Tal como eu que já entrei no outono da vida, também o ano em que vivemos entrou nessa fase.

Estamos numa fase em que tudo amadurece, as colheitas vão-se realizando e própria natureza caminha para o seu descanso. Mas até que este repouso aconteça esta estação do ano ainda tem muito para nos dar, onde podemos partilhar muitas alegrias em conjunto.
No meu entender e no meu gosto também, o melhor que o outono nos dá é a castanha. Este fruto cem por cento outonal delicia-nos nos vários aspectos em que pode ser apresentado para ser degustado e comido.
Deste o mais simples magusto ao mais completo festival, a castanha é sempre um chamariz para aqueles que em simultâneo querem aquecer as mãos e o estômago.
Aqui pela nossa região, bem como pelas outras terras frias de Portugal, a castanha, que com alguma ironia eu a designo por semente do ouriço, é sempre um motivo de interesse, tanto na culinária, como em termos económicos para quem a produz, como para quem a comercializa.
São várias espécies de castanha que aparecem no mercado. No meu ponto de vista as que têm mais divulgação, são a martaínha, a longal e a judia. São estas aquelas que maior divulgação têm nos eventos do São Martinho, acompanhadas com água-pé ou jeropiga. Creio que a escolha de bebida para acompanhar, se relaciona com o clima local, nas zonas onde o clima é mais temperado, opta-se pela água-pé, por ser mais refrescante de menor teor alcoólico e se poder beber mais. Já a jeropiga impera nas regiões mais frias, que pela sua graduação e sabor faz aquecer melhor quem se vai deliciando. Todavia não podemos esquecer o vinho, pois é por esta ocasião, que segundo a tradição, se abre o pipinho e se prova o vinho. Ora nada melhor que as suculentas castanhas, assadas ou cozidas, para este acompanhamento.
Como estamos a falar de um produto de excelência, também tem as suas regiões bem definidas com a respectiva Denominação de Origem Protegia. Assim são conhecidas a castanha da Padrela, a castanha da Terra Fria, a castanha de Marvão-Portalegre e a castanha dos Soutos da Lapa. Podemos dizer que a nossa região mais se identifica com os Soutos da Lapa, em cuja área está inserido o concelho de Trancoso.
Em tempos mais recentes, a culinária valorizou a castanha, cozinhando-a com pratos de carne, o que para mim se torna um verdadeiro pitéu, embora sem eu saber as voltas que leva, comer um guisadinho de castanhas com borrego, o tal cordeiro de leite, como é designado por outras paragens.
Mas para que esta refeição ainda se torne mais enriquecida, podemos também completá-la com uma sobremesa outonal, pelo menos aqui pelas nossas bandas, estou a falar do requeijão com doce de abóbora, que tanto se aprecia aqui em redor da Serra da Estrela e onde tudo isto é abundante.
Em tempos mais recuados havia o costume de secar as castanhas, para que durante o inverno os dentes as fossem remoendo e ajudassem a engolir um calicezinho de aguardente bagaceira, que alternando com figos secos, servia de mata-bicho aos que no campo tinham que enfrentar as frialdades climatéricas. Hoje isso caiu em desuso, pois a congelação tornou-se muito mais prática na conservação, ao ponto de se conseguirem castanhas assadas durante todo o ano, nomeadamente em Lisboa.
Já que falamos em delícias outonais, não nos podemos esquecer do saboroso míscaro cujo paladar a tantos cativa. Pena é que aqui pela região em que vivemos, os pinhais tenha vinda a diminuir, na sequência dos fogos florestais e a escassez seja grande. Logo o seu preço atinge quantias bastante desajustadas.
Assim vejo eu, desta minha janela de observação, o decorrer do outono em que vivemos, que em tons de amarelo vai pintar a natureza que se tornará mais alegre aos nossos olhos.
E hoje por aqui fico. Espero voltar no dia da Espanha!
Até lá haja saúde! O melhor do mundo penso eu…