêm os proventos, que suportam toda a logística que enche o povo de alegria.
Passa o verão, passa o outono e nos últimos dez dias do ano, lá vem o solstício que põe o período solar a crescer. O Natal está logo ali a começar no dia vinte e quatro às horas da “Ceia” e a ser religiosamente comemorado no dia seguinte. Pode-se dizer que esta festa tem um ambiente com um sentido mais familiar desde a hora da ceia, que é à hora do jantar dos restantes dias. Numa acalmia perene recebem-se os familiares que vão chegando, dois dedos de conversa e mesa posta. A ementa de Natal tem sofrido várias alterações e pode-se dizer que vai sendo melhorada em conformidade com o cabaz de compras. No entanto eu ainda vou mantendo a que tem pelo menos seis décadas, umas sopas alusivas à quadra, batatas com bacalhau e hortaliça. Por vezes o polvo também tem lugar, mas num segundo plano.
Sou dos que vou à missa do galo, ponto de partida para os cânticos ao Menino, também aproveito a passagem por um madeiro, pois além do calor que ele próprio irradia, não deixo de sentir o calor humano.
As prendas que ainda entram pela chaminé só serão abertas na manhã de vinte e cinco, no dia de todo o cerimonial religioso.
Desde o tempo em que me habituei a respeitar esta tradição, apareceu o Pai-Natal, para alegrar as crianças, mas que não faz de bom pai, pois mostra tudo num mar de rosas.
Na semana seguinte chega o ano Novo, com festejos populares em todo Mundo, conforme o ano vai entrando. É evidente que temos de esperar pela nossa vez. Estamos a meio da fila, de modo que não somos ultrapassados por ninguém. Aqui o poder mediático fez quebrar as tradições, pois o que mais interessa é ver a pirotecnia, que começa no Pacífico e onde vai terminar vinte e quatro horas depois.
Tudo isto fez acabar com a tradição do cantar as janeiras, onde se molhava a garganta e se compunha a barriga, enquanto de davam as boas festas pelos vizinhos.
Tudo muda e como pertenço à geração que anda cá há mais tempo, resolvi deixar este relato respeitante a dois eventos separados por meio ano.