Os ‘’fascismos” do pós-guerra

No período após a Primeira Guerra Mundial, surgiram alguns movimentos de carácter bastante autoritário pela Europa, e posteriormente no mundo.Primeiramente, importa referir que o termo fascismo nasceu em Itália com o partido fascista de Mussolini, que tinha um conjunto de características próprias da experiência italiana. Fascismo vem de fáscia, usada na República romana por certo tipo de magistrados. Para além deste, podemos apontar outros três modelos: o nacional socialismo alemão, o franquismo espanhol e o salazarismo em Portugal. Se analisarmos os quatro modelos, verificamos que há mais diferenças que semelhanças, mas as parecenças são muito mais fortes e estruturantes.O fascismo tinha fortes possibilidades de triunfar em Estados onde os mecanismos dirigentes funcionassem mal, onde o povo se encontrasse descontente, onde houvesse um orgulho patriótico ferido - caso da Alemanha - ou onde existisse ameaça bolchevique. Assim, enquanto o nacionalismo alemão ganhou adeptos depois da humilhação do Tratado de Versalhes, Itália via sobretudo os seus veteranos de guerra terem as suas recompensas prometidas rejeitadas. Assim, o nacionalismo surge como um dos primeiros motores destes novos estados totalitaristas.Para além disso, o fascismo teve também campo fértil devido ao ‘’colapso dos velhos regimes, e com eles das velhas classes dominantes e seu maquinário de poder, influência e hegemonia” (Eric Hobsbwam, A Era dos Extremos). Enquanto na Itália o fascismo ascendeu como consequência da Primeira Guerra Mundial, na Alemanha o nazismo subiu fruto da Grande Depressão. Por si só, a Itália não tinha tido capacidade de contagiar os restantes países desta nova ideologia. Foi a Alemanha nazi que conseguiu fazer com que o fascismo triunfasse na Europa, expandindo-se depois para outros países, como por exemplo o Japão, que adquiriu uma rigidez semelhante à dos alemães.Importa perceber formas comuns e partilhadas pelos diferentes regimes. Os fascismos eram anti-intelectualistas, isto porque os intelectuais pensavam como pessoas, mas estes faziam com que o conhecimento se tornasse coletivo, levando à reflexão dos restantes. Para travar este tipo de partilha de conhecimento, o fascismo recorria à censura. Para além disso, utilizavam os meios de divulgação, como a rádio, o cinema, como instrumentos de afirmação dos ideais na sociedade. A rádio, por exemplo, foi fundamental para Hitler, pois era aí que os seus discursos eram transmitidos e influenciavam as massas.Negava também o individualismo, pois ‘’o indivíduo não tem direitos próprios, só tem aqueles que a coletividade entende por bem recolher-lhe” (René Remond, Introdução à História do Nosso Tempo), estando assim subordinado ao Estado. A luta de classes era veemente rejeitada, uma vez que tal levava à degradação da sociedade, uma vez que as classes sociais não deveriam ser motivo de divisão, cooperando entre si para o bem comum.O nacionalismo era também um sentimento bastante vincado nos diferentes ‘’fascismos”. Este havia nascido no século XIX, e caracterizou-se pelo reconhecimento da capacidade agregadora da nação, que levava ao Homem Novo e à expansão internacional. O conceito de raça era bastante apreciado e bastante utilizado, significando a identificação de um grupo com as mesmas características. Na Alemanha, apresentava-se sob a forma de raça ariana. Em Portugal, o 10 de Junho marcava o dia da raça. Para expandir a dita raça, os ‘’fascismos”, sobretudo o alemão e italiano, desejaram a expansão territorial, colocando inclusive a economia ao serviço de tal. Assim, a guerra era ‘’uma necessidade doutrinal, passional, sentimental e, finalmente, de política interna” (René Remond, Introdução à História do Nosso Tempo). Deste modo, o fascismo trabalhou de forma eficiente ‘’na dinamização e modernização de economias industriais” (Eric Hobsbwam, A Era dos Extremos).Para além disso, o fascismo rejeitava a democracia parlamentar e o próprio liberalismo, acusando-os inclusive de serem os culpados das suas derrotas, considerando-as ‘’incapaz de defender os direitos e os interesses do país” (René Remond, Introdução à História do Nosso Tempo).Em relação a isto, importa ainda referir que o fascismo se alicerçou sobretudo nas classes média e média baixa. Esta ideologia chegou a colher grande quantidade de estudantes universitários, bem como ex-oficiais da Primeira Guerra Mundial e funcionários públicos que se sentiam ameaçados devido à crise que afetava o mundo.Posto isto, importa referir que apesar das semelhanças anteriormente referidas, estes regimes tiveram também diferenças, daí não se poder atribuir a terminologia de fascismo a todos os diferentes regimes. Em Portugal, por exemplo, o mais parecido ao movimento fascista foram os Camisas Azuis, de Rolão Preto, o chefe do partido. O movimento era de tal forma radical que foi derrotado pelo salazarismo, mais adaptado a uma sociedade rural, com ética católica, ao contrário da realidade alemã, protestante e com uma dimensão industrial bastante evoluída. Nos anos 60 e 70, Portugal era um país maioritariamente rural, ao contrário da Alemanha nazi. Hitler não teria tido o poder que conseguiu se não tivesse por trás de si uma potência industrial capaz de financiar a guerra. Em termos de vida, por exemplo, hoje Portugal e Espanha têm muito mais semelhanças do que nos anos 30 e 40, apesar de nessa altura os regimes serem semelhantes.Na América do Norte, o fascismo não teve grande influência, reduzindo-se a pequenos grupos defensores dessa ideologia. No sentido oposto, na América Latina, teve uma maior influência, infiltrando-se nos governos de países como o Brasil, a Colômbia ou a Argentina. Estes países viam no fascismo europeu uma forma de sucesso económico e social, que as democracias não lhes garantiam. Na Europa, seriam os países com ‘’instituições políticas adequadamente democráticas que funcionaram sem interrupção durante todo o período entre guerras” (Eric, Hobsbwam, A Era dos Extremos) a não adotar tipos de ideologia totalitarista. Esses países seriam a Grã-Bretanha, a Finlândia, o Estado Livre Irlandês, a Suécia e a Suíça.Assim, através dos vários mecanismos acima abordados, os ‘’fascismos” foram entrando em vários países, sobretudo naqueles onde existiam ‘’tradições intelectuais e políticas mais antigas” (René Remond, Introdução à História do nosso tempo). Os países que não foram tocados pelos ideais da Revolução Francesa de 1789 tinham ficado mais expostos, ao contrário de outros como os EUA, a França ou a Grã-Bretanha, que não sofreram com o aparecimento de ‘’movimento fascistas de massa importantes” (Eric Hobsbwam, A Era dos Extremos)Concluindo, apesar de o fascismo ter surgido em Itália, outros regimes com características semelhantes foram também surgindo, como são os casos do nazismo, franquismo e salazarismo. Deste modo, podem-se apelidar a este conjunto de Estados de ‘’fascismos”, ainda que cada um adaptado à realidade do seu país. Essas mesmas ideias têm vindo a surgir recentemente, e demonstram a extrema importância do estudo da História nos dias de hoje.