O caçador Simão, de Guerra Junqueiro

Tiros ao longe numa luta acesa!Rola indomitamente a multidão…Tocam clarins de guerra a Marselheza…Desaba um trono em súbita explosão!...
Papagaio real, diz-me, quem passa?- É alguém, é alguém que foi à caçaDo caçador Simão!...
Final do poema O caçador Simão, de Guerra Junqueiro, de 8 de Abril de 1890, dedicado a Fialho de Almeida.
Com a morte do Rei D. Luís, em 1889, sucede-lhe no trono o seu filho, de nome completo Carlos Fernando Luís Maria Victor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Bourbon e Saxe-Coburgo-Gota, conhecido por Rei D. Carlos.Este reinou de 1889 a 1908, ano em que foi assassinado, ficando para a História como “O Martirizado”, “O Diplomata” ou “O Caçador”. Em matéria de caça era bastante conhecida a sua paixão, na qual era considerado, para além de um exímio caçador, um excelente atirador. Por exemplo, na sua última caçada em Vila Viçosa, três dias antes de ser assassinado, caçou cinco raposas, sete perdizes, um tordo e noventa coelhos. Por exemplo, como atirador, de pontaria infalível, acertou num alvo dez vezes consecutivas no mesmo buraco da bala, a uma distância de trinta passos. Era pois conhecida a sua paixão pelas caçadas as quais praticava com frequência em Vila Viçosa, Sintra ou Mafra.O Ultimato Inglês de 1890 foi sentido como um ultraje por toda a nação portuguesa, provocando a elevação dos círculos republicanos portugueses. Guerra Junqueiro, conhecido escritor, converteu-se numa das vozes mais agressiva da propaganda republicana, ele que até então era um frequentador dos círculos conservadores da sociedade e da política portuguesas. Para o efeito compôs um poema, que dedicou a Fialho de Almeida, intitulado O caçador Simão e que foi publicado na imprensa da época como no Globo, na Província e nos Pontos nos ii, entre outros. Recorde-se que Simão era o último dos nomes próprios do Rei D. Carlos, logo o caçador Simão pretendia designar o próprio rei, entronizado recentemente.O poema foi considerado uma premonição (ou mesmo um desejo) do atentado que haveria de matar o rei e o seu filho primogénito, 18 anos mais tarde.Logo na primeira quadra, Guerra Junqueiro, hostiliza o rei, acusando-o de indiferença, perante a agonia do seu moribundo pai, o rei D. Luís I e da dor da sua mãe, a rainha D. Maria Pia. Nas restantes quadras pode observar-se o ódio e o sentimento patriótico provocados pelo Ultimato Britânico, o qual vexou uma pátria inteira. Perante a indignação pública nacional, onde estava o nosso rei? Para Guerra Junqueiro, D. Carlos dava preferência às suas caçadas, aos javalis, às perdizes, às lebres. Claro que teremos de enquadrar este poema na propaganda republicana do seu tempo, pois o rei D. Carlos não seria exactamente como o escritor o retratou. O ódio expresso por Guerra Junqueiro leva-o a escrever a última quadra, que se viria a revelar profética, não faltando quem a interprete como um incentivo ao regicídio (Papagaio real, diz-me, quem passa? - É alguém, é alguém que foi à caça do caçador Simão!...) [Em Simão leia-se o Rei D. Carlos]. O regicídio viria a ocorrer no dia 1 de Fevereiro de 1908, quando as armas de Manuel Buiça e de Alfredo Costa matam o Rei D. Carlos I, vindo de Vila Viçosa onde praticara a caça, e o Príncipe Real D. Luís Filipe, em pleno Terreiro do Paço.Para melhor compreensão fica o poema integral:
O caçador Simão
Jaz el-rei entrevado e moribundoNa fortaleza lôbrega e silente…Corta a mudez sinistra o mar profundo …Chora a rainha desgrenhadamente …Papagaio real, diz-me quem passa?— É o príncipe Simão que vai à caça.
Os sinos dobram pelo rei finado …Morte tremenda, pavoroso horror!...Sai das almas atónitas um brado,Um brado imenso d’amargura e dor …
Papagaio real, diz-me, quem passa?— É el-rei D. Simão que vai à caça.
Cospe o estrangeiro afrontas assassinasSobre o rosto da pátria a agonizar …Rugem nos corações fúrias leoninas,Erguem-se as mãos crispadas para o ar!...
Papagaio real, diz-me quem passa?—É el-rei D. Simão que vai à caça.
A Pátria é morta! A Liberdade é morta!Noite negra sem astros, sem faróis!Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,Guarda a Infâmia os sepulcros dos Heróis!
Papagaio real, diz-me, quem passa?—É el-rei D. Simão que vai à caça.
Tiros ao longe numa luta acesa!Rola indomitamente a multidão …Tocam clarins de guerra a Marselheza …Desaba um trono em súbita explosão!...
Papagaio real, diz-me, quem passa?—É alguém, é alguém que foi à caçaDo caçador Simão!...