Histórias que a Vida Conta


Passámos o ano em casa do nosso filho Pedro e da Joana. Muito próxima da nossa, ali nos reunimos com os nossos compadres, bem como com a Inês e o Zé Maria, irmã e cunhado da minha nora. Mas a rainha da festa foi, sem dúvida, a Luisinha, filha deles: um encanto de bebé, com pouco mais de quatro meses, que já dobra o riso e faz movimentos com os lábios imitando os adultos a comer, sentados à volta da mesa. Não há como um bebé assim para receber o ano que acabava de nascer… Graça, viveza e muita esperança.
 Foi também em casa do Pedro que passámos o dia 1 de Janeiro. Um prazer ser acolhido tão calorosamente por um casal jovem, a convidar-nos a entrar com alegria em sua casa e no novo ano. No final da tarde, à saída do prédio, quando nos aprestávamos para nos dirigirmos à Igreja do Lumiar, circulando o olhar pelos prédios em redor da Praça, vieram-me à memória, como se com isso se fechasse um círculo de vida passada, alguns amigos que ali viveram e que já não estão entre nós. No prédio fronteiro, do outro lado da praça, morou o Dr. Menéres Pimentel, falecido no ano que findara. Em edifícios próximos residiram o meu antigo colega de curso, Anselmo da Costa Freitas e o Luís Aguilar, meu camarada na Marinha e no Comando Naval de Angola, ambos precocemente ceifados na flor da vida.
Fui contemporâneo do Luís Calado de Aguilar na Faculdade de Direito de Lisboa, mas praticamente só nos conhecíamos de vista. Ele tinha pouco mais de um ano do que eu, tendo frequentado o curso imediatamente anterior. Fazia parte de um grupo de estudantes de Direito que já se distinguiam, ao tempo, pela vasta cultura política e pelo brilho intelectual com que defendiam as suas ideias progressistas. Tratava-se de uma plêiade que integrava, entre outros, Jorge Sampaio, José Vasconcelos Abreu, Vítor Wengorovius, Jorge Sá Borges, Afonso de Barros e Jorge Santos. Alguns deles vieram a fazer parte, após o 25 de Abril, do Movimento da Esquerda Socialista (MES), de onde sairiam mais tarde para militarem no Partido Socialista. O meu posicionamento ideológico era diferente. Com uma formação mais conservadora, algo distante do confronto político, pertenci à JUC e empenhei-me na defesa da doutrina social da Igreja.
Também em virtude desta diferente visão ideológica, os círculos em que nos movíamos não eram coincidentes.
Por isso, foi só no Alfeite, durante o tempo da recruta, e principalmente no decurso da viagem de instrução, em Fevereiro de 1967, que conheci verdadeiramente o Luís Aguilar. Sem intimidade, respeitámo-nos desde a primeira hora e sempre mantivemos uma relação cordial, que viria mais tarde a transformar-se, pela minha parte, em sólida amizade e sincera admiração. Lembro-me do cabograma que lhe foi entregue à chegada da fragata Diogo Cão à Ilha de São Vicente, durante a viagem de instrução, informando-o do nascimento da sua primeira filha.
Data dessa viagem a fotografia que acompanha este texto. Tirada no Machico, na Madeira, ali estamos, da esquerda para a direita, nas nossas fardas de cadetes da Armada, eu, o Luís Aguilar (à minha frente), o Mário Bernardo, médico e grande amigo do Aguilar, o Vítor Constâncio e o Fernando Maia.
A nossa convivência viria a cimentar-se durante os dois anos da comissão de serviço no Comando Naval de Angola.
O Luís Aguilar tinha escritório de advocacia com o Tio, Dr. Amado de Aguilar, que foi alto dirigente do Sporting Clube de Portugal.  Grande polemista, bom argumentador, apaixonado na defesa das ideias em que acreditava, o Luís Aguilar tinha todas as qualidades para ser um advogado de sucesso. Recordo, com a saudade que se guarda dos bons momentos vividos nessa idade de idealismo, as tertúlias que mantivemos em longas noites tropicais de discussão amigável mas franca. Concordando-se ou não com ele, ouvíamos com gosto o discurso arrebatado do Luís Aguilar condenando a insanável degradação ética e social do regime corrupto do ditador Fulgencio Batista, destituído precisamente em 1 de Janeiro de 1959, ao mesmo tempo que defendia com entusiamo a revolução cubana e a liderança política e ideológica de Fidel.
Assim como recordo com saudade as viagens que fizemos à paradisíaca Ilha do Mussulo ou ao Cacuaco, à Barra do Quanza, ao Cachito ou à barragem de Cambambe, em Agosto de 1967. Eu, no meu Austin 1100; ele, ao volante do seu Alfa Romeo branco, motivo do gozo amigável que fazíamos a propósito do seu “esquerdismo caviar”.
Com grande surpresa, algum tempo após o nosso regresso ao Continente, informou-nos ter decidido “tirar” Medicina. Já então pai de três filhas, com perto de trinta anos, a decisão de abandonar uma carreira auspiciosa como advogado, com escritório montado e clientela feita, trocando-a pela frequência de um curso longo e exigente, comportava, a par de muita coragem, um grande risco.
Mas a verdade é que, determinado como sempre, porventura desiludido com as fragilidades de um sistema que, tantas vezes, não alcançava o desejado ideal de Justiça, muito exigente na prossecução de um modelo social e moral que o pudesse realizar enquanto cidadão responsável, o Luís Aguilar viria a formar-se em Medicina. Lembro-me de uma das várias conversas que mantivemos num café daquela praça do nosso Bairro. Ainda algo hesitante sobre a especialidade que iria tirar, o Luís Aguilar tinha afastado a cardiologia, porque “o coração era um músculo estúpido”, na sua faina repetitiva e incessante de bomba trabalhadora. Não tinha comparação com os rins, esses sim, um órgão inteligente, qual computador sempre capaz de se adaptar às flutuações do estado de saúde geral do organismo, filtrando e purificando sabiamente o sangue que nos dá vida. E foi assim que veio a optar pela nefrologia. Começava a ser um especialista conhecido, quando … aquele “músculo estúpido”, decidiu, estupidamente, pregar-lhe uma partida mortal!
Tinha estado em nossa casa poucos dias antes de ser operado ao coração. Viera, como médico amigo, ver a nossa filha Ana, que estava de cama. Chegou já tarde, perto da meia-noite. Vinha cansado e, ao contrário do que era habitual, a sua preocupação era visível. Falou-nos da gravidade da operação a que ia ser submetido e dos perigos acrescidos que corria pelo facto de ser um grande fumador. Morreu na mesa de operações. Apesar de todos os esforços feitos para o salvarem, os colegas tiveram de se dar por vencidos. Tinha menos de cinquenta anos e foi um homem generoso, chorado no Bairro onde não se cansou de praticar o bem. Faria 74 anos no próximo dia 24.
Aqui lhe presto, pelo que foi e pelo que fez, esta singela homenagem.