OS LIVROS NO CAMINHO DO HOMEM

Coimbra e a inspiração da escrita em Eça de Queirós (I)De seu nome completo, José Maria Eça de Queiroz, nascido na Póvoa de Varzim, em 1845 e falecido em Paris, em 1900, é unanimemente considerado como o maior escritor realista português do século XIX. Foi autor, entre outros romances, de “O Mistério da Estrada de Sintra”, “O Crime do Padre Amaro”, “A Tragédia da Rua das Flores”, “O Primo Basílio”, “O Mandarim”, “A Relíquia”, “Os Maias”, “Uma Campanha Alegre” e “Correspondência de Fradique Mendes”.Filho de José Maria Teixeira de Queirós, juiz do Supremo Tribunal de Justiça, e de sua mulher, D. Carolina de Eça, frequentou alguns colégios do Porto, matriculando-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com apenas dezasseis anos de idade. Completou a formatura, em Direito, em 1866.Em Coimbra foi amigo de Antero de Quental, com quem participava em sessões literárias controversas, nas quais também entravam Ramalho Ortigão e Oliveira Martins, que, mais tarde, se tornaram em figuras ilustres das Letras em Portugal.No ano de 1861, Eça de Queirós chegou a Coimbra para fazer os exames de admissão à universidade. É o próprio que descreve a sua chegada à cidade em “O Francesismo in Últimas Páginas. Obras de Eça de Queirós”:“Quando cheguei na diligência a Coimbra, para fazer o exame de Lógica, Retórica e Francês, o presidente da mesa, professor do Liceu, velho amável e miudinho, de batina muito asseada, perguntou logo às pessoas carinhosas que se interessavam por mim:- Sabe ele o seu Francês?E quando lhe foi garantido que eu recitava Racine tão bem como o velho Talma, o excelente velho atirou as mãos ao ar, num imenso alívio:- Então está tudo óptimo! Temos homem!E foi tudo tão óptimo, recitei o meu Racine, tão nobremente como se Luís XIV fosse lente, apanhei o meu nemine, e à tarde, uma tarde quente de Agosto, comi com delícia a minha travessa de arroz doce na estalagem do Paço de Conde.”Após a aprovação nos exames, matriculou-se na Universidade de Coimbra, contando apenas dezasseis anos de idade, indo ao encontro da vontade do pai, antigo estudante em Coimbra e que havia sido juiz instrutor do processo de Camilo Castelo Branco, de quem Eça de Queirós viria a ser, mais tarde, amigo, por partilharem o mesmo interesse pela escrita e pela poesia.Eis como Eça descreve a sua Coimbra no livro “O Primo Basílio”:“Reclinada molemente na sua verdejante colina, como odalisca em seus aposentos, está a sábia Coimbra, a Lusa Atenas. Beija-lhe os pés, segredando-lhe de amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam uns melancólicos trilos. Quando vos apresentais pela estrada de Lisboa, vede-la branquejando, coroada do imponente edifício da Universidade, asilo da Sabedoria. Lá campeia a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade estudiosa chama a cabra. Para além logo uma copada de árvore vos atrai as vistas; é a celebrada árvore dos Dórias, que dilata seus seculares ramos no jardim de um dos membros desta respeitável família.”Enquanto estudante universitário, Eça, cedo manifestou interesse pela literatura, travando amizade com muitos outros académicos que partilhavam o mesmo interesse. No ideal ambiente boémio da “Lusa Atenas” reuniam-se para trocar ideias, livros e modos de dar nova vida à política e cultura portuguesas, influenciados pelas novidades que surgiam do centro da Europa e que influenciavam esta geração para novas ideologias e valores. Foi nesta ocasião que Eça conheceu alguns dos futuros escritores e poetas, como Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Guilherme de Azevedo, Oliveira Martins, entre outros. Mas, particularmente, travou amizade com Antero de Quental, um estudante carismático a quem os membros do grupo chamavam de líder e que incentivou os restantes a seguir e a difundir as então recentes correntes ideológicas e literárias europeias: o Positivismo, o Socialismo e o Realismo-Naturalismo.O grupo, viria, mais tarde, a ser denominado “Geração de 70”, acabando por deixar um marco profundo na história da literatura portuguesa.Embora enquanto estudante em Coimbra não tenha produzido muita escrita, a cidade vai revelar-se fundamental para a sua obra. De facto, enquanto académico, foi o autor da tradução da peça Philidor, de Joseph Bouchardy e escreveu as «Notas Marginais» e «Sinfonia de Abertura», na Gazeta de Portugal. Foi, aliás, incitado por Antero de Quental, que Eça passou a escrever folhetins dominicais para o jornal ‘Gazeta de Portugal’ e que constituem os seus primeiros trabalhos escritos, mais tarde publicados num volume intitulado ‘Prosas Bárbaras’. O gosto pela escrita não mais o abandonaria pois seria colaborador em vários jornais e escreveria, esporadicamente, folhetins, crónicas e contos, durante toda a sua vida, para além da escrita dos livros que conhecemos.