O povo português tem um jeito muito próprio de brincar com as palavras

em especial quando as mesmas são homofónicas e propícias a trocadilhos que resultem num palavreado picante. O nosso vocabulário é bastante rico para estas situações, em que a polissemia permite expressões em que a pacatez muitas vezes não atinge o seu alcance.
Hoje falo-vos da palavra “sítio”, que tem várias interpretações dentro do espaço que é coberto pela lusofonia. No espaço europeu, a palavra sítio é utilizada para designar um espaço ocupado por qualquer objeto, bem como um qualquer ponto geográfico. Já no Brasil o mesmo termo significa quinta, um espaço de relativa dimensão para agricultura e lazer.
Desta variação de entendimento resulta que um português quando é corajoso e decidido se diz “que os tem no sítio”, enquanto que o brasileiro gaba as “abóboras do seu sítio”.
Em termos de informática também se dá o nome de sítio onde se recolhe informação de determinada natureza.
Aqui chegados, dá-me a entender que o portal da internet, onde assenta toda a justiça do país acolheu a indicação de “citius”, cuja dicção coincide com o plural do vocábulo que serviu de arranque a este meu texto.
Estamos numa época em que o início do ano judiciário coincidiu com uma reforma judicial que, por sua vez, assenta num novo mapa forense, que já gerou muita indignação de norte a sul, tanto na população como nos próprios titulares da justiça.
Creio que toda esta remodelação visa interesses economicistas admitindo, no entanto, que seja previsível alguma celeridade na magistratura, para isso convicto de que as distâncias acabam por afastar dos tribunais as causas de menor importância.
Todos estes planos caíram por terra, porque a plataforma em que assenta o “citius” não dá acesso a quem precisa de consultar toda a documentação que ali foi depositada. Tudo isto resultou, porque quem esteve na base desta decisão resolveu fazê-lo em cima do joelho, talqualmente os escravos moldavam a telha mourisca, onde a perna servia de molde.
A incompetência já deu a cara com um pedido de desculpas, embora isso seja aceite por muito boa gente, eu desconfio e tenho razões para tal, pois quem está a comandar o pelotão que nos governa, também se serviu dos canais televisivos para pedir desculpa aos portugueses. Só que a ação que se seguiu acabou por desmontar toda a sua retórica.
Estamos perante uma deficiência num órgão de poder, onde os prazos têm um efeito determinante para que se faça justiça. Em muitos casos fatores externos fazem cair processos algo complexos que acabam por desvirtuar os tribunais; com esta ajuda interna, muito mais aligeira a ação de quem alega a defesa nas causas em que a morosidade é um fator importante.
Segundo ouço a quem está por dentro, e relativamente a datas anteriores a um de setembro do ano que decorre, a justiça não tem ponta por onde se lhe pegue. Refletindo um pouco sobre esta afirmação leva-me a concluir que esta realidade é em tudo semelhante a todos os outros setores da vida portuguesa, pois a saúde e a educação, parecem-me estar ao mesmo nível, pois por todo lado ouço dizer que as insuficiências são mais que muitas.
Pobre povo português, perdoem-me esta aliteração, depois de lhe terem reduzido a ração ao mínimo, saqueado os bolsos, ainda lhe esvaziaram os sítios, onde ele tinha alguma esperança. Por meu lado, também estranho uma situação, é que na vez do pedido de desculpa, não tenha havido um comunicado ao país, da parte do governo, que é tão hábil neste tipo de discurso, responsabilizando o governo anterior, pois segundo a visão deste órgão do Poder o que se herdou é para destruir e refazer pior, porque o que existia, estava acima das nossas possibilidades.
Por aqui fico sitiado, amparado pela mutilada liberdade na esperança de melhor mobilidade.