Os livros no caminho do Homem

Elogio da Loucura, de ErasmoErasmo de Roterdão (1467-1536), de seu verdadeiro nome Geert Geerts, é a expressão máxima do humanismo europeu do Renascimento. Ao mesmo tempo, é a figura mais destacada entre os precursores da Reforma religiosa da Europa, o mais conhecido humanista europeu e o mais influente e decisivo de todos os humanistas que influenciaram a história dos países europeus da época. Como amigo de intelectuais, governantes e imperadores exerceu uma influência e magistério das novas doutrinas, que se espalharam por grande parte dos países europeus num fenómeno que ficaria conhecido por “erasmismo”. Multifacetado, foi na literatura que revelou as suas intenções de instruir as novas ideias reformistas, num tom piedoso e intimista, o que posteriormente seria característica dos outros escritores reformistas. Como todos os verdadeiros humanistas, Erasmo pretendia uma renovação espiritual no seio da Igreja. Havia, aliás, sido ordenado frade agostinho no ano de 1492, mas pediu pouco tempo depois a dispensa dos votos, sem renunciar, todavia, ao sacerdócio. Neste campo tinha como objetivo a necessária secularização da formação doutrinal dos laicos, mais do que a crítica aos clérigos, através de uma orientação na base da Escritura, em especial a de São Paulo, que considerava o máximo representante da real essência do cristianismo e do ensinamento evangélico. Autor de vários livros, publicou em 1504 o “Manual do Cavaleiro Cristão” que veio responder às necessidades de formação da nova época e que resulta do objetivo de renovação espiritual baseada no intimismo como contraponto ao luxo da liturgia católica romana. Ao basear-se no comentário filológico da Bíblia, e tomando como fundamento a doutrina de São Paulo, propõe uma religião intimista e verdadeira em que a intenção se deve sobrepor à forma cultural, o que resultará decisivo para a compreensão de determinados princípios do Protestantismo, bem como de outros movimentos considerados heréticos conotados com o Iluminismo. A este propósito, em Espanha os textos de Erasmo foram fundamentais para o período religiosos e político da monarquia de Carlos V, que se caraterizou pela tolerância religiosa e política.Outro livro, intitulado “Adágios”, obteve grande êxito pois tratava-se de coletânea de máximas que segue uma linha mais classicista, mas que seria útil à Moral. Nesta obra, o autor sustente uma tese claramente desprendida e defende que o verdadeiro progresso humano se encontra na apreensão da sabedoria na Antiguidade Clássica, a qual é agora retomada no Renascimento.Os “Colóquios” são um livro composto por lúcidas exposições das diversas questões que se punham aos pensadores da época às quais se juntam os ideais da vida do próprio Erasmo como representante do humanismo classicista. Mas a sua obra mais importante é o “Elogio da Loucura”, muito influente na literatura europeia. Escrito durante a sua permanência em Inglaterra como convidado de Tomás Moro, o autor da “Utopia”, aparece na continuação das obras satíricas em voga no século XV, como “A Nave dos Loucos”, de Sebastian Brant. No “Elogio da Loucura”, Erasmo traça um retrato ridículo e irónico da sociedade contemporânea, vista como muito distante do ideal humanista. Embora o autor tenha a noção que a sociedade dificilmente viveria segundo o ideal humanista, sustenta com alguma ironia a tese que a felicidade seria diretamente proporcional ao poder que a loucura tem sobre a alma humana. Quer dizer, se a Loucura é inépcia e inconsciência, então os mais loucos serão os mais felizes e a revelação dos motivos da sua felicidade são o pretexto para ridicularizar o aspeto de uma sociedade em que o poder parece ser manobrado pelos mais inábeis. Aqui, Erasmo é genial pois impede que esta obra seja, apenas, mais uma obra satírica do seu tempo. Dedicada a Tomás Moro, autor da “Utopia” que já abordámos neste jornal, a obra vem a revelar-se como anti utopia, isto é, como uma negação da utopia social humanista. A Loucura é perfeitamente pensada, enquanto inépcia e inconsciência, saindo ridicularizada de tal maneira que poderemos pensar que o autor desejava elogiar o contrário. Contudo, a sátira chega ao extremo da desqualificação que impede uma contrária sabedoria justa e proporcional. Isto significa que Erasmo tem uma intenção estritamente burlesca, tanto mais que o tema central da obra exerce uma grande influência pelo acerto do esquema geral.Em homenagem a Erasmo e aos seus ideais, a União Europeia promove o Programa Erasmus, um plano de gestão que apoia e facilita a mobilidade académica dos estudantes e professores universitários através do mundo inteiroO programa honra Erasmo, conhecido como oponente do dogmatismo, que viveu e trabalhou em vários locais da Europa para expandir e ganhar novos conhecimentos, e que deixou a sua fortuna à Universidade de Basileia.