Desculpem os meus leitores o conteúdo deste texto.

Aviso para os mais sensíveis: não leiam! Depois de tantos artigos sobre os horrores da guerra na Ucrânia, tive uma semana marcada por acontecimentos inesperados e chocantes.
Talvez por isso, quando ontem me fui deitar ia convencido de que a minha noite ia ser difícil. Não costumo ter pesadelos. Há muito tempo que não me lembro de ter tido algum. Mas, desta vez, a noite e o sono tornaram-se um tormento. A realidade e o susto, a guerra e a crise na saúde, as mortes por Covid e o caos nas urgências de obstetrícia, tudo se fundiu num caleidoscópio com fragmentos dotados de algum nexo ou até de certa lógica, sucessivamente mais preocupantes e aterrorizadores. A imagem de uma senhora jovem, com ar cândido e jovial transfigurou-se num semblante duro, sisudo e ameaçador. O sorriso diáfano transformou-se num esgar maldoso, a boca torceu-se numa careta de escárnio, indiferente a apupos ou ao soluçar dos familiares dos que partiam. Na sua indiferença distante e superior salientava que tudo ia acabar bem, que, afinal, ela era a figura mais importante e popular do país. Que, em boa hora, tinha acabado com as parcerias público-privadas, que era ela que tinha “metido os médicos, enfermeiros e políticos da oposição “na ordem” e que, se fosse preciso, iria obrigar também os seus camaradas de partido e de governo a “ganhar juízo”.
De repente vejo-me em Paris, fazendo parte de um grupo que ia viajar para a China. Tinha de me dirigir à “sede da TAP” (sic) . Mas, a dada altura, perdi-me do grupo. Desorientado, andei às voltas pelo centro da cidade, perdido e cada vez mais distante do meu destino – que não sabia bem onde ficava! Dirigi-me a umas senhoras, com ar prestável que estavam sentadas num banco de uma avenida: à minha pergunta, esforçaram-se por me ajudar, mas rapidamente percebi que não sabiam qual a direção que eu devia tomar. Fui continuando a minha caminhada sem destino, num stress crescente, a interrogar quem passava. Muitos nem me respondiam; outros diziam não saber e alguns, finalmente, davam-me indicações erradas. Comecei a pensar que ia perder o avião e, para além de não ir à China, não seria ressarcido da despesa da compra do bilhete.
Transpirado e exausto, vejo-me num campo cheio de covas e buracos, lembrando os túmulos do Vale dos Reis, que podia ser uma terra de lavoura mas também podia tratar-se de um cemitério. Um ambiente soturno, rostos tristes de gente que se ia despedi… Nisto, ouço falar português. Eram dois homens, um já de idade avançada e o outro mais novo, que desciam por umas escadas para dentro de uma dessas covas. Dei uma corrida para os alcançar e perguntei-lhes onde ficava a “sede da TAP”. Apercebi-me, porém, que os homens se iam enterrando rapidamente, como se pisassem areias movediças que os iam submergindo. O mais velho disse-me que a TAP não interessava nada e que, se eu quisesse, podia acompanhá-los na viagem que eles iam fazer para lá da China.
Dei um salto para trás, olhei á volta e vi que outras pessoas se estavam a entregar ao mesmo destino dos dois portugueses. Em diversas câmaras, bem visíveis, pude ler umas tabuletas onde estava escrito: “Morte voluntária”, “Suicídio”; “Eutanásia” “Execução a pedido”. Percebi o que se estava a passar. Tratava-se de um campo de morte e de mortos, cheio de sepulturas e de dor. Acordei encharcado em suor e a tremer de pânico.
Hoje, sexta-feira, o último dia que destinava à escrita deste artigo, não consegui alinhar duas ideias nem escrever uma linha. Continuei sob uma grande carga nervosa, sem vontade de trabalhar e a pensar que, pela primeira vez, não iria cumprir a minha obrigação de enviar pontualmente o meu texto para o Jornal.
Lembrei-me de pedir à Maria Lúcia, minha Mulher, que, que me substituísse nesta missão. Mas ela está a sofrer desde ontem, duma terrível dor nas costas, que ataca em forma de guinadas lancinantes. Nestas circunstâncias não ia pedir-lhe ajuda – nem ela a podia prestar.
Escrever mais um texto sobre a guerra? Mas a guerra foi a grande culpada da depressão em que me encontro. Lembrei-me do meu querido Primo Armando Jorge, prematuramente falecido, que, há já cerca de uns 40 anos (como o tempo passa, Deus meu!) contraiu febre tifoide, por ter bebido de um charco de água insalubre quando passeava pelo campo alentejano. Já um mês depois, ainda com poucas forças e alguns quilos perdidos, estávamos todos a almoçar em casa da minha Mãe uma feijoada à transmontana, que ele queria acompanhar por um bom vinho tinto da nossa Adega.
Minha Mãe, com carinho, quis moderá-lo e disse-lhe “Armando Jorge, meu filho, não bebas vinho, bebe antes água…” Ao que o Armando Jorge, que gaguejava, respondeu: “Á-água, ti-ti-a Augustinha? A á-água é que me ia matando.
Também eu estou em relação à guerra como o meu saudoso Primo estava para com a água. Foram por certo as imagens da guerra, a mortandade, a carnificina, os corpos desenterrados, os sinais da prática de crimes de guerra ou contra a humanidade, os imóveis destruídos numa ruína total, o sofrimento das pessoas velhas, das mulheres e das crianças, dos amputados e feridos com muita gravidade, foram todas essas imagens vistas diariamente, que me induziram o pesadelo que me atormentou a noite passada. Depois de Bucha foi Mariupol; agora é Severodonetsk. A desumanidade dos homens faz deles piores do que as feras. São animais selvagens sem dó nem pinga de humanidade. Preciso de umas “férias de guerra”, longe de criminosos, vestidos de fato e gravata, de “Putins” paranoicos, “Lavrovs” e quejandos.
E, já agora, também de José Sócrates, do pesadelo que foi ter tido um primeiro-ministro em Portugal com o estofo moral deste cavalheiro, dum alguém que trata a Justiça, os Tribunais e o Ministério Público “abaixo de cão”, que deu uma entrevista a um canal televisivo há dois ou três dias que é um compêndio de desprezo, de incivilidade, de arrogância e de maus exemplos.
E foi esse homem a figura mais poderosa do PS e do País, rodeado por acólitos que continuam a ser figuras gradas – e algumas merecidamente gradas – das instituições políticas do Estado. Que continuam bem instaladas na vida, assobiando para o lado, no meio da miséria e da doença que campeiam entre a população do País. Pensar como tal aconteceu – e pensar que tal pode voltar a acontecer – é outro – e bem mais grave – pesadelo. Ao qual se junta ainda mais um: como é possível que a hierarquia do Ministério Público, as estruturas da Justiça não reajam a este cortejo de ofensas e de atropelos ao mais elementar respeito que é devido ao poder judicial e aos seus magistrados?
Saiu – tinha de ser! – uma crónica diferente. É já madrugada de sábado, dia 18. Desculpem os meus leitores a febre desta escrita. Foi de um jacto, tal como saiu ao bater das teclas…E ficou mais pequena, mas isso até é positivo.
Lisboa, 17 de junho de 2022