O Príncipe, de Maquiavel


Nicolau Bernardo Maquiavel, notável escritor e político italiano do Renascimento, nasceu em Florença em 1469 e morreu na mesma cidade em 1527. Considerado um dos pensadores mais representativos do Renascimento italiano, foi nomeado secretário do governo do novo regime republicano, implantado em 1494, cargo que o levou a frequentar várias embaixadas na Europa. Contudo, com o regresso dos Médicis ao poder, deixou de representar este cargo, foi preso e submetido a torturas.Foi na prisão que começou a escrever. Graças ao talento literário e político demonstrado nos textos despertou interesse dos seus poderosos adversários, os Médicis. Por esta altura o próprio papa convidou-o a escrever a história da cidade de Florença, que foi publicada em oito volumes no ano de 1531. Maquiavel recebeu a educação humanística, então em voga, não sendo, no entanto, aquilo que se designava por erudito já que não aprendeu grego. O que mais caracteriza a sua atitude de pensador é a grande experiência de vida, embora estivesse familiarizado com os autores da Antiguidade Clássica. Na sua vida há um notável acontecimento a assinalar: no ano de 1502 o contacto com César Bórgia permitiu-lhe observar e estudar os métodos de ação do famoso condottiere e aventureiro político, tendo assistido ao desenrolar de toda a célebre questão em que o duque se desfaz dos seus inimigos políticos do modo cruel e sanguinário, o que ficou na história. Por outro lado, assistiu, em Roma, à subida ao sólio pontifício do papa Júlio II, o pontífice guerreiro, o que também influenciou as suas reflexões e estudos.  Maquiavel também teve um papel na defesa militar de Florença, já que se ocupou da organização militar da cidade, pensando e planeando a criação de um exército nacional, para obviar aos inconvenientes de uso de forças mercenárias. Acabou por conseguir a aprovação do seu plano. Mas, no início do século XVI, a literatura continua ativa na sua vida. Em 1504 inicia a escrita dos Decennali e da comédia Marchere inspirada em Aristófanes, mas que não chegou até nós. Alguns anos depois publica Raporto delle cose dell’ Alemagna e Ritrati delle cose di Francia que nos dão uma ideia clara do seu poder e das qualidades de observador político e de historiador.Após alguns episódios políticos e sociais, não favoráveis a Maquiavel, este retira-se para uma pequena propriedade que possuía perto de San Casciano. É aqui que, com maior sossego e tranquilidade de espírito se pode dedicar à escrita da sua obra-prima, O Príncipe, mas também aquela que é, talvez, a mais sólida das suas obras: Discorsi sopra la prima Decada de Tito Livio. São estas as duas obras mais representativas do seu génio político e as mais estudadas e discutidas no meio académico e intelectual. Ambas são notáveis pela justeza e sagacidade da observação, pelo estilo corrente e claro e por revelarem um pensamento forte e original.O Príncipe é dedicado a Lourenço de Médicis e é uma das obras mais discutidas desde que foi publicada há quinhentos anos. Embora não seja a que mais esclarece os verdadeiros propósitos de Maquiavel e a sua posição doutrinária, é a mais conhecida e divulgada e a que mais tem servido de base ao estudo do seu pensamento político e social. É um produto das observações da sua época, marcada pela agitação e violência, e dá-nos um magnífico quadro dos costumes políticos, dos quais, após comparação com a Antiguidade, o autor procura tirar exemplos para a atuação política do estado. Alguns autores consideram a obra como resultado de um cínico, que defende a arbitrariedade, a violência e a injustiça como aceitáveis métodos de atuação política. Outros vêm o livro como um processo de crítica, como tinha de se usar no seu tempo, à atuação política dos tiranos contemporâneos. Deste modo, Maquiavel seria ou um defensor da tirania e do crime ou um verdadeiro democrata, do modo clássico, como o eram os cidadãos do antigo Império Romano. O autor merece ainda uma referência à sua História de Florença, considerada como a primeira tentativa na literatura italiana de narrar as vicissitudes da vida de um povo, procurando sempre tirar delas os ensinamentos para o futuro. É considerada uma das referências da historiografia moderna. Foi também ele que escreveu A Mandrágora, uma das obras-primas do teatro italiano.As suas obras têm numerosas edições em várias línguas e continuam a ser objeto de estudo por especialistas.  Maquiavel veio dar origem ao termo “maquiavélico”, resultante da sua descrição de um sistema político que assentava na astúcia, perfídia, deslealdade e falsidade nos negócios públicos ou particulares.