OS LIVROS NO CAMINHO DO HOMEM


Diogo do Couto nasceu em Lisboa em 1542 e morreu em Goa a 10 de dezembro de 1616.
Merecedor de destaque nos historiadores portugueses de Quinhentos, entrou ao serviço do infante D. Luís, filho de D. Manuel I, com a idade de 10 anos. Após a morte do infante, passou para o Paço Real, onde foi Moço de Câmara de D. João III. Com a morte do pai, pediu ao rei que o deixasse embarcar para a Índia, o que ocorreu em 1559. Alistou-se como soldado e participou em várias batalhas entre os portugueses e os povos locais.
Travou conhecimento pessoal com Luís de Camões e, a seu pedido, deu início à redação dos seus Comentários, de tipo histórico, para Os Lusíadas, mas interrompeu a tarefa quando lhe foi confiada a missão de cronista da Índia.
Na altura eram bem conhecidas as Décadas de João de Barros, livros sobre os portugueses na Índia, pelo que Diogo do Couto determinou continuá-las a partir da Década III e, com grande brevidade, compôs a Quarta, Quinta, Sexta, Sétima, Undécima e Duodécima.
Diogo do Couto possuía uma grande bagagem cultural. Era um perfeito conhecedor das línguas latina e grega e ainda da língua francesa, italiana e castelhana. São notórios os seus conhecimentos mitológicos e filosóficos, assim como a sua enorme bagagem de cultura greco-latina e da história e geografia do seu tempo. Por isso, as suas obras aparecem-nos com frequentes citações bíblicas, dos escritores medievais e de muitos outros da sua época. Serve-se deles para estabelecer confrontos com os heróis portugueses ou para nos indicar o seu procedimento em relação às personagens portuguesas do Oriente.

O livro “O Soldado Prático”
Durante a sua vida na Índia, Diogo do Couto manteve sempre uma postura de grande zelo do bem público, mas assistiu a um quotidiano de ausência do rei e excessos dos ministros que provocavam as maiores desordens no vice-reinado da Índia. Para denunciar e remediar este mal social escreveu um livro a que chamou “O Soldado Prático”. Na obra introduziu, por modo de diálogo, um vice-rei novamente eleito, falando com um certo “soldado” velho da Índia, que andava na corte para se informar das coisas que lhe interessavam denunciar. O livro resultou num retrato plenamente fidedigno de tudo quanto se passava na Índia no seu tempo. É uma censura à tremenda corrupção que por lá alastrava, sob a forma de doença a que era difícil escapar. Os costumes e desregramentos de muitos governantes e seus partidários foram guardados neste livro e marcados com ferrete indelével. Ninguém escapa ao autor embora os mais duramente castigados sejam os mais altos, a começar nos vice-reis, e nem os reis se encontram isentos dos seus apontamentos.
“O Soldado Prático” é um dos mais sólidos monumentos do mais puro humanismo cristão-português. Enquanto Luís de Camões escreveu a mais consistente homenagem às glórias da pátria, Diogo do Couto soube captar a “apagada e vil tristeza” a que os Senhores do Oriente fizeram chegar essas terras com a sua ambição, o desregramento, o suborno, o roubo, a luxúria e a lascívia. E não era só na Índia que aconteciam estes problemas. No reino de Portugal residia uma parte da mediocridade, inaptidão e corrupção motivados pela não adaptação aos tempos dos descobrimentos e governação de novos territórios ultramarinos.
Esta é a audácia que podemos atribuir a Diogo do Couto, que chega a atingir o rei de forma dura e bastante direta, embora com linguagem mais moderada. Pode-se, mesmo, afirmar, que o Soldado presente no livro representa quase sempre a maneira de sentir e pensar do autor.
Dada a finalidade da obra, louva quem deve ser louvado e fustiga os que o merecem sem medo das consequências que daí possam advir. Nada o desvia do rumo assumido. Deste modo, a leitura do livro permite-nos uma correta avaliação do que foram os nossos heróis da epopeia do Oriente e as condições com que os portugueses se deparavam no quotidiano. Tanto mais é de relevar este facto se pensarmos que a maioria dos escritos de época refletia uma vontade de bajular os altos representantes da nação e mostrar como os portugueses tinham construído e viviam numa sociedade bem organizada e justa.
Não temos dúvida que a sua obra é tão perene de atualidade nos nossos dias como foi na realidade portuguesa do século XVI.

Extrato ilustrativo do diálogo do Soldado
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Na Índia dalguns tempos para cá que se costumam quatro maneiras de alvitres: primeiro, contra o rei; segundo, contra os homens; terceiro, contra Deus; quarto, contra todos: O primeiro, que é contra o rei e com que os governadores enriquecem seus criados, é de muitos modos, a saber: morreu o homem, não tem herdeiros, pertence sua fazenda à coroa; esta logo é repartida e levada pelos ares, sem o rei ver dela um tostão.
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