DOIS DEDOS DE HISTÓRIA


De acordo com a “Crónica de D. Manuel” escrita por Damião de Góis*, tendo aquele rei ido a Coimbra em outubro de 1502, em passagem para Santiago de Compostela, foi visitar o Mosteiro de Santa Cruz, à época um dos mais importantes do Reino de Portugal. No mosteiro, “vendo que a sepultura del-rei dom Afonso Henriques, fundador daquela rica e sumptuosa casa, requeria outra mais digna aos merecimentos de um tão magnânimo rei, logo pressupôs de a mandar fazer de novo, como depois fez, de modo que agora está.”
Da obra foram encarregues Diogo de Castilho, arquiteto, e Nicolau de Chanterenne, escultor, tendo-se iniciado os trabalhos cerca de 1515. A obra finalizou em 1520, ano em que se procedeu à trasladação oficial das ossadas do primeiro rei de Portugal.
Contudo, em 1535 o rei D. Manuel não estava satisfeito com o processo pelo que “mandou correr as ossadas dos reis”, as de D. Afonso Henriques e de seu filho D. Sancho I que jazem lado a lado, “para ficarem em mais perfeição”. Esta operação melindrosa foi acompanhada diretamente por Nicolau de Chanterenne.
Em relação às esculturas, pertence a Nicolau de Chanterenne a autoria da estátua jacente de D. Afonso Henriques, mas não as outras peças do retábulo, ainda hoje de autoria desconhecida. Este retábulo representa a invocação mais solene de Nossa Senhora, como Virgem da Assunção, os doze apóstolos, dois evangelistas e dois profetas, além de São Cristóvão e da imperatriz Santa Helena. Com a escolha destes santos protetores, D. Manuel quis conferir a máxima dignidade à obra, que representa um dos testemunhos mais expressivos da construção de todo um aparelho simbólico em torno da monarquia portuguesa, que este rei vinha desenvolvendo há décadas, juntamente com os seus conselheiros, para exaltação da dignidade régia.
De algum modo, as esculturas podem-se comparar às iluminuras que ornamentam os códices da “Leitura Nova” da Torre do Tombo, da famosa embaixada ao papa e das numerosas edificações arquitetónicas da época, como o Mosteiro dos Jerónimos.
Este caminho, seguido por D. Manuel, não podia deixar de dar relevo à figura do primeiro rei português pois a exaltação da sua figura destacava o papel de iniciador da monarquia portuguesa, cuja glória culminava em D. Manuel.
Em 2006, a Professora Doutora Eugénia Cunha, bióloga e antropóloga forense da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, solicitou autorização para abrir o túmulo de D. Afonso Henriques com o intuito de proceder a um estudo detalhado e científico. O objetivo seria reconstituir o aspeto físico de D. Afonso Henriques, falecido há 833 anos. Não tendo sido autorizada, ainda assim, através de um pequeno orifício no túmulo de D. Afonso Henriques, a investigadora introduziu um aparelho médico, um endoscópio, para espreitar lá para dentro. Viu duas pequenas urnas de madeira, uma sobre a outra, muito degradadas. O fundo do túmulo é feito de pedra. Supõe-se que as urnas pertencem ao primeiro rei português a sua mulher, D. Mafalda.
Recordamos que o túmulo original estava situado na entrada da igreja do Mosteiro de Santa Cruz, mas o rei D. Manuel considerou que o sepulcro medieval era modesto para o fundador da nacionalidade, no século XII, e mandou fazer outro.
Em 1515, os restos mortais foram transladados para o novo túmulo, que ficaria na nave da igreja. Entre 1522 e 1530, como acima se refere, foi transladado outra vez, para a capela-mor, onde atualmente se encontra. A transladação poderá explicar o tamanho pequeno das urnas, como acontece, por exemplo, quando se passam os restos mortais de uma sepultura para um ossário.
Se a abertura do túmulo tivesse sido autorizada, a investigadora pretendia submeter a estudos, como a datação por radiocarbono, a tomografia axial computorizada (TAC) e análises químicas e toxicológicas, os ossos e outros restos mortais, como cabelos ou unhas, se existissem.
O estudo seria completado com a obtenção do ADN, com o traçar do perfil genético do rei, a medições dos ossos, para determinar a estatura do rei, e deteção de patologias do nosso primeiro monarca.

* Damião de Góis (1502-1574) foi um historiador e pensador que defendia uma alteração profunda no pensamento religioso e filosófico de Portugal e da Europa (viveu com Erasmo de Roterdão), em pleno séc. XVI. Foi um homem do Renascimento, viajante e humanista, perseguido pela Inquisição, suspeitando-se que terá sido assassinado.
Foi recebido na corte de D. Manuel e aí fez a sua formação. Publicou diversas obras humanistas e historiográficas e foi nomeado guarda-mor dos arquivos reais da Torre do Tombo. Foi escolhido pelo cardeal D. Henrique para escrever a crónica oficial do rei Manuel I, completada em 1567.