Histórias que a Vida Conta


Nesta minha última crónica antes de férias, resolvi não abordar matérias tristes ou deprimentes. Foi por isso que pus de lado temas de actualidade, como, a nível interno, o colapso do império económico-financeiro do Grupo Espírito Santo ou as intermináveis lutas pelo poder dentro do Partido Socialista e, a nível internacional, o sangrento conflito israelo-palestiniano ou a inominável tragédia da queda do avião das linhas malaias, abatido por um míssil terra-ar, na zona leste da Ucrânia, sob o domínio dos rebeldes pró-russos, que provocou a morte de quase trezentos inocentes. Até por razões egoístas, recuso-me a contribuir, com o tratamento de qualquer destas matérias, para o estado de angústia colectiva em que estamos mergulhados.
Resolvi, em vez disso, escolher um tema mais adequado ao período de férias que estamos a viver: a importância dos hobbies, palavra inglesa que podemos traduzir razoavelmente dizendo que se trata de “passatempos recreativos para ocupação dos tempos livres”. Um hobby é uma actividade escolhida por quem a pratica, capaz de causar interesse ou até entusiasmo, e que é normalmente exercida para dar prazer ou gerar descontracção. É tipicamente uma ocupação para os tempos de lazer.
Os hobbies podem coexistir com o desempenho de actividades profissionais, mais ou menos absorventes, sendo mesmo um escape salutar para o stress acumulado por parte dos “obcecados ou viciados pelo trabalho” (os workaholic); mas podem constituir também uma terapêutica de inestimável valor para a elevação da auto-estima por parte de doentes, idosos, reformados ou, até, desempregados. Sendo o trabalho uma fonte de equilíbrio físico e psicológico, sê-lo-á por maioria de razão se corresponder a uma escolha pessoal ou a uma especial apetência de quem o pratica, uma vez que, nesse caso, o exerce com particular alegria, sentindo-se realizado no plano físico, cultural ou espiritual ou encontrando no seu desempenho um desafio encorajante. É esta uma das maiores virtualidades dos hobbies.
É certo que “ter hobbies” pode ser um luxo. Quem labuta diariamente oito ou dez horas para angariar o sustento, não terá normalmente tempo nem reservas para poder dedicar-se a outras actividades, ainda que lúdicas e atractivas. O mesmo se dirá, até por falta de disposição anímica para tal, relativamente aos que despendem o seu tempo e energias na busca de um emprego. Mas ainda assim vale a pena – pelo menos para quem o pode fazer – cultivar um (ou mais) hobbies.
E não se trata, como se verá pelos exemplos que se seguem, de actividades necessariamente onerosas ou destinadas a uma elite de privilegiados. É evidente que há hobbies que não estão ao alcance uma qualquer bolsa. Basta pensar na prática da vela e do hipismo ou, até, do ténis, da fotografia, da pintura ou do teatro. Mas outros são populares e estão socialmente tão generalizados que constituem ocupação corrente de muitos cidadãos, mormente dos idosos. Pense-se em alguns jogos de mesa como é o caso dos jogos de cartas (as tão estimadas e estimáveis “paciências”), do dominó, das damas, até, do xadrez e, para os mais válidos e ginasticados, do ping-pong, do bilhar ou do snooker... E em jogos de exterior, tão frequentes nos nossos parques ou terreiros, como é o caso do lançamento da malha ou da “pétanque” e dos desafios de futebol. Ou em entretenimentos simples como as palavras cruzadas, as “sopas de letras”, o viciante sudoku, a montagem de puzzles, a tertúlia de amigos ou o simples convívio a certas horas no café do bairro. Outros dependem da vontade (e, reconheça-se, também, do tempo e da energia disponíveis): os passeios (e porque não na companhia de um cão?), as caminhadas, o jogging, a caça, a natação, a música, a própria leitura, que pode ir do jornal desportivo diário, ao semanário regional, dos romances policiais às obras dos clássicos ou dos best sellers do momento. E não se esqueça o desafio da escrita!
É que os hobbies são passatempos saudáveis, actividades físicas e desportivas, culturais ou artísticas, ou simplesmente ocupações manuais (marcenaria, restauro de móveis, relojoaria, mecânica, jardinagem, cozinha, tricot e bordados e tantos, tantos outros). E têm a vantagem de serem escolhidos por cada um de nós, ou seja, por quantos os pratiquem ou queiram praticar.
Uma palavra ainda para um hobby muito particular e entusiasmante – o coleccionismo -, que pode incidir sobre os mais variados objectos, a começar nos próprios livros, a matéria do mundo mágico dos bibliófilos. E, a propósito do coleccionismo, lembrei-me de um Homem admirável, que representa para mim o paradigma do coleccionador. Tem já mais de noventa anos. Seco de carnes, naturalmente amável e compreensivo, amigo da Vida e dos Seus, penso sinceramente que ninguém lhe quer mal...
Foi “menino da Luz”, tendo aprendido no Colégio Militar princípios de disciplina e de organização que o auxiliaram no exercício competente do seu hobby. Foi também um excelente nadador e, já com cinquenta anos, ainda fazia inveja aos mais novos, arrancando, com o seu físico bem ginasticado, “pinos” impecáveis na areia molhada da Costa da Caparica.
Formou-se em Engenharia Civil, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e trabalhou na sua profissão, até se aposentar. Beirão dos quatro costados, natural de Castelo Bom, uma bela aldeia do concelho de Almeida, veio residir para Lisboa, onde casou e ainda vive, continuando a passar temporadas frequentes e, por vezes, longas, na sua terra natal. Herdou do Pai, um militar inteligente, culto e com muito sentido de humor, o gosto do coleccionismo. Lembro-me bem das suas colecções de selos e, especialmente, da colecção de moedas, a menina dos seus olhos, que, com desvelo, soube valorizar ao longo dos anos, aprofundando os seus conhecimentos em numismática.
É o meu querido Tio Augusto, para quem, se me ler, vai o meu apertado abraço de amigo e indefectível admirador.
Deixei para o fim uma ocupação que há quem julgue caber no conceito amplo de hobby, e que assume, particularmente nos dias difíceis que vivemos, a maior relevância social: ser Avô ou Avó. Trata-se de uma actividade particularmente gratificante, apesar de muito exigente. No entanto, há que saber acompanhar os netos sem fazer disso uma obsessão que leve os avós a prescindir da sua própria autonomia, abandonando outras actividades ou companhias a que têm direito por idade, estatuto e gosto. Além disso, há que não esquecer – e até enfatizar – o papel imprescindível dos Pais. Felizes, porém, as crianças que podem contar com o permanente carinho e acompanhamento dos Avós. E felizes estes, por terem a dita de poderem ajudar a crescer os filhos dos seus filhos!