Coimbra e a inspiração da escrita em Eça de Queirós (III)


A Universidade de Coimbra conheceu, na segunda metade do século XIX, uma renovação de ideias no seio da Academia, mas também no pensamento político e cultural. A geração de que Eça de Queirós fez parte, ficou célebre pela sua inquietude e irreverência mental, como o atesta a Geração de 70. Este fervilhar de novas ideias era favorecido pela abertura de comunicação que os caminhos de ferro vieram proporcionar. Pela primeira vez existia uma ligação direta e cómoda para a França, abrindo assim caminho à influência que surgia de Paris, a cidade que ditava as novas ideias.No livro “Notas Contemporâneas”, Eça deixa-nos um precioso retrato do ambiente que se vivia em Coimbra:“Coimbra vivia então numa grande actividade, ou antes, num grande tumulto mental. Pelos caminhos de ferro que tinham aberto a Península, rompiam cada dia, descendo da França e da Alemanha (através da França), torrentes de coisas novas, ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários… Cada manhã trazia a sua revelação, como um sol que fosse novo. Era Michelet que surgia, e Hegel, e Vico, e Proudhon; e Hugo, tornado profeta e justiceiro de reis; e Balzac, com o seu mundo perverso e lânguido; e Goethe, vasto como o Universo; e Poe, e Heine, e creio que já Darwin, e quantos outros!(…)Nesse mundo novo que o Norte nos arremessava aos pacotes, fazíamos por vezes achados bem singulares: e ainda recordo o meu deslumbramento quando descobri esta imensa novidade – a BÍBLIA! Mas a nossa descoberta foi a Humanidade. Coimbra de repente teve a visão e a consciência adorável da Humanidade”(…)E em cada estrela plantávamos uma tenda, onde dormíamos e sonhávamos um instante, para ligo a erguer, galopar para outra clara estrela, porque éramos verdadeiramente, por natureza, ciganos do ideal. Mas o ideal nunca o dispensávamos, e nem as sardinhas assadas das Tias Camelas nos saberiam bem se não lhe juntássemos, como um sal divino, migalhas de metafísica e de estética. A pândega era mesmo idealista. Ao segundo ou terceiro decilitro de carrascão rompiam os versos. O ar de Coimbra, de noite, estava todo fremente de versos. Por entre os ramos dos choupos, mal se via com a névoa das nossas quimeras… Outra das ocupações espirituais a que nos entregávamos, era interpelar Deus. Não O deixávamos sossegar no seu adormecido infinito. Às horas mais inconvenientes, às três, quatro da madrugada, sobre a Ponte Velha, no Penedo da Saudade, berrávamos por Ele, só pelo prazer transcendente de atirar um pouco do nosso ser para as alturas, quando não fosse senão em berros.”Um dos reitores da universidade, nos tempos de estudante de Eça, foi o contestado Basílio Alberto de Sousa Pinto. Eça participou na primeira das revoluções estudantis, que marcaram essa geração, contra o tradicionalismo e o autoritarismo do reitor Basílio Alberto de Sousa Pinto. Em 1862, na Sala dos Capelos, estudantes membros da secreta “Sociedade do Raio” protestaram de pé e braços dados, na primeira fila, logo que o reitor iniciou o discurso da praxe. A seguir, abandonaram o local e arrastaram com eles todos os colegas, deixando a cerimónia quase deserta. Nessa ocasião, Eça subscreve o «Manifesto dos Estudantes da Universidade de Coimbra à Opinião Ilustrada do País», redigido por Antero de Quental, contra o reitor que viria a resignar passado um ano.Este ambiente foi também por ele retratado nos “Bilhetes de Paris:“Em Coimbra eu assisti aos delírios mais variados – e de todos partilhei. Fizemos três revoluções; derrubámos reitores excelentes, só pelo prazer de derrubar e exercer a força demagógica; proclamávamos uma manhã a libertação da Polónia, mandando um cartel de desafio ao czar; penetrávamos, em comissão, num cemitério para intimar a Morte a que nos revelasse o seu segredo; destruímos, uma noite, através da cidade, todos os mastros e arcos de buxo e olhos de bandeiras e obeliscos de lona, erguidos para celebrar não sei que glória nacional, porque eles contrariavam as leis da nossa estética; abandonámos a Universidade, num clamoroso êxodo, para ir fundar, nos arredores do Porto uma civilização mais ou menos em harmonia com o nosso horror aos compêndios; atacámos e dispersámos procissões por as não considerar suficientemente espiritualistas; organizámos uma associação secreta para renovar a guerra dos Titãs e destronar Jeová… fomos medonhos – e quase todos os anos nos batemos com as tropas que o Governo mandava para nos manter dentro da decência e do raciocínio. Na realidade (com a excepção de estudar) tudo fizemos.”