O vocabulário das nossas gentes foi-se modificando ao longo dos séculos.

Com o andar cadenciado do tempo e nas formas de viver foram-se encontrando outros termos para designar certas ideias ou até mesmo coisas concretas que fazem parte do nosso dia-a-dia. Estou aqui a falar do sistema métrico decimal, que entre nós foi instituído no ano de mil oitocentos e cinquenta e dois. É por demais evidente que desde da sua instituição até chegar ao conhecimento da população rural levou alguns anos, com a situação agravante de não haver ensino oficial nas aldeias do nosso Portugal profundo.Depois desta pequena introdução passo a descrever um episódio de que não é conhecido, pelo menos por mim, qualquer documento que o comprove. Só que chegou ao meu conhecimento por passar de boca em boca no seio familiar.A questão em causa teve lugar na segunda metade do século dezoito e que consistia na venda de determinada parcela de terreno, por parte da Administração Pública e que estava enquadrada nos baldios serranos entre as aldeias de Prados e de Videmonte.Nesse tempo a divisão territorial era entendida por paróquias, donde que passaria a pertencer à paróquia de onde era paroquiano que a viesse a adquirir.Para a sua venda em haste pública foi aprazado um certo domingo, sendo que no anterior os respectivos párocos fariam a divulgação do dito evento e que teria lugar em Prados.A divulgação na missa dominical não andaria muito do que vos passo a descrever:No próximo domingo e depois da missa vai-se proceder à arrematação no adro da Igreja paroquial de Prados a parcela de terra denominada “lameira dos matos” situada na serra da lomba cuja dimensão é de oito hectares de terra, reforçada ainda a mensagem com esta redundância.Esta circunstância mexeu muito com o povo de Prados, por ser mais pobre e ainda por uma questão de bairrismo, temiam o maior poder económico da gente de Videmonte.Aconteceu que nos dias que se seguiram ao domingo do anúncio, as pessoas da aldeia pediam por tudo ao vizinho mais abastado para que não deixasse fugir a lameira dos matos para Videmonte, pois estava em disputa o pão das gentes de Prados, que tinham um limite paroquial muito pequeno.Aqui aparece a frase – é que são oito “alguidares de terra” – onde a palavra alguidar, que mais não é do que uma corruptela do termo hectare, que por aquelas bandas apenas se tinha ouvido uma única vez e na voz do pároco. Há aqui também que conjugar o início da palavra com alqueire, que em tempos recuados, era uma superfície de quinze mil seiscentos e vinte cinco palmos quadrados.Já que vem a talhe de foice aparece aqui a moeda “tostão” que equivalia a cem reis da moeda que ao tempo circulava em Portugal e que mais tarde na transição para o escudo passou a ser a décima parte da moeda republicana.No domingo e na hora aprazados depois de cumpridas as formalidade, deu-se início à licitação.Logo se fez ouvir o lance por parte de Videmonte, ao qual o pradense convidado pelos seus conterrâneos cobria nos seguintes termos: - Mais um tostão!Os interessados de Videmonte continuaram os lançamentos, mas foram sempre abafados pelo mesmo cidadão de Prados e utilizando sempre a mesma margem, mais um tostão!Como tudo chega ao fim, o tostão acabou por ganhar. Os paroquianos de Videmonte retiraram-se, enquanto os de Prados alardeavam a sua alegria.Por seu lado o vencedor ostentava o seu poder negocial afirmando durante anos: - com um tostão fiz frente aos de Videmonte e fiquei com oito “alguidares” de terra.Digo-vos que a Lameira dos Matos sempre ficou na posse na mesma família e como não foi alienada já vai na quarta geração.  O seu actual proprietário que embora não residindo em Prados, quando lhe os seus conterrâneos lhe perguntam se tem ido a Prados ele dá com humor a resposta a resposta: - Poucas vezes, nem dá para cuidar de “oito alguidares” que lá tenho.Por aqui fico Espero voltar dia de São Simão e São Judas. Haja Saúde!