Os “Retornados” que Aguardavam Viagem

A situação que se vivia em Angola era, como acima referido, de enorme turbulência social. Enquanto os movimentos guerrilheiros se iam reforçando e consolidando, a minoria branca passou a conhecer uma nova realidade, marcada por momentos de ‘’vexações, de violência e mesmo de ataques por parte de grupos armados”. Assim, todo o clima instalado fez com que a minoria branca, que se tinha visto afastada da participação no processo político de independência do país, tivesse de sair de Angola. A onda de violência gerada fez com que as autoridades portuguesas decidissem ‘’evacuar por via aérea os portugueses residentes na colónia”. Para tal, foram definidos como pontos de transporte os aeroportos de Luanda, Nova Lisboa e Sá da Bandeira, com o apoio das tropas portuguesas.O êxodo da minoria branca foi sendo feito até ao dia 1 de novembro de 1975. Durante este período, algumas situações foram sendo noticiadas durante todo o processo. No dia 8 de Junho de 1975, o Diário de Notícias noticiou que estaria a haver um aumento exponencial de saída dos colonos brancos, sendo que, naquele dia, fontes oficiais revelavam que cerca de 100 mil pessoas se encontravam ‘’inscritas para regressarem a Portugal”. Em média, durante o mês de junho, foram sendo repatriadas cerca de quinhentas pessoas por dia, o que demonstra que inicialmente houve pouca oferta face ao elevado número de procura. Em finais de julho, a situação em Luanda continuava instável, e o fluxo de êxodo do país verificava-se a um ‘’ritmo de cerca de três mil pessoas por dia”. O número de pessoas que aguardavam repatriamento mantinha-se nos finais do mês de agosto, quando a imprensa ‘’falava da existência de cem mil desalojados à espera de transporte para Portugal”. A 24 de Setembro, o Alto-Comissário Leonel Cardoso ‘’declarou que era necessário repatriar cerca de trezentas mil pessoas”. Deste modo, o número de afluência aos aeroportos foi imenso, e muitos daqueles que aguardavam partida viam-se forçados a permanecer nas instalações dos aeroportos, de maneira a estarem protegidos das situações que ocorriam no exterior.No entanto, o processo não foi fácil e a população foi apontando falhas à maneira como a saída de Angola estava a ser processada. No aeroporto de Nova Lisboa, por exemplo, houve tensões ‘’derivadas principalmente da alteração do programa de evacuação”. No local encontravam-se cerca de 30 mil pessoas, mas ainda que se previsse que as viagens começassem a ser efetuadas a 14 de agosto, a verdade é que apenas uns dias mais tarde começaram os voos da ponte aérea. Na mesma notícia, referia-se ainda a presença de 7 mil refugiados no aeroporto de Sá da Bandeira.As manifestações foram um forte meio encontrado pela população para exprimir o seu descontentamento. A mais conhecida foi realizada por camionistas e ocorreu em novembro de 1974. Como resultado, esta greve prejudicou imenso ‘’a economia do país, isolando Luanda e as demais cidades das suas fontes de abastecimento”. Apesar dos efeitos negativos, com a imprensa a acusar os camionistas de serem ‘’instrumentos da reação brancas”, a verdade é que foi um dos momentos marcantes daquele período, em que ficou demonstrada a força das reações populares. Deste modo, também os colonos que aguardavam partir utilizaram as manifestações para expressar o seu desagrado aos governantes. Assim, em agosto de 1975,cerca de ‘’três mil a quatro mil” ‘’colonos portugueses manifestaram-se” em Luanda. Como reivindicação, exigiam o aceleramento da ponte aérea, uma vez que era necessário ‘’evacuar até 300 000 brancos” antes do dia da proclamação da independência de Angola. Mais tarde, sentindo que a via aérea era insuficiente, houve uma nova manifestação em Luanda, desta vez pedindo que a ‘’ponte aérea seja reforçada pela evacuação em transportes marítimos”, e aproveitando também para pedir ajuda a países estrangeiros.O apoio por parte de outros países foi uma realidade. Portugal não se viu sozinho no esforço de fazer regressar os portugueses que queriam sair de Angola. Em setembro, um informador do governo britânico anunciou ajuda a Portugal durante um mês, ‘’efetuando cinco viagens por semana entre Luanda e Lisboa”. Para além disto, outros países fizeram a ponte aérea. Até 18 de Setembro, estimava-se que eram cerca de ‘’12.288 o número de retornados de Angola” evacuados por aviões estrangeiros. Para além de Inglaterra, os países que ajudaram nesta missão, segundo notícia do Diário de Notícias, foram: Estados Unidos da América, República Federal da Alemanha, República Democrática Alemã, União Soviética e Checoslováquia.Assim, após milhares de viagens efetuadas, a ponte aérea entre Lisboa e Angola foi finalizada na noite do primeiro dia de novembro. Só entre Luanda e Lisboa, foram evacuados cerca de 300 mil portugueses ‘’que não queriam continuar em Angola”. Contudo, ‘’entre trinta e cinquenta mil brancos” permaneceram no país, sendo que muitos se encontravam apoiados politicamente pelo MPLA.