“Obrigado” – Uma palavra a redescobrir

Como é sabido, as Nações Unidas, para promover os seus objectivos, designam dias específicos para assinalar acontecimentos ou assuntos de relevante interesse para a vida da comunidade humana. Geralmente propostos por um ou mais estados membros, são depois estabelecidos através de resoluções da Assembleia Geral daquela Organização.Não foi esse o caso do Dia Internacional do Obrigado que se celebra no dia 11 de Janeiro de cada ano. Não sendo um dia de grande mediatismo - será mesmo desconhecido de muitos -, o Dia Internacional do Obrigado vai-se enraizando na comunidade através das redes sociais onde, aliás, teve origem. Contrasta em muito com o mundialmente conhecido Dia da Gratidão celebrado a 21 de Setembro, que terá tido origem num encontro internacional em 1965 realizado no Havai para celebrar e agradecer o bem que se vai desenvolvendo no mundo.O Dia Internacional do Obrigado, celebrando a gratidão, centra-se, no caso da língua portuguesa, numa forma específica de agradecimento: o «dever de retribuir» que é o que denota a palavra “obrigado”. Quem diz “obrigado”, não se limita a reconhecer o benefício recebido, que será já um primeiro nível de gratidão, nem a dar graças e louvar a bondade do seu autor, que será um segundo grau de gratidão e que é expresso na generalidade das línguas. A língua portuguesa vai mais além. Quem diz “obrigado” ou, no feminino, “obrigada”, entra num nível superior de gratidão: obriga-se a retribuir o benefício de acordo com as possibilidades e circunstâncias. Se estas não se proporcionarem, como acontecerá frequentemente, ficam também, no caso português, as expressões “bem haja” ou “Deus lhe pague”. Expressões bem belas que vão caindo, infelizmente, em desuso. Demos um passo mais. É usual ao “obrigado” corresponder com um “não tem de quê” ou “de nada” ou ainda “a nada” como já tenho ouvido. Se com as duas primeiras expressões pretende o autor da dádiva desvalorizar a sua acção, a terceira pretende desobrigar o beneficiário da obrigação de retribuir. É como quem diz “o que eu fiz não é nada e a nada está obrigado”. Quanto julgo saber, os internautas que vão difundindo nas redes sociais este Dia Internacional do Obrigado pretendem fazer desenvolver nas pessoas o sentimento de gratidão para com aqueles que lhes são relativamente próximos e de quem poderão receber benefícios mais facilmente reconhecíveis. Todavia talvez possamos alargar os horizontes e ir além desta proximidade imediata.A presente pandemia tem muitos efeitos na vida dos seres humanos, económicos, sociais, culturais e religiosos. Todos nós os sentimos e deles diariamente vamos ouvindo falar. Com ela redescobrimos também duas realidades que a chamada sociedade de bem-estar e de consumo tantas vezes tem escondido: a fragilidade Homem e a interdependência entre os seres humanos bem agudizada com a actual globalização em que a precariedade da vida humana se cruza com destinos entrelaçados. Numa situação destas uma simples intuição poderá alargar em muito o horizonte do nosso dever de gratidão. A interdependência e os destinos cruzados entre os humanos podem constituir-se também como encontros de recíproca gratidão pela qual os direitos – sempre apregoados – e os deveres – frequentemente esquecidos – poderão ganhar nova moldura para a fraternidade universal. Devemos um obrigado à vida e a todos quantos nos serviram e servem, desde aqueles que no início nos acolheram ao colo até ao mais humilde e simples trabalhador que agora diariamente recolhe o lixo das nossas ruas.Contrastando com o ano de incerteza, de sofrimento, de medo, e de morte, como foi o ano de 2020, tem-se apresentado 2021 como «o ano da esperança». “Esperança” foi claramente a palavra com que abriu o novo ano. Contra alguma desesperança de 2020, aí estão agora as «vacinas da esperança» a serem aplicadas em 2021 com optimismo e confiança. Também aqui uma simples intuição nos poderá levar ao dever de gratidão. Desde a gratidão com os cientistas e técnicos dos laboratórios e de quantos se voluntariaram para os ensaios clínicos, até aos que prepararam os espaços de um qualquer centro de vacinação e nos recebem para uma administração condigna da vacina.A catequese do Papa Francisco, realizada no dia 30 de Dezembro de 2020 na Biblioteca do Palácio Apostólico na última Audiência Geral deste ano consiste numa breve meditação sobre a «oração de acção de graças». Inspirando-se na passagem do Evangelho de Lucas em que dez leprosos vão ao encontro de Jesus, imploram a compaixão, são curados os dez e só um volta para agradecer a Jesus e louvar a Deus pela graça recebida, o Pontífice afirma: «Esta narração, por assim dizer, divide o mundo em dois: os que não agradecem e os que o fazem; os que tomam tudo como se lhes fosse devido, e os que aceitam tudo como dom, como graça. A oração de acção de graças começa sempre a partir do reconhecer-se precedido pela graça. Fomos pensados antes que aprendêssemos a pensar; fomos amados antes que aprendêssemos a amar; fomos desejados antes que brotasse um desejo no nosso coração. Se olharmos para a vida desta forma, então o “agradecimento” torna-se o motivo-guia dos nossos dias. Obrigado! Muitas vezes nos esquecemos de dizer: obrigado!»Mas é já no final que aparece uma relação, talvez inesperada, entre o acto de agradecimento e a esperança. Assim escreve o Papa: “Acima de tudo, não deixemos de agradecer: se somos portadores de gratidão o mundo também se torna melhor, mesmo que ligeiramente, mas isso é o suficiente para dar-lhe um pouco de esperança. O mundo precisa de esperança e com gratidão, com esta atitude de agradecimento, transmitimos um pouco de esperança. » Se nos perguntarmos por que razão dizemos “obrigado”, facilmente seremos tentados a pensar que se trata de uma questão de cortesia social. E sê-lo-á, certamente, e isso já é um bem. Mas, se leio atentamente toda a mensagem, o Papa Francisco vai muito além da mera cortesia, da simples norma de convivência social. Segundo o Pontífice, com o acto de agradecimento «o mundo também se torna melhor, mesmo que ligeiramente, mas isso é o suficiente para dar-lhe um pouco de esperança.»Se 2021 é o “ano da esperança”, como se vem dizendo, seja neste ano também redescoberto o sentido profundo da bem portuguesa palavra “obrigado”. Com ela redescobrimos com alegria as coisas boas com que diariamente somos brindados e ganha nova luz o bem que há no mundo pesem embora os dramas que afligem a Humanidade. Tem razão o Papa Francisco. Com gratidão o mundo fica melhor e a esperança sai fortalecida.Obrigado, pacientes leitores. Bem hajais, em 2021 e sempre. Guarda, 7 de Janeiro de 2020.