O título, bem se vê, evoca uma comunicação do Primeiro-ministro ao país para informar os cidadãos das novas medidas decididas pelo Governo e enquadrá-las no então decretado confinamento geral.

As medidas foram apresentadas em termos de “proibição”. Foi aí que encontrei o “postigo”.«Em primeiro lugar, está proibida a venda ao postigo em qualquer estabelecimento do ramo não alimentar, como em lojas de vestuário.» Assim se expressou o governante, para acrescentar de seguida: «Está proibida a venda ou entrega ao postigo de qualquer tipo de bebida, mesmo cafés, nos espaços alimentares autorizados para vender em take away.»Foi assim que o «postigo» despertou e se abriu, adormecido que andava no meu mundo vocabular. Senti vontade de sair de casa à procura de postigos. Maldisse do aprisionamento em que o manhoso bicho nos traz entrincheirados. Mas já ficou decidido: quando romper a bolha do confinamento, irei percorrer, com olhos de turista em festa, toda a cidade à descoberta dos seus postigos.A utilização da palavra “postigo” numa comunicação do governante havia-me causado alguma surpresa. Verdade é que há longo tempo eu não ouvira aquela palavra, bem corrente, aliás, na minha aldeia, onde muitos postigos faziam companhia a outras tantas portas de entrada das habitações. Na casa onde nasci lá estava um postigo que desaparecera com as intervenções havidas entretanto na habitação. O mesmo aconteceu, creio bem, em muitas outras casas da povoação. Hoje sinto certa pena de terem desaparecido. Davam um aspecto típico àquelas entradas das casas simples mas onde imperava um espírito ternamente acolhedor. E constituíam mesmo uma marca da sua singela história dificilmente narrada. Porém, tê-las-á levado o vento soprado de outras histórias.Embora recordando o som de postigos musicados de alguns dos nossos cançonetistas, e embalado, talvez, por uma reminiscência saudosa da chiadeira dolente e monótona do postigo da casa de meus pais em tempo de humidade, julgara eu tratar-se de um regionalismo linguístico. Daí a minha surpresa com a comunicação do Primeiro-ministro. Consequentemente, guiado pela atracção irresistível do postigo linguístico, dei comigo intrigado a percorrer portos, portas, portinholas, portadas, portelas, portelos, portais e portaleiras, portinho e portagens, e outras coisas que tais, tudo termos com origem no verbo latino “porto” (transportar, levar, trazer, …) com origem na preposição latina “per” (através de, por entre); tudo substantivos com a ideia de «movimento», «passagem» ou «travessia». Mas o postigo escancarou-me as portas para outra travessia. O termo “postigo” procede de outra origem. Também provém do latim, mas do substantivo “posticum, i” que os dicionários específicos dão a significar a “parte posterior de uma edificação, porta dos fundos, porta escusa, quarto dos fundos, …”, em cuja base está o advérbio “post”, a significar “atrás”, “detrás”, “depois”, “em segundo lugar”. Já dicionários da Língua Portuguesa me dizem que “postigo” significa, entre outras coisas, “pequena porta secundária aberta numa muralha, fortificação”, “janelinha em portas ou janelas para olhar quem bate”, “portinhola”, “guiché”, “pequena janela”. Não, este postigo dos dicionários do Português pode ser o postigo pensado pelo nosso governante, mas não é o postigo da minha aldeia. O Dicionário de Falares das Beiras de Vítor Fernando Barros encontrou na cidade de Nelas, o “postigo” a significar uma «Janela pequena, sem vidro, inserida na porta, na parede ou na janela da porta.» Também este postigo não é o postigo da minha aldeia, embora possa também ser o postigo do Primeiro-ministro. O postigo da minha aldeia possui outra ressonância significativa. O postigo da minha aldeia é uma porta, de um só batente e de meia altura em relação à porta da entrada principal da habitação, naturalmente de corpo inteiro. Verdadeiramente o postigo da minha aldeia é uma meia porta que se encontra à frente ou atrás da porta, conforme se olha do exterior ou se encara do interior da casa. Sem fechadura e só com trinco metálico ou uma pequena tranca de madeira, ao contrário da porta de corpo inteiro que possui fechadura, o postigo poderá ficar cerrado mesmo quando se encontra aberta a porta. Nessa posição, o postigo, protegendo a casa, permite também a entrada do ar puro e da luz para o corredor da habitação, do átrio de entrada ou da divisão a que dá acesso. Já se está a ver: foi este postigo que me veio à mente quando ouvi o governante falar. É um postigo bem mais interessante do que uma “porta dos fundos”, ou do que uma “janelinha” aberta em portas ou janelas para espreitar quem bate ou quem passa, à semelhança de uma qualquer portinhola ou guiché onde se atende um cliente. O postigo da minha aldeia possui outra dignidade. É parte integrante da entrada nobre da casa. Respiramos ainda o ar das últimas eleições. Muitos votos poderão ter sido de protesto ou de sentimento de abandono, como por aí se diz. Serão tal, não o discuto. Todavia, terão sido proeminentemente votos de maior exigência na vida democrática. Se é verdade que há inimigos internos na democracia, eles não serão só aqueles que nela vivem e dela se aproveitam para a enfraquecerem ou mesmo para a destruir. Destes muito se fala nas escolas de análises políticas. Nas livrarias não faltam títulos a caracterizá-los. Contudo, nos tempos por que passamos, creio haver outros inimigos internos da democracia de que pouco ou nada se fala mas que são, possivelmente, mais perigosos porque mais difíceis de identificar e mais custa a aceitar. São aqueles que a enfraquecem na prática diária precisamente quando afirmam, altissonante e arrogantemente, que a estão a defender e a defender os seus valores. Vivem numa espécie de bolha psicológica de tal ensimesmamento que se tornam cegos à mensagem e falam da loucura do mensageiro. As eleições poderão ter muitas leituras. E elas não têm faltado nos meios escritos, radiofónicos, televisivos e informáticos Mas creio que elas foram também um convite dos cidadãos aos responsáveis políticos para que sejam mais exigentes consigo mesmos na vivência democrática e dêem, pelo exemplo, melhor sentido à vida comunitária e rumo à acção política, nunca esquecendo que o poder exercido no interior de uma comunidade política tem de ser serviço público para o bem público. Tem de ser tal, de facto e não somente de direito. Mais do que um convite, as eleições ter-se-ão constituído como uma exigência aos principais agentes políticos, quantas vezes transformados em simples actores. A democracia, se é muitas coisas, é também uma balança com pratos de fragilidade e de exigência moral. Mal irá ela quando o prato da fragilidade não é contrabalançado com o prato da exigência e da nobreza de carácter. Estão então escancaradas as portas a todos os desvarios na luta política.Rompam-se então as bolhas da autocomplacência narcísica e abram-se os postigos à mensagem e ao mensageiro! Não sejam, porém, as portinholas por onde passa, à socapa, um qualquer cafezinho. Seja antes o postigo à moda da minha aldeia. Ele dá para horizontes mais amplos, encontra-se aberto à sã convivência humana e ao diálogo fraterno entre as gentes e deixa entrar mais ar e mais luz para o necessário discernimento.Guarda, 4 de Fevereiro de 2021, celebração do 1.º Dia Internacional da Fraternidade Humana