Pontos de Vista


Muito se tem falado, a propósito de intervenções mais ou menos inflamadas, individuais ou em turba multa, sobre a feição ecológica da vida dos povos, da governança das nações, do nosso comportamento individual. Não desdenhando o desafio de pensar o problema, proporia porém que se ouvisse – ou melhor, que se lesse com atenção – a palavra do papa Francisco na sua encíclica ”Laudato si”, da qual me parece oportuno reproduzir, a propósito, trechos bem elucidativos duma súmula da autoria de Andrea Tornielli, publicada no “Vatican Insider” em Junho de 2015.
O papa propõe o modelo de S. Francisco de Assis, de quem se aprende como são «inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior»
Ao dirigir-se não só aos cristãos, mas «a cada pessoa que habita neste planeta», este Francisco dos nossos dias invoca a «solidariedade universal» para «unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral».
Porque, lamenta: «A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo.» 
Francisco explica que «há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático», em virtude – ou malefício, no caso… - dos gases com efeito de estufa. E avisa: «Os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento.» «Por isso, tornou-se urgente e imperioso o desenvolvimento de políticas capazes de fazer com que, nos próximos anos, a emissão de anidrido carbónico e outros gases altamente poluentes se reduza drasticamente». No concreto, fala da «pobreza da água pública». Recorda que «o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal», e não esquece os «pulmões do planeta repletos de biodiversidade que são a Amazónia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes lençóis freáticos e os glaciares».
Existe, acrescenta, uma verdadeira «dívida ecológica» entre Norte e Sul: «O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra». “Estas situações exigem uma mudança de rota, um «sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas». Francisco denuncia «a fraqueza da reação política internacional», e «com muita facilidade, o interesse económico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afetados os seus projetos».
Porém, se «sobre muitas questões concretas, a Igreja não tem motivo para propor uma palavra definitiva», «basta (...) olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum”. Francisco convida a considerar o ensinamento bíblico sobre a criação, recordando que: «A Bíblia ensina que cada ser humano é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus.» «Não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada», escreve Francisco, afirmando que o convite a «”dominar” a Terra» contido no livro do Génesis não significa favorecer «a exploração selvagem da natureza”.
“O Papa sublinha “que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que adquirimos, nos dão um poder tremendo». Desta forma, «dão, àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do género humano». E é «tremendamente arriscado» que este poder «resida numa pequena parte da humanidade».

«Quando, na própria realidade, não se reconhece a importância dum pobre, dum embrião humano, duma pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos –, dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado”. Francisco trata depois da necessidade de «defender o trabalho» humano, que não deve ser substituído com o progresso tecnológico.
A propósito da inovação biológica, são prudentes os parágrafos dedicados aos organismos geneticamente modificados, mas reconhece que a utilização dos cereais transgénicos «nalgumas regiões, a sua utilização tem produzido um crescimento económico que contribuiu para resolver determinados problemas, não deixando porém de se preocupar por alguns movimentos ecologistas que reclamam a imposição de determinados limites à pesquisa científica, não aplicarem estes mesmos princípios à vida humana», como acontece com as «experiências com embriões humanos vivos».
«Para combater a pobreza» e ao mesmo tempo «cuidar da natureza», «a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma” e explica a necessidade de assumir «a perspetiva dos direitos dos povos e das culturas». porque «a imposição dum estilo hegemónico de vida ligado a um modo de produção pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas».
A ecologia humana significa também «ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade», e por isso «não é salutar um comportamento que pretenda cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela» e elege, de forma especial, a família, enquanto célula basilar da sociedade
Como agir então? O papa afirma que a «tecnologia baseada em combustíveis fósseis» deve ser, «progressivamente e sem demora, substituída», observa que «a política e a indústria reagem com lentidão» e que «as cimeiras mundiais sobre o meio ambiente dos últimos anos não corresponderam às expectativas». Os progressos sobre as alterações climáticas e a redução dos gases com efeito de estufa «são, infelizmente, muito escassos», também «por causa das posições dos países que privilegiam os seus interesses nacionais sobre o bem comum global». O papa alerta para as consequências de algumas estratégias para combater as emissões de gás que penalizam os países pobres com «pesados compromissos de redução de emissões», criando «uma nova injustiça sob a capa do cuidado do meio ambiente».
Bergoglio recorda que «a política não deve submeter-se à economia» e esta não deve submeter-se à tecnocracia. A propósito da crise financeira, afirma: «A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois duma longa, custosa e aparente cura». Francisco convida a «evitar uma conceção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros». «Face ao crescimento ganancioso e irresponsável, que se verificou ao longo de muitas décadas – devemos pensar também em abrandar um pouco a marcha», aceitando «um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo», procurando recursos para que outras possam crescer saudavelmente.

«A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa de traduzir-se em novos hábitos», o que implica «um desafio educativo». E é preciso começar desde pequeno a fazer escolhas quotidianas. O documento recorda o papel educativo da família no cuidado pela vida e o uso correto das coisas.
O papa pede uma «conversão ecológica» que reconheça o mundo «como dom recebido do amor do Pai».
E Francisco termina convidando-nos a contemplar o mistério da Criação «numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre».
Lisboa, 7 de Novembro de 2019