Todos o poderemos recordar: a noite da recente passagem de ano foi um tempo de excepção para um Inverno na Guarda e na Serra da Estrela.

O país libertou-se e saiu à rua. A julgar pelas imagens e relatos televisivos de todos os canais, parece que não houve cidade, vila ou aldeia, que não tivesse um recanto - rua, largo ou praça - devidamente preparado onde os cidadãos, ajuntados em euforia, pudessem dar largas ao festim da saudação de um novo ano. A Guarda não fugiu à regra.Mas gente houve que privilegiou outros locais. A casa, no aconchego da família, ou a natureza além, por exemplo. Foi o que aconteceu com alguns aventureiros que haviam programado subir à Serra da Estrela pensando passar na neve a noite de 31 de Dezembro de 2019 para 1 de Janeiro de 2020. E à Serra subiram. Mas, nessa noite, a neve não quis nada com a Estrela. Foi a Estrela que se abriu aos visitantes para outro espectáculo: um céu limpo e cravejado de estrelas.Foi breve a reportagem televisiva apresentada, mas deu para ver que, para alguns, a desilusão pela falta da neve foi bem compensada com a visão de um deslumbrante céu estrelado e do fogo-de-artifício que, na hora exacta daquela mágica passagem, emergia em volta de todos os pontos da terra. Seria um duplo espectáculo: olhar para o alto e ver as estrelas a partir da serra, e olhar para baixo e ver a terra a partir do alto. Disso deram testemunho, com manifesta satisfação, alguns daqueles turistas da Estrela que subiram à procura da neve, mas que neve não encontraram.É sobejamente conhecida a frase de Kant que consta no final da célebre obra “Crítica da Razão Prática”: «Duas coisas enchem o espírito de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim.» Já não será tão conhecida a “Crítica do Juízo”, do mesmo filósofo, onde deixou escrito: «O infinito esmaga-nos, mas o pensamento sobre o infinito eleva-nos.» Foram estas frases que então me trouxe a memória, bem encaixadas nas lembranças da infância quando, na aldeia, sem luz pública nem luar, o céu se pintava de negro e se enfeitava com infinitos pontos de luz que enfeitiçavam os meus olhos de criança, mesmo quando uma nuvem passageira, atrevida e majestosamente, se atravessava na minha visão da noite. Claro que só muito mais tarde, já na juventude, conheci os textos daquele filósofo prussiano nascido em Königsberg em 1724. Quando então os li pela primeira vez, eles constituíram uma recordação admirável das minhas contemplações infantis nas noites escuras da pequena aldeia da Beira onde nasci.Hoje, com a iluminação eléctrica por todo o lado, creio que as crianças da minha idade de então, os adolescentes e jovens, não terão a oportunidade que eu tive de cresceram a poder olhar assim o céu da noite escura e conversarem com as estrelas longínquas. Poderão estar informados de viagens de astronautas e mesmo possuírem alguma informação sobre a astrofísica; poderão também saber que os cientistas falam de milhares e milhares de milhões de galáxias, de formas e dimensões variadas, de milhares e milhares de milhões de estrelas em cada galáxia, sem contar com os planetas que rodeiam muitas delas, mas faltar-lhes-á a admiração e a veneração kantiana de as contemplar, sentir-se esmagado por esse infinito sideral, ver-se pequenino e deixar que o pensamento se eleve pela mão do infinito.Bem poderá ter sido esta a vivência daqueles turistas do cimo da Estrela: lá do alto olharam mais alto ainda para o reino das estrelas e do alto olharam também para baixo para o reino dos homens ocupados com o tempo a mudar dois dígitos no artifício de uma contagem. Descobri há dias esta belíssima quadra de Miguel de Unamuno: «Sob o manto das estrelas / Ouço o silêncio de Deus. / E esta brisa da noite / Quando passa diz-me: adeus!» Também estes quatro singelos versos me evocam as duas coordenadas do «voo do espírito»: subir às estrelas do céu para do alto olhar a terra e recentrar o mundo da vida. Somos astronautas do infinito. Olhar o alto para do alto se ver é uma necessidade vital para o Homem.Guarda, 22 de Janeiro de 2020