Nobel da Literatura 2020Em outubro, nunca falham nem as castanhas nem os Prémios Nobel.

No caso da Literatura, alguns anos falham. Este ano não e foi com uma certa surpresa, mesmo nos meios literários, que o galardão foi atribuído a Louise Glück, poeta norte-americana de 77 anos. O anúncio foi feito esta quinta-feira, dia 8 de outubro.A laureada, que por sua vez também ficou surpreendida com a distinção, tem uma longa carreira poética e, segundo o porta-voz da Academia, a distinção deve-se à “voz poética inconfundível que, com beleza austera, torna a existência individual universal”. Quase inédita no nosso país, (está apenas representada na coletânea “Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro”, da Assírio e Alvim, com o poema “O Poder de Circe”), é considerada uma das melhores vozes poéticas femininas dos Estados Unidos. Louise Elizabeth Glück, professora na Universidade de Yale, nasceu em 1943 em Nova Iorque. É uma das mais galardoadas autoras americanas, tendo ganhado já o  Prémio Pulitzer, o National Book Award, entre outros. É autora de catorze coleções de poesia e duas coleções de ensaios. A sua poesia, segundo alguns críticos, é conhecida pela sua técnica literária e sensibilidade com obras sobre a solidão, as relações familiares, o divórcio e a morte.  Por isso se diz que a sua poesia é uma poesia de desolação e do milagre.      Um dos seus editores (Carcanet), disse que “ela não é, de forma alguma, uma voz que siga qualquer causa – ela é um ser humano comprometido com a língua e com o mundo. Ela não é uma pessoa que nos tenta persuadir sobre nada, mas ajuda-nos a explorar o mundo em que vivemos. Os seus poemas são realmente sobre o ser humano individual, vivo no nosso mundo e na sua língua.” Um dos membros da Academia sueca afirmou que ela não faz uma poesia confessional, mas alguém que aspira ao universal. No entanto, o seu trabalho é conhecido pela sua intensidade emocional, recorrendo ao mito, à história e à natureza como instrumentos para analisar a existência e a vida moderna, assim como a vida familiar. A sua poesia é cândida, inteligente, de composição refinada, mas que procura ser entendida. “Louise Glück procura o universal, e nesta procura inspira-se em mitos e motivos clássicos. As vozes de Dido, Perséfone e Eurídice – as abandonadas, as punidas, as traídas – funcionam como máscaras para um ‘eu’ em transformação, tão pessoal quanto universalmente válido.”     Louise Glück é a 16.ª mulher a vencer o Prémio Nobel e é a 30.ª laureada que escreve em língua inglesa, a mais representada nos Prémios Nobel da Literatura. Até hoje, apenas um vencedor escrevia em português: José Saramago, nobelizado há 22 anos.     Enquanto por cá não se publica a sua poesia, para podermos avaliar o seu talento, fica um pequeno poema para apreciarmos.“O desejoRecordas-te de quando pediste um desejo?
Eu peço muitos desejos.
Quando te menti sobre o da borboleta. Sempre me pergunteiO que pediste.
O que achas que eu pedi?Não sei. Que voltaria,que no fim, de algum modo, estaríamos juntos.
Pedi o que sempre peço.Pedi outro poema.”