OS LIVROS NO CAMINHO DO HOMEM

Coimbra e a inspiração da escrita em Eça de Queirós (II)Em Coimbra, Eça de Queirós viveu em duas casas, na Alta, que hoje estão identificadas com placas que o assinalam. A primeira situa-se na Rua do Loureiro, nº 12, na época uma casa que recebia estudantes de um estrato social mais elevado e que pertencia aos Dórias uma das famílias conimbricenses mais conhecidas de então. No terceiro ano da universidade mudou-se para outra casa, na Rua do Salvador, nº 16.De ambas as habitações nos chegaram descrições. Da primeira existe um registo de António Cabral, no livro “Eça de Queirós”:“Em Coimbra, na casa do Dr. José Dória – contou-mo uma pessoa da família deste, o Dr. Pedro Dória Nazareth -, tinha no seu quarto de estudante uma cómoda em que certo dia se ouviu áspero estalido da madeira.- São bruxas!... – disse-lhe a brincar, um companheiro de casa.Tanto bastou para que Eça nunca mais abrisse as gavetas do móvel, dando-a, pouco depois, a outro estudante”Da segunda casa fala-nos o próprio Eça no livro “Prosas Bárbaras”:“O meu quarto, no Salvador era mais austero. Na parede, havia pintada a carvão uma grande cruz. Em redor estavam escritos versículos da Bíblia e dísticos da Imitação. Mas, como eu andasse nesse tempo constipado, P., um pagão, fez rapar toda aquela decoração estética, dizendo que o misticismo, proibindo o sol, o calor, os banhos tépidos, as flanelas, todos os cuidados corporais, me era nocivo e o ateísmo era para mim uma necessidade higiénica. T. aconselhou, então, que se forrassem as paredes com pele humana, e disse, beatificamente, que, como mais modesta e mais duradoura, lhe parecia preferível a pele catedrática. Outro instou para que se forrasse o quarto com as folhas dos compêndios; eu opus-me asperamente a isso, dando as mesmas dolorosas razões que daria um preso, se lhe quisessem forrar as paredes da enxovia com um tecido feito dos seus próprios remorsos! Tirou-se à sorte. Destinou a sorte que se forrassem as paredes com pele de gente. Dispersámo-nos, lentos e tristes, para ir assassinar gente!Reunia-se ali um concílio formidável.O mais implacável era A. Que ideias e que camisas!Foi ele que um dia, na aula de Direito Canónico, profetizou, com gestos trágicos, a destruição de Babilónia! Vinha também S., todo armado; entrava ordinariamente pela janela, galhardamente, como Alma viva, estendia sobre os tímidos a grande sombra protectora dos seus bigodes, e pela noite alta saía à caça de lobos. Perseguia debalde um bando de lobos errantes, que, segundo ele, deviam ter acampado na humidade melodiosa do Salgueiral. Vinha também M., de sinistras ironias: um dia, no Buçaco, encontra um homem de suíças apostólicas, corre para ele, e aperta-o entre as mãos robustas, com o gesto de quem esmaga um insecto.- O que faz? – bradava o homem. – Estou a catá-lo; o senhor, entre esta floresta, faz-me o efeito duma pulga entre as barbas de Moisés!E continuou a esmagá-lo!”
Sem dúvida que um dos estudantes contemporâneos que mais marcou Eça foi Antero de Quental. Antero, uma das mais prestigiadas figuras políticas e literárias do século XIX português, estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde foi uma referência como líder estudantil. Como natural agitador político, liderou a Geração de 70, bastante interventiva na renovação da vida política e cultural portuguesa. Foi muito popular no meio académico, e um dos principais envolvidos na Questão Coimbrã, lançando ataques a António Feliciano de Castilho. Eça de Queirós descreve o momento em que conheceu Antero, no livro “Notas Contemporâneas”:“Em Coimbra, uma noite, noite macia de Abril ou Maio, atravessando lentamente com as minhas sebentas na algibeira o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas pela Lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem de pé, que improvisava.A sua face, a grenha densa e loura com lampejos fulvos, a barba dum ruivo mais escuro, frisada e aguda à maneira siríaca, reluziam, aureoladas. O braço inspirado mergulhava nas alturas como para as revolver. A capa, apenas presa por uma ponta, rojava para trás, largamente, negra nas lajes brancas, em pregas de imagem. E, sentados nos degraus da igreja, outros homens, embuçados, sombras imóveis sobre as cantarias claras, escutavam, em silêncio e enlevo, como discípulos.Parei, seduzido, com a impressão que não era aquele repentista picaresco ou amavioso, como os vates do antiquíssimo século XVIII- mas um bardo, um bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades. O homem, com efeito, cantava o Céu, o Infinito, os mundos que rolam carregados de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura, e… os transcendentes recantosAonde o bom Deus se mete,Sem fazer caso dos SantosA conversar com Garrett!Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou, por entre os lábios abetos de gosto e pasmo:- É o Antero!...”Então, perante este Céu onde os escravos eram mais gloriosamente acolhidos que os doutores, destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E para sempre assim me conservei na vida.”