O milagre de Frei Pedro da Guarda

Há três ou quatro dias, no meu passeio matinal, tive uma surpresa, uma agradável surpresa. E hoje lá estive novamente para voltar a respirar a alegria. Ainda tive a tentação de entabular conversa com os restauradores, mas contive-me para não distrair os artistas. Decorreu na cidade da Guarda, entre 9 e 27 de Junho, a 5.ª edição do Simpósio Internacional de Arte Contemporânea (SIAC). Era já a quinta edição. Muito “leve, levemente”, como a neve de poeta Augusto Gil, fui acompanhando o evento, evitando aqueles momentos institucionais de inaugurações anunciadas. Ao longo dos anos, ouvi, por dever e devoção, tantos discursos de circunstância que já me vão faltando os ouvidos para tais. Perdoem-me as autoridades e, claro, os artistas.Aconteceu numa esplanada de um destes dias de Verão. Feitas as contas, até poderei indicar o dia! Ali, naquela esplanada de sombra onde o calor do Sol ainda não chegara, bem perto da mesa em que eu me encontrava a tomar o café do meio da manhã, estavam sentadas três pessoas. Entre elas, uma jovem. Mesmo antes do habitual cumprimento, um cavalheiro, então chegado, numa voz altissonante sai-se com esta:- Mas que raio de objecto mais feio foste pendurar na tua cara!Instintivamente – quem não o faria, dada a situação? – olhei na direcção de onde provinha a voz, imaginando eu - em tempo de máscaras, também a imaginação fica mascarada! - que se trataria de alguma máscara menos comum ou mais carnavalesca. Mas não, pois logo a jovem atalhou com todo o à vontade e até indisfarçada vaidade: - Sabe quanto é que me custaram estes óculos?Há perguntas que são respostas. Foi assim que fiquei a saber que a observação do cavalheiro incidia sobre uns óculos de sol. Sem qualquer hesitação aquela jovem foi interpelada com nova pergunta: - Mas o que é que o preço tem a ver com a beleza?Apreciei a pergunta. Esperando poder oferecer-se-me ali, graciosamente, uma lição de filosofia sobre a estética e o mercado, já não digo das artes, mas dessas coisas corriqueiras que vamos comprando para nos vestirmos, calçarmos, nos alimentarmos ou nos enfeitarmos com uns óculos da moda, por exemplo, agucei – passe a indiscrição – os meus ouvidos para a sequência do diálogo. À velocidade de um relâmpago, veio-me a esperança de poder encontrar ali a relação entre a beleza e um par de calças moídas e esburacadas com que se enfeitam algumas montras e os membros inferiores de tantos com que nos cruzamos nas ruas. Mas não, a jovem não respondeu a tão interessante e subtil pergunta e a conversa foi-se arrastando à maneira do que acontece à mesa de uma esplanada sombria num dia de calor como era aquele. Confesso que tive pena. Aprecio o sabor dos saberes da rua, esses sabores tão espontâneos como genuínos. Eles conduzem-me às ruas da minha aldeia, onde as soleiras sombrias das portas serviam de cadeiras em que sãmente se convivia nas horas permitidas pelas lides dos campos. Ali, as calças daquela gente admirável poderiam estar moídas e rotas ou remendadas, mas eram fruto daquele trabalho com que se criava o pão com o suor do rosto e o pó da terra. Gente heróica!Foi carregando este carácter de aldeão em cima dos ombros que na tarde daquele dia, muito “leve, levemente” e a pensar na relação entre a beleza e o mercado das artes que entrei em três espaços do SIAC. Todos situados na zona da imponente Catedral que ali se encontra, imóvel e feita de beleza granítica, a anunciar que a arte, quando verdadeiramente o é, tem de ser irmã da beleza e estar para além dos mercados, das galerias ou das exposições intencionalmente orientadas para o negócio, onde se vem jogando o mundo da “arte contemporânea” e onde tudo se pode anunciar como arte, ainda que seja uma simples banana colada com adesivo numa parede ou até …. Bem, tenho de resistir à tentação de enveredar pelos caminhos ou descaminhos da “arte contemporânea”. Expressão bem equívoca, opino eu. Que me perdoem os entendidos, mas tenho para mim que a verdadeira “arte contemporânea” é do tempo que mede a eternidade e não se compadece com extravagâncias fortuitas, mesmo que elas pretendam alimentar o espanto, a estranheza, a irritação, o escândalo e a reprovação de muitos ou movimentar o dinheiro de coleccionadores à custa de querelas e controvérsias de ocasião.Entrei, pois, nesse dia nestes três espaços, ali bem vigiados pela Sé e demorei-me particularmente num. Entrei nele muito “leve, levemente” onde se encontrava uma exposição que só seria inaugurada dali a dois dias. À entrada, um painel com um convite. “Contempla-me”, assim se anunciava a exposição. Arrastado pelo convite, entrei naquele silêncio que habitava o pequeno espaço onde mais ninguém parecia existir e outrora, talvez, local de orações incompletas, como incompleto parecia encontrar-se o retábulo de madeira. Era a pequena Capela do Solar dos Póvoas. Ali só falavam os ícones bizantinos, que desafiavam o visitante à contemplação e a completar as orações que outrora ali haviam sido interrompidas. Foi então que uma voz, muito suave e vinda do fundo, me despertou.- Boa tarde. Se desejar algum esclarecimento, disponha. Tenho o meu atelier nesta salinha.Era a iconógrafa que interrompera o trabalho para me acolher. Correspondi à saudação, agradeci com a promessa de a visitar no seu trabalho, e continuei a minha bizantina visita.Depois seguiu-se um diálogo frutuoso com Tânia Pires, a simpática artista que se encontrava a realizar um quadro de Frei Pedro da Guarda. Foi uma surpresa. Não imaginava uma artista bragantina a criar, na Guarda e num Simpósio Internacional de Arte Contemporânea, um ícone bizantino a representar a figura deste franciscano nascido na Guarda em 1435 e falecido com fama de santidade na Madeira a 27 de Julho de 1505. Foram seus eixos da vida a penitência, a oração e a caridade. Esta artista de Bragança havia pesquisado a vida de Frei Pedro para realizar a pintura e o seu quadro, que já estaria terminado no dia da inauguração, estava destinado – assim me disse, para minha nova surpresa e gáudio - ao museu da cidade. Há dias, no meu passeio matinal, tive outra surpresa, uma alegre surpresa. Foi por aí que comecei. Encontrava-se já em andamento o restauro do painel de azulejos, com que a Guarda honrara este Frei Pedro na década de quarenta do século passado, como a iconógrafa me havia anunciado. Estava bem informada esta artista de Bragança que ali pintava como quem reza uma oração eternamente contemporânea.«O que é que o preço tem a ver com a beleza?» Contrastando o pobre, áspero e remendado hábito de Frei Pedro da Guarda com o esplendor da sua santidade, traduzida, conforme as crónicas, em muitos milagres, bem poderemos descortinar uma beleza outra para além daquela que transparece na materialidade das coisas que nos envolvem ou nos circundam ou que os artistas, contemporâneos ou não, vão criando com as suas fantasias. Ali, naquela biografia deste santo da Guarda, encontra-se uma obra de arte feita de vida. Grande escultor, este nosso Frei Pedro! Humilde como era, bem dispensaria as honras de um largo ou de um painel de azulejos. Mas, pela força da gratidão da gente serrana e das preces das gentes da Madeira, lá consentiu em realizar mais um milagre e o seu painel de azulejos, há dezenas de anos mais mal tratado que os remendos do seu pobre e velho hábito, refulgirá novamente de entre as pedras de granito.Grande escultor, este Frei Pedro da Guarda! Ele é um artista bem contemporâneo!Guarda, 22 de Julho de 2021