A Cartilha Maternal, de João de DeusA Cartilha Maternal ou Arte de Leitura, também conhecida como Método João de Deus,

é uma obra pedagógica, publicada em 1876, da autoria do poeta e pedagogo João de Deus. Destinava-se a servir de base como método de ensino da leitura às crianças.O método desenvolve uma metodologia que, segundo o autor, se funda na língua viva, não apresenta os seis ou oito abecedários do costume, senão um, do tipo mais frequente, e não todo, mas por partes, indo logo combinando esses elementos conhecidos em palavras que se digam, que se ouçam, que se entendam, de modo que … em vez do participante apurar a paciência numa repetição néscia, se familiarize com as letras e os seus valores na leitura animada de palavras inteligíveis. Com recurso a grafismos, este método trata as sílabas numa relação de dependência com as palavras em que estão inseridas. Assim, a aprendizagem da leitura apresenta-se na sequência da aprendizagem da linguagem oral. Uma das suas maiores originalidades reside no grafismo. João de Deus distinguiu letras gordas e finas para prender a atenção e facilitar a aprendizagem da leitura. Começou por apresentar as vogais porque sem vogais não há sílabas e são as sílabas que formam as palavras.Recordemos que, no século XIX, a esmagadora maioria das crianças, e consequentemente os adultos, eram analfabetos e poucos frequentavam estabelecimentos de ensino. Não obstante, não foi a primeira obra a ser editada em Portugal com este propósito. Em meados do séc. XIX, António Feliciano de Castilho, opondo-se ao ensino mútuo e aos métodos de repetição e soletração ritmada, propõe a adopção do Método Português de Castilho, baseado numa cartilha, que chega a ser introduzido numa aula de ensaio da Escola Normal de Lisboa. Contudo a falta de apoio dita-lhe o insucesso, pelo que subsiste apenas durante duas décadas.Em 1876, João de Deus apresenta a sua Cartilha Maternal a uma classe de professores já preparada, por Castilho, para aceitar alterações no ensino a nível metodológico. Esta aceita rapidamente o novo método e no ano seguinte este começa a difundir-se pelo país. Mesmo entre os intelectuais portugueses, nomeadamente Alexandre Herculano ou Adolfo Coelho, a obra seria bem recebida. Para este último a Cartilha Maternal “é o maior serviço que em Portugal se fez à infância, até hoje”.  Em 1882, o Parlamento decreta o uso da Cartilha Maternal nas escolas portuguesas o que se mantém até 1903, quando passa a ser facultativo. Mesmo assim, com o alargamento, na sequência da Primeira República, da rede pública de Escolas Primárias, o método mantém-se activo entre a comunidade educativa da época. O Método de João de Deus, para além do contributo oficial do Parlamento, conheceu uma difusão acelerada pelo país com a criação, em 1882, da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, a qual pretendia levá-lo a todo o lado. As Escolas Móveis evoluíram para Jardins-Escola e Escolas Fixas que ainda existem actualmente, com a designação de Associação de Jardins-Escola João de Deus, onde ainda se ensina e aprende por este método. Trata-se de uma Instituição Particular de Solidariedade Social, que também incorpora a Escola Superior de Educação João de Deus e o Museu João de Deus.Reconhecendo a importância e o prestígio nacionais alcançados pela sua obra, é atribuída a João de Deus a nomeação vitalícia de Comissário Geral da Leitura (para esse modo de ensinar), com uma pensão anual de 900$000 réis. O escritor e pedagogo seria homenageado, por ocasião do seu 65º aniversário, a nível nacional, obtendo uma consagração pública nunca vista em Portugal para um homem de Letras. Um gesto invulgar revela a sua importância: o rei D. Carlos foi à sua residência e condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada.A Cartilha Maternal é uma das obras que mais vezes foi reimpressa no nosso país e inspirou uma enorme variedade de métodos semelhantes. Continua a ser editada e, tal como referido, utilizada nos Jardins-Escola João de Deus. 
Reuniram-se algumas dezenas de cidadãos e fundaram a Associação de Escolas Móveis, com o fim de ensinar a ler, escrever e contar pelo método de admirável rapidez, do Sr. Dr. João de Deus, aos indivíduos que o solicitarem, até onde permitam os seus meios económicos, enviando nesse intuito às diversas povoações da nação portuguesa professores devidamente habilitados – não se envolvendo em assuntos políticos, nem quaisquer outros alheios ao seu fim.Palavras de Casimiro Freire, proferidas em 1882, conhecido pedagogo e filantropo e um dos maiores impulsionadores do método de ensino de leitura de João de Deus.