A memória das palavras


O título em epígrafe é do último livro de poesia de Cristino Cortes, publicado pela Calçada das Letras e apresentado na Guarda, no dia 29 de junho, na BMEL. Apesar do autor ter estudado na Guarda e ser natural de Trancoso (Fiães), é, infelizmente, pouco conhecido por cá. A sua poesia está bem representada, nos últimos tempos, em várias edições quer em livro, quer em jornais, quer mesmo em sítios digitais.
O QUE FICA é um livro de poemas entranhados pelos temas mais abordados pelo autor: a cidade e o seu quotidiano – “Daquele que consciente vê e vive na cidade / E nela deseja intervir, para melhor / a configurando, aqui canto. … É este um testemunho do seu múltiplo amor.” São registos diários, mas nem por isso menos importantes e trabalhados. Apetece recordar, a propósito, a afirmação de Cesário Verde: “ a mim o que me rodeia é o que me preocupa.” E, nas páginas do livro, ao lermos os poemas, muitas vezes deparamos com memórias de Cesário. Os poemas de Cristino Cortes são muitas vezes também cânticos de realismo. É também um livro circular e numérico. No prefácio, Luís Serrano, chama-nos a atenção para esses mesmos números e círculos. Faz mesmo uma ligação à Divina Comédia de Dante. O livro está organizado em seis círculos, mais um conjunto intermédio, com um número primeiro decrescente e depois crescente de poemas. (17-13-9 -5-9-13-17) O livro contém 83 poemas originais versando, basicamente, a circunstancialidade da vida, e da vida na cidade, a nostalgia da cultura clássica (em particular a grega), a preocupação com alguns temas sociais e políticos, a meditação sobre o próprio fazer poético .A obra apresenta, pois, uma estrutura simétrica com um círculo maior no início e no fim e um intermezzo de cinco poemas no meio.
Os poemas são na sua maioria longos e em versos, também eles longos, a rondar as quinze sílabas métricas. Trata-se de poemas narrativos entranhados na realidade observada diariamente. Assim, a abrir, o primeiro poema, intitulado Episódio Matinal, retrata uma visão do sujeito poético a partir da sua janela num sábado de manhã. Seguem-se passeios, paisagens, cenas observadas no autocarro, no supermercado, na esplanada do café todas tendo em comum o passarem-se na cidade. Nem os fenómenos meteorológicos escapam ao olhar atento do narrador: o cair da noite, a chuva inoportuna. A linguagem descritiva dos poemas acompanha essa observação pessoal do movimento banal e diário levando o leitor ao visualismo das cenas o que aproxima o poeta novamente de Cesário. (No segundo círculo há mesmo um poema intitulado A cidade e o campo que, como se sabe, é o tema fundamental da obra cesárica.) E, como complemento, o poeta adoça os poemas com momentos irónicos que a pena do autor transforma através do recurso a breves tons eróticos deliciando a libido masculina (Nua no telhado).
Por esta amostra, pode o leitor concluir qual a orientação temática da obra. Até o intermezzo, com os seus cinco poemas, fugindo um pouco à temática geral, acabam por incidir no quotidiano, a começar com É a vida e a terminar no Equilíbrio do mundo. Há, no entanto, uma fuga a esta temática no círculo quarto e uma fuga para o passado: o mito de Ulisses. É, sem dúvida, um dos mitos gregos mais fecundos na literatura europeia e o nosso autor não escapa aos seus encantos. Os nove poemas referem explicitamente a cultura grega e o tema da viagem é nuclear. Ulisses, Penélope, Heitor, Nausicaa todos embrulhados na versão odisseica cantada por Homero, o pai da poesia – Oh bem aventurado Homero, sábio e cego, príncipe e pai da poesia! (pág. 105).
E, para terminar, voltemos aos versos de Cesário citados acima: o que fica, afirma o autor no título e pergunto eu. Fica aquilo que é eterno e perene e que faz com que um poeta não morra nunca: a poesia.
Fica a poesia, claro, benefício da abertura temporal
De a ela, e com gosto, poder-me entregar. (pág. 151)
Encontrou o poeta já a perfeição? Claro que não, pois o poeta é humano e ser humano implica ser imperfeito. Mas vai tentando deixar a sua marca na poesia portuguesa dos séculos XX e XXI o que já conseguiu com toda a certeza.