Digamos, embora com pouca exactidão, que a Bíblia Cristã começa, no Génesis, com trigo e termina, no Apocalipse, com trigo também.

E no centro bíblico, no Evangelho, lá encontramos também o trigo. Em forma de parábola, como acontece em Mateus (13,24-30) e em forma de semente que importa lançar à terra para que, morrendo, dê muito fruto, como aparece em João (12, 24-26).
No Génesis o trigo começa por aparecer num sonho. O sonho de José que, quando amarravam os feixes de trigo no campo, viu o seu feixe levantar-se e ficar de pé enquanto os feixes dos irmãos se ajuntavam ao seu redor e se curvavam perante o dele (Gn. 37). E os irmãos se interrogam: «Pretendes ser o nosso rei? Pretendes ser o nosso senhor?» Segue-se outro sonho. Por ele passa-se do mundo agrícola para o mundo estelar. José sonha que o Sol e a Lua e onze estrelas se prostravam diante dele. E o sonho é contado ao pai e aos irmãos. Jacob parece ter compreendido o sentido dos sonhos e, conhecendo a inveja que os outros filhos tinham de José, repreende-o, talvez por ter contado os sonhos, mas, conservando o assunto na memória, fica a meditá-lo no coração.
Se um sonho já deixava preocupados os irmãos, a preocupação terá sido bem maior quando José conta o segundo sonho a seu pai e seus irmãos. A viverem numa cultura em que os sonhos possuíam dimensão oracular, perante sonhos que parecem anunciar a anulação da igualdade entre todos, a inveja inicial dos irmãos transmuta-se em medo e em rancor e respondem zombando dele com desprezo: «lá vem a sonhador», «veremos para que lhe servem os sonhos.» E venderam-no a uns negociantes que por ali passavam a caminho do Egipto.
Depois - quem não conhece a narrativa bíblica? – perante a fome verificada em todo o lado excepto no país do Faraó, Jacob envia os filhos ao Egipto para aí comprarem trigo e poderem viver. (Gn, 42) Assim aconteceu e ali foram recebidos pelo seu irmão José que, por ter interpretado os sonhos do Faraó e propiciado uma gestão adequada do cereal recolhido nos anos de grande produção, fora elevado à categoria de chefe e governador do Egipto. A ele pertencia, por isso, a gestão do comércio do trigo procurado pelos povos vizinhos.
Agora o problema do comércio do trigo não se encontra na seca, mas na guerra. O trigo já terá entrado noutras guerras. Noutros lugares e tempos. Sempre que há guerra, o trigo, como outros cereais, entra na guerra. Até pela sua ausência.
Mas, agora, o trigo que entra na guerra é o trigo que faz subir os preços nas nossas padarias. E, se a guerra do trigo chega às nossas padarias, ela chega às nossas casas. Por uma fresta da carteira, já eventualmente meio vazia ou vazia mesmo, ou por uma ausência, porque a guerra tudo consome. É insaciável a guerra. Até consome as pradarias com as searas de trigo.
O trigo entrou na guerra. Tornou-se arma de guerra. Na guerra da Ucrânia. A guerra à nossa mesa. À mesa de tantos que já pouco têm tido para comer. À mesa de muitos que se encontra sistematicamente vazia. Em todo o mundo, mas particularmente naqueles lugares e países que vamos conhecendo, embora os esqueçamos para lamentável sossego da consciência da nossa humanidade.
Quando, em anos recentes, li os livros de Yuval Noah Harari, então com assinalável projecção no mercado livreiro, fui surpreendido, como surpreendidos terão ficado outros leitores, com o optimismo do Autor. Logo a abrir o livro, a que deu o título de «Homo Deus: História Breve do Amanhã», podemos ler: «na alvorada do terceiro milénio, a humanidade desperta para uma constatação notável. A maioria das pessoas raramente pensa nisso, mas nas últimas décadas conseguimos dominar a fome, as epidemias e a guerra.» A ciência, a tecnologia e a razão parecem apresentar-se como nova trindade santa para destronar os cavaleiros do Apocalipse (Ap, 6) que trazem a peste, a fome e a guerra. As três a anunciarem e a carregarem a morte.
Não sei se Yuval Noah Harari escreveria as mesmas palavras neste ano de 2022. Há três anos, quase esquecendo epidemias que vão grassando em muitas partes do mundo, descobrimos a pandemia Covid 19 que vem dando volta à Terra. Neste 2022, esquecendo outras guerras que se vão disseminando em muitos locais, redescobrimos uma guerra bem no centro da Europa que tem deixado o mundo num alerta preocupante.
Certamente a Humanidade tem toda a razão em orgulhar-se das conquistas da ciência e da técnica. São muitas e maravilhosas essas conquistas. E com elas muito melhoraram as condições de vida do ser humano.
O sucesso da ciência na produção das vacinas contra a Covid 19 é um facto indesmentível. Mas, que a pandemia foi de todo vencida, é outro assunto. Que as epidemias foram para sempre eliminadas do mundo humano, isso estará ainda por provar por mais que a ciência e a técnica sejam colocadas ao seu serviço.
A lei e o direito internacional são uma conquista preciosa da civilização dos tempos modernos. Ninguém o negará. Mas, que foi vencido o espírito guerreiro do ser humano pelo espírito de compreensão e fraternidade entre os homens, é um assunto bem diferente. E a guerra aí está bem no centro desta velha Europa que já fora devastada por outras bem recentes.
Quanto à fome, bem, só se andarmos muito distraídos ou fecharmos os olhos à realidade é que podemos ler, sem pestanejar, que a fome foi vencida. De facto, ela tem existido em muitas regiões do globo, e em dimensões bem dramáticas. E pode até vir a assumir maiores dimensões em consequência da guerra na Ucrânia. Os sinais encontram-se à vista de todos. A guerra do trigo e dos cereais, que acompanha a guerra das armas, é uma guerra da fome e de outros nomes para a morte.
A agricultura ucraniana vem sendo devastada, os campos vão sendo minados, o roubo dos cereais pela Rússia parece ser indesmentível e o bloqueio russo nos portos do Mar Negro torpedeia as exportações. A guerra da Ucrânia está a provocar uma ruptura no sistema de alimentação global, conforme aviso já feito por um alto representante do programa alimentar mundial das Nações Unidas. A escassez de produtos está já à nossa porta, os industriais da panificação já sentem a subida em flecha dos preços e o espectro da fome paira sobre os mais pobres, particularmente nos países africanos. Por isso, quando os celeiros ainda estão cheios com muitos milhões de toneladas de cereais prontos para sair da Ucrânia e não podem ser escoados, já há quem fale de uma “crise mundial dos cereais” que prenuncia uma “guerra mundial do pão”. Que já começou, dizem alguns.
Sabemos hoje que essa trindade, que tanto orgulha a era moderna, é também instrumento de destruição atroz, quando ela não é iluminada pela inteligência espiritual e por uma fina sensibilidade de um olhar transcendental que sempre precisa de ser alimentado e nunca esquecido nem torpedeado por uma qualquer ideologia elaborada ao sabor de interesses caseiros inconfessáveis.
Escreve Yuval Noah Harari: «sempre que a fome, as epidemias e a guerra escapam ao nosso controlo, pensamos imediatamente que alguém fez asneira, nomeamos uma comissão de inquérito e prometemos a nós próprios que faremos melhor da próxima vez.» Assim uma guerra se pudesse superar com uma comissão de inquérito e fosse suficiente a promessa de agir melhor para ela ser vencida. Mas Yuval Noah Harari não deixa de ter razão ao escrever que, se os Cavaleiros do Apocalipse cavalgam a peste, a fome e a guerra, e, com elas, a morte, “pensamos imediatamente que alguém fez asneira.” O autor de um acto tem de assumir as suas consequências. Sobretudo se forem más.
Recentemente li, lemos, que a Rússia atira para a Ucrânia, e para os países que a apoiam, a responsabilidade desta “crise mundial dos cereais”. Mas, afinal, quem invadiu criminosamente a Ucrânia violando todas as leis da convivência entre os povos? Quem despertou os cavaleiros do Apocalipse?
Guarda, 22 de Junho de 2022